Devocional

A lei natural das bênçãos

Reitor da Escola de Biologia e Agricultura da BYU

20 de março de 2001

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Recebam os servos do Senhor. Se recebermos os servos do Senhor, receberemos o Senhor. Sempre que formos obedientes à lei sobre a qual se baseia uma bênção, ela será entregue.


Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu

Olhando para esse grupo, eu me lembro de um devocional da BYU que eu assisti quando era calouro. O presidente Ernest L. Wilkinson estava dirigindo. Assim como hoje, estávamos às vésperas da primavera. “Ah, primavera!” Disse o presidente Wilkinson. “Que estação maravilhosa! A primavera é o momento em que os pensamentos de um rapaz se voltam para aquilo que uma moça pensou durante todo o inverno.”

Como vocês puderam aprender com a minha introdução, eu sou agrônomo. Uma parte considerável da minha carreira tem sido dedicada a melhorar a produção de milho. Começo meu discurso com uma percepção que ganhei com a minha pesquisa sobre o milho, uma percepção  que me ajuda a entender a chave para obter bênçãos do céu. 

Deixem-me mostrar um simples gráfico de barras que mostra o rendimento do milho influenciado pela cultura agrícola anterior. O melhor rendimento foi obtido do milho cultivado em um campo onde esse grão não havia sido plantado há cinco anos. O segundo melhor rendimento foi de um campo no qual o milho foi cultivado alternadamente com soja. Os piores rendimentos foram todos de campos que foram plantados com milho após um plantio prévio de milho por dois, três, quatro, cinco ou dez anos seguidos.

O gráfico ilustra o que é referido entre os cientistas de culturas agrícolas como o efeito de rotação. Aqueles que cultivam tomates sabem que eles não darão o melhor rendimento se forem plantados repetidamente no mesmo local da horta, ano após ano. Um experiente fazendeiro de batatas de Idaho disse uma vez que a melhor rotação para batatas era de mil anos de sagebrush (vegetação nativa do deserto americano) e um ano de batatas.

Há duas conclusões significativas que meus alunos e eu adquirimos de nossos 20 anos de pesquisa com o milho. A primeira é que o efeito de rotação é infalivelmente confiável. O milho alternado sempre, não apenas às vezes, mas sempre deu os melhores rendimentos. Não importa o clima, não importa como modificamos nosso manejo ou insumos de fertilizantes ou pesticidas, não conseguimos elevar a produtividade do milho contínuo ao nível de uma safra de primeiro ano. A segunda é que, embora tenhamos obtido algumas percepções, nunca fomos capazes de determinar por que esse aumento de rendimento do primeiro ano ocorreu. Avaliamos todos os fatores físicos e biológicos que podíamos pensar. Finalmente aceitamos que estávamos trabalhando com uma lei da natureza e que não podíamos desviar a Mãe Natureza do seu curso decretado.

É sobre as leis da Mãe Natureza – ou melhor, sobre as leis do pai da Mãe Natureza – que falarei hoje. Podemos nos referir ao pai da Mãe Natureza como Avô Natureza– ou podemos chamá-lo de Deus.

Agora mudo o assunto do milho para falar sobre a minha família. A mais nova de nossos sete filhos é uma menina de nove anos chamada Sadie. O jogo favorito da Sadie para a noite familiar é o que chamamos de “o jogo das bênçãos”. Para jogar o jogo das bênçãos precisamos apenas de nossas mãos e um lanchinho. M&M’s ou passas são uma boa opção. Quando a Sadie começa o jogo, o resto de nós coloca as mãos abertas no colo e fechamos os olhos. A Sadie então anda ao redor de cada um de nós, um por um, e pode colocar o lanchinho em nossas mãos ou passar direto, deixando nossas mãos vazias. Assim que ela termina de dar a volta, ela nos chama para abrir os olhos e declarar se fomos “abençoados” com o lanchinho ou não.

Depois de descobrirmos quem foi abençoado e quem foi deixado de lado, tentamos determinar a “lei” ou condição da bênção. Será que a Sadie deu uma passa apenas aos que estavam no círculo que tinham sapatos, ou talvez aos que tinham dormido na barraca na noite anterior? Vocês veem que algumas das qualificações são elusivas, e temos que pedir pistas. Quando alguém finalmente adivinha o requisito comum que qualificava os abençoados, é a vez dessa pessoa, e todos nós fechamos os olhos e estendemos as mãos outra vez.

Uma condição do jogo na qual o pai da Sadie insiste é que, cada vez que jogamos, devemos ler três escrituras.

A primeira está em D&C 78:

Em verdade, em verdade vos digo: Vós sois criancinhas e ainda não compreendestes quão grandiosas são as bênçãos que o Pai tem nas mãos e preparou para vós. [D&C 78:17]

A segunda está em D&C 130:

Há uma lei, irrevogavelmente decretada no céu antes da fundação deste mundo, na qual todas as bênçãos se baseiam—

E quando recebemos uma bênção de Deus, é por obediência à lei na qual ela se baseia. [D&C 130:20–21]

A terceira está em D&C 132:

Pois todos os que receberem uma bênção de minhas mãos obedecerão à lei que foi designada para essa bênção e suas condições, como instituídas desde antes da fundação do mundo. [D&C 132:5]

Ao lermos essas escrituras na nossa noite familiar, gostamos de considerar as bênçãos que o Pai Celestial tem em Suas mãos e como elas devem diferir dos M&M’s da Sadie.

Vou revisar rapidamente algumas das bênçãos irrevogavelmente decretadas pelo Pai Celestial. A primeira está na seção 62 de Doutrina e Convênios:

Não obstante, bem-aventurados sois, porque o testemunho que prestastes está registrado no céu para ser visto pelos anjos; e eles se regozijam por vós e vossos pecados vos são perdoados. [D&C 62:3]

É interessante que os anjos no céu registrem nossos testemunhos e olhem para eles e se regozijem conosco por tê-los prestado. É extraordinário saber que nossos pecados são perdoados quando prestamos um testemunho. Assim como o efeito da rotação de milho, eu não descobri como isso funciona, mas acredito que funciona, pois apenas três versículos mais tarde na seção 62, encontramos: “Eu, o Senhor, prometo aos fiéis e não posso mentir” (D&C 62:6).

A seção 78 de Doutrina e Convênios descreve uma bênção excepcional pelo simples ato de manter um coração agradecido:

E aquele que receber todas as coisas com gratidão será glorificado; e as coisas desta Terra ser-lhe-ão acrescentadas, mesmo centuplicadas, sim, mais. [D&C 78:19]

As escrituras estão bem repletas com exemplos de bênçãos que parecem extravagantes em proporção às suas qualificações. Temos as janelas do céu abrindo com mais bênçãos do que podemos acomodar apenas por pagarmos o dízimo.

Vou concentrar o resto do meu discurso em uma incrível bênção condicional estabelecida pelo Senhor na seção 84 de Doutrina e Convênios, conhecida como juramento e convênio do sacerdócio. Esta é a chave da minha mensagem. Convido-lhes a prestarem atenção.

E também todos os que recebem esse sacerdócio a mim me recebem, diz o Senhor;

Pois aquele que recebe os meus servos, a mim me recebe;

E aquele que me recebe a mim, recebe a meu Pai;

E aquele que recebe a meu Pai, recebe o reino de meu Pai; portanto tudo o que meu Pai possui ser-lhe-á dado.

E isto está de acordo com o juramento e convênio que pertencem ao sacerdócio.

Portanto todos os que recebem o sacerdócio recebem este juramento e convênio de meu Pai, que ele não pode quebrar nem pode ser removido. [D&C 84:35–40]

Vocês notaram isso? Vocês conseguiram entender a simples qualificação que precisamos cumprir para receber a bênção do reino do Pai e tudo o que Ele tem? A bênção está lá, e é poderosa em sua simplicidade. Irmãs, tenho plena confiança de que essa promessa é tanto para vocês quanto para os irmãos.

Vamos examinar novamente: “E também todos os que recebem esse sacerdócio a mim me recebem, diz o Senhor.

E como “recebemos” o Senhor? Ele nos diz na próxima frase: “Pois aquele que recebe os meus servos, a mim me recebe.”

É isso. Essa é a qualificação. Receber os servos do Senhor. Se recebermos os servos do Senhor, recebemos o Senhor. E se recebermos o Senhor, recebemos o Pai. E quando recebemos o Pai, recebemos o reino do Pai e tudo o que o Pai tem.

Tenham paciência comigo agora enquanto exploro com vocês as implicações do juramento e convênio que o Pai faz com aqueles que recebem os servos de Seu Filho. E não vamos ignorar o fato de que este é um juramento e convênio que o Pai “não pode quebrar, nem pode ser movido”.

Vou contar cinco histórias. Todas elas são verdadeiras.

A primeira delas aconteceu há 3.000 anos. Tudo começou com um rapaz que tinha um rosto bonito, era agradável à vista e sobre quem o Senhor falou ao profeta Samuel: “Levanta-te, e unge-o, porque é este mesmo” (1 Samuel 16:12). Ele foi o jovem que “pôs a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa; caiu sobre o seu rosto em terra” (1 Samuel 17:49). Sim, este foi Davi, que voltou após o massacre dos filisteus e encontrou as mulheres que vinham

de todas as cidades de Israel, cantando e dançando com instrumentos de música..

E as mulheres diziam: Saul derrotou os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares.

Então Saul se indignou muito, e aquela palavra pareceu mal aos seus olhos, e disse: Dez milhares deram a Davi, e a mim somente milhares; na verdade, que lhe falta, senão só o reino? 

E Saul temia Davi, porque o Senhor era com ele e se tinha retirado de Saul. [1 Samuel 18:6–12]

E, então, vemos Saul lançando a sua lança contra o jovem herói em ciúmes, dizendo: Encravarei Davi na parede. E Davi se desviou dele [de Saul] por duas vezes.” (1 Samuel 18:11).

A parte da história em que quero focar é a parte em que Saul, ouvindo que Davi estava no deserto, “tomou Saul três mil homens, escolhidos dentre todo o Israel, e foi à busca de Davi e dos seus homens, até sobre os cumes das penhas das cabras monteses” (1 Samuel 24:1–2). Esta é a parte em que Davi e seus homens estavam escondidos na caverna na qual Saul entrou para tirar uma soneca. Então os homens de Davi lhe disseram, “Eis aqui o dia, do qual o Senhor te disse: Eis que te dou o teu inimigo nas tuas mãos, e far-lhe-ás como te parecer bem aos teus olhos“(1 Samuel 24:4).

Agora, sob essas circunstâncias, que pensamentos poderiam ter passado pela cabeça de Davi? Era óbvio para ele que Samuel e o Senhor haviam rejeitado Saul, e que Saul era um homem beligerante e maldoso, cuja principal atividade era caçar Davi para tirar-lhe a vida, que o povo de Israel amava Davi, que Davi era seu herói e, acima de tudo, que ele, Davi, tinha sido escolhido por Deus e ungido pelo profeta para substituir Saul como rei.

Então, o que Davi fez? O registro nos diz que ele se aproximou silenciosamente e cortou a barra da túnica de Saul. Quando Saul se levantou da caverna e partiu, Davi deixou-o ir a uma distância segura, e então o chamou, segurando a barra da túnica, dizendo, “Rei, meu senhor! E olhando Saul para trás, Davi se inclinou com o rosto em terra, e se prostrou”(1 Samuel 24:8).

Então, percebendo o que havia acontecido, como sua vida estava nas mãos de Davi e que Davi o havia poupado e estava naquele momento ajoelhado diante dele: “Saul alçou a sua voz e chorou” (1 Samuel 24:16).

Agora, não ficamos impressionados com a conduta de Davi? Nessas circunstâncias, não agiu admiravelmente? Mas esperem. Há mais dois versículos que devemos ler.

Sucedeu, porém, que depois doeu o coração de Davi, por ter cortado a orla do manto de Saul.

E disse aos seus homens: O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do Senhor, estendendo eu a minha mão contra ele; pois é o ungido do Senhor. [1 Samuel 24:5–6]

Quando penso nessa história e na admirável perspectiva e ações de Davi, fico impressionado. Não consigo pensar em outro relato que se compare a este como um exemplo de honra a um servo ungido do Senhor, mesmo quando aquele servo, por qualquer razão, não parecia digno dele.

Minha segunda história se passa na Nova Zelândia, onde meu companheiro de missão e eu estávamos trabalhando em um subúrbio da capital Wellington. Eu mudei os nomes das pessoas. Chegamos na reunião sacramental uma tarde para descobrir que a capela estava completamente cheia. O presidente do ramo estava sendo desobrigado. Não havia mais assentos, então ficamos em pé na parte de trás. Notei, sentado no último banco, um membro do ramo que era menos ativo. Seu nome era Jimmy Solomon. Jimmy era taxista, e eu o tinha visto nas ruas várias vezes, geralmente com um charuto na boca.

“Todo mundo está aqui para ver a mudança de liderança”, eu pensei, “até Jimmy Solomon”.

Depois que o presidente desobrigado do ramo recebeu um voto de agradecimento, o presidente da missão disse à congregação que o Senhor havia chamado o irmão Jimmy Solomon para ser o próximo presidente do ramo. Um suspiro de surpresa surgiu da congregação. Parecia que todos tinham se virado e olhado para Jimmy. Sua cabeça estava baixa, e ele mexia em um pequeno boné nas mãos.

“Todos os que sentem que podem apoiar o irmão Solomon neste chamado, por favor,  manifestem-se levantando a mão”. Poucas mãos se levantaram. “Há alguém que se oponha?” A sala estava cheia de mãos levantadas.

Eu nunca tinha testemunhado tal coisa. “O que eles fazem agora?” Eu me perguntei.

A reunião foi encerrada. Todos os que se opuseram foram convidados para o salão cultural para compartilhar suas preocupações. Meu companheiro e eu não nos juntamos ao grupo. Na manhã seguinte, soubemos que, depois de muita discussão, o Jimmy Solomon havia sido apoiado e ordenado como o novo presidente do ramo.

Cerca de uma semana depois, meu companheiro e eu estávamos em pé na esquina de uma rua movimentada em Wellington. Notamos uma figura familiar dirigindo um táxi em nossa direção. Quando ele passou, vimos, para nossa decepção, que havia um charuto na boca do Presidente Solomon.

Essa foi a última vez que eu vi Jimmy Solomon antes de eu ser transferido. Um ano depois, voltei ao ramo para realizar um batismo. Após a reunião, fomos convidados para a casa do bom irmão que tinha sido o presidente do ramo pouco antes de Jimmy Solomon. Quando terminamos nossa refeição, ele se levantou e disse: “Venham, há algo que eu quero que vocês vejam.” Fomos com ele pela rua até a casa de Jimmy Solomon. A sala em que entramos era bem iluminada, acolhedora e cheia de um sentimento de amizade. Enquanto apertava a grande mão de Jimmy Solomon, notei seu rosto. Ele irradiava. Ele estava entusiasmado com o nosso trabalho missionário, e falou sobre o seu amor pelo templo.

“O que aconteceu?” Perguntei ao bom irmão quando saímos da casa de Jimmy um pouco mais tarde.

“Bem,” ele respondeu, “Como você se lembra, foi um momento desafiador para todos nós quando o Jimmy foi chamado para presidir o ramo. O grupo de sumos sacerdotes se reuniu. Todos nós concordamos que o Senhor deve ter chamado o Jimmy, porque nenhum de nós jamais pensaria nisso. E concluímos que, se o Senhor o havia chamado, era nosso dever apoiá-lo. Juntos fomos até ele e lhe asseguramos nosso amor e apoio. Nós nos voluntariamos para aceitar chamados.

“O Jimmy jogou fora seu charuto. Ele começou a agir como o líder que o Senhor sabia que ele era. E sabem de uma coisa? Ele foi até todos os seus amigos que bebiam cerveja e os fez voltar para a igreja também. Ele levou vários deles para o templo. Tem sido tão maravilhoso. Eu não poderia ter alcançado aqueles homens. E, como vocês viram hoje, estamos construindo uma nova capela. A antiga já não tem capacidade para todos nós.”

A terceira história aconteceu quando eu era estudante de pós-graduação. Eu estava em pé diante de um quadro-negro no meio da minha prova oral preliminar para o meu PhD. Um dos professores tinha descoberto um aspecto do meu conhecimento e treinamento em que eu era fraco, e ele continuava a expor minha ignorância. Lembro-me muito claramente de como meus pensamentos pareciam flutuar acima de mim, fora do meu alcance. E quando o professor me fazia uma pergunta, meus pensamentos começavam a descer lentamente em minha direção. Mas, antes que pudessem chegar até mim, eu era atingido por outra pergunta, e meus pensamentos rapidamente recuavam de volta para cima, novamente fora do meu alcance. Perdi toda a esperança, e em vez de me concentrar nas respostas às perguntas, comecei a considerar como eu iria lidar com o fracasso na prova.

De repente, um membro diferente do comitê examinador interrompeu. “Pare. Chega”, ele disse. “Crookston, venha e sente-se. É a minha vez de fazer perguntas.” Voltei à minha cadeira, sentindo que tinha sido arrancado da frigideira apenas para ser jogado no fogo. Aquele que tinha me mandado sentar era um bioquímico, e a bioquímica era um assunto em que eu era ainda menos competente do que aquele que tinha acabado de me atrapalhar.

Mas, em vez de perguntar sobre bioquímica, o professor passou a me perguntar sobre minha família e sobre a profissão do meu pai. Assim que percebeu que eu estava novamente com a mente clara, ele me orientou através de uma discussão que nos levou a uma área de minha pesquisa onde eu podia ser professor para ele. Pouco depois, outro examinador continuou de onde o bioquímico havia parado, e as respostas me vinham com facilidade. Eu passei no teste.

Já me lembrei dessa experiência centenas de vezes. E todas as vezes eu me perguntei o que poderia ter sido de mim se aquele professor não tivesse me recebido, não tivesse me acalmado, não tivesse permitido que eu demonstrasse um dos meus pontos fortes em vez de me deixar afundar em minha fraqueza. Ele será para sempre um dos meus salvadores.

A quarta história é curta. Estávamos vivendo na cidade de Saint Paul, que abriga uma das grandes catedrais católicas dos Estados Unidos. Um dos arcebispos da Igreja Católica preside lá. Certa manhã, no jornal, li que o arcebispo havia sido preso por dirigir embriagado. Fiquei surpreso. Mais tarde, naquele mesmo dia, uma das minhas alunas de pós-graduação veio ao meu escritório. Ela era uma freira católica. Para expressar preocupação e empatia, perguntei-lhe sobre a notícia do arcebispo.

“Oh, que homem querido ele é”, ela respondeu rapidamente. “Estou orando por ele desde que recebemos a notícia. Ele é meu arcebispo. Ele precisa do meu apoio.”

Assim que eu percebi sua natureza doce e solidária, uma pergunta perturbadora entrou em minha mente. Como eu teria respondido se a mesma notícia fosse divulgada sobre o nosso presidente de estaca e fosse a irmã católica que me fizesse a pergunta?

Talvez essas histórias os tenham deixado desconfortáveis. Deixem-me ser ousado ao passar do arcebispo e do presidente da estaca para o profeta Joseph Smith. Esta será a quinta história.

Era tarde da noite. Eu estava sozinho em uma designação na África, e eu estava lendo um livro intitulado Joseph Smith: O Primeiro Mórmon, escrito por Donna Hill. Era um livro que trazia a marca do estudo acadêmico, com centenas de notas e referências. Em um dos capítulos posteriores, intitulado “Dissensão em Nauvoo”, a autora documentou o que pareciam ser ações ilegais e um encobrimento associado por parte do profeta ao ordenar a destruição do Nauvoo Expositor (um jornal crítico). Verifiquei as referências; elas pareciam sólidas. Fiquei inquieto. Um espírito perturbador entrou no quarto. Fechei o livro. Apaguei a luz. Eu estava afetado pelo que estava sentindo. Eu queria nunca ter recebido o livro.

E então, de repente, todos os ruídos da minha mente se calaram. Era como uma tarde de inverno, quando todos os pardais do bairro parecem ter se reunido em uma única árvore, e eles vão pulando e cantando entre os galhos, como se fosse uma pequena reunião de pardais. Vocês já ouviram isso antes? Se vocês são como eu, vocês não percebem até que algo faça com que todos os passarinhos fiquem em silêncio. Eles fazem isso. De repente, todos param, exatamente de uma só vez. E então o silêncio é tão evidente que você percebe. Bem, minha mente ficou em silêncio assim.

E no silêncio veio o que eu poderia descrever melhor como uma repreensão. “Então”, disseram as palavras, “Você sente que deve reprovar as ações do profeta, não é? Você está chateado, aqui na escuridão, porque alguém escreveu algo em seu diário sugerindo que Joseph Smith não era perfeito. Imperfeito. A imperfeição lhe desaponta. E quem você acha que é? O que você acha que teria feito, se você estivesse no comando de Nauvoo durante aqueles dias sombrios? Como você teria lidado com a apostasia, com a inimizade, com a calúnia e com as ameaças intermináveis sobre sua vida? Você esperava perfeição. Você é melhor do que isso. Só Jesus Cristo era perfeito. Que imperfeição você teria escolhido para Joseph? Pode decidir. Você escolhe. Que imperfeição você aceitaria? Ele tinha falhas, você sabe. Algumas delas estão documentadas em Doutrina e Convênios. E você! Você sobe no seu pedestal e o condena por ser mortal. Que vergonha de você!”

O castigo continuou. “Seu problema, jovem, seu maior desafio em sua vida na Igreja, será aceitar aqueles tolos que eles chamarem para presidir sobre você em nível local na Igreja. Você vai se sentir inclinado a chamá-los de tolo, porque eles vão cometer erros – alguns deles perturbadores. Seu teste será ignorar as imperfeições, especialmente daqueles que vocês pensam que são menos qualificados para o cargo do que você pensa que é. Agora desça do seu pedestal e comece a ser grato pela vida de um homem imperfeito que, como profeta de Deus, trouxe à sua vida tesouros incalculáveis. Seja grato ao presidente Kimball, que enfrentou com grande esforço suas imperfeições e alcançou, com mérito, o chamado de profeta, tornando-se uma inspiração para milhões, inclusive você.”

E então as palavras pararam. Saí de baixo das cobertas, caí de joelhos no chão e pedi perdão. E comecei a oferecer uma oração de gratidão pelo Profeta Joseph Smith e por tudo o que ele tinha feito por mim. E agradeci ao Senhor pelo meu bispo e pelo tempo e esforço que ele dedicou à minha família. Agradeci pelos professores com salários baixos que ensinavam meus filhos na escola e pelos políticos e juízes que, em meu favor, lidavam com as imperfeições do sistema. E então, alegremente expressei gratidão pelos sentimentos de aceitação e apreço que haviam tomado conta do meu coração, substituindo a crítica e a censura.

Bem, eu espero que essas poucas histórias tenham ajudado vocês a entenderem meus sentimentos e perspectivas relacionados ao ato de “receber” os servos do Senhor. Vocês podem ver que eu acredito que os servos do Senhor estão ao nosso redor e que temos a oportunidade de recebê-los todos os dias. Na verdade, estudei a condição e a promessa contidas dentro do juramento e convênio do sacerdócio por quase a mesma quantidade de tempo quanto o meu estudo sobre o milho. E, tal como o efeito de rotação do milho, não entendo totalmente essa promessa – como uma condição  modesta pode resultar em uma bênção tão impressionante – mas acredito ter alcançado algum entendimento sobre como ela funciona. Tenham paciência enquanto fazemos uma dramatização por um momento.

É um dia quente. Você está parado no trânsito. Você está atrasado para seu compromisso – e está irritado. À sua direita, um veículo se aproxima. Você cola no carro da frente. O carro de trás cola em você. Observe como você se sente. Agora, veja essa situação de forma diferente. Visualize-se abrindo espaço à sua frente e fazendo um gesto para que o carro que se aproxima possa entrar. Você notou um aceno e um sorriso?”

Também observem isto: No instante em que tomamos a decisão de abrir um espaço e deixar o outro motorista passar, algo aconteceu dentro de nós. Tenho certeza de que vocês sentiram isso. Assim que decidimos deixar o outro carro entrar, nosso “modo de ser” foi transformado. Seria correto dizer que quando abrimos um espaço no trânsito, nosso modo de ser se tornou semelhante a Cristo? “Pois aquele que recebe os meus servos, a mim me recebe.”

As escrituras estão repletas deste princípio. Em Mateus, lemos:

Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;

Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;

Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; Estive na prisão, e fostes ver-me.

Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?

E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos?

E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?

E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. [Mateus 25:34–40]

Será que não está claro que todos com quem nos relacionamos – todos, desde iniciantes no trabalho até veteranos experientes que presidem sobre nós – todos são beneficiados quando os recebemos e os apoiamos, mesmo quando discordamos deles? Tenho certeza disso.

Testifico que sempre que consegui me aproximar humildemente, com a determinação de ser um consolador e um pacificador de outra pessoa com quem discordo, o Espírito Santo me acompanhou, e tanto eu quanto a outra pessoa conseguimos “receber” e nos apoiar mutuamente, mesmo tendo perspectivas diferentes. Há uma bênção de mão dupla envolvida nisso. Tanto aquele que recebe quanto aquele que é recebido são abençoados. Shakespeare falou bem quando falou, através de Portia a Shylock, no Mercador de Veneza (ato 4, cena 1, linhas 179-82):

A natureza da graça não comporta compulsão.

Gota a gota ela cai, tal como a chuva benéfica do céu. 

É duas vezes abençoada.

Enaltece quem dá e quem recebe.

É hora de encerrar. Deixem-me resumir minha mensagem.

O primeiro conceito que eu esperava desenvolver é que as mãos do Pai estão cheias de bênçãos para nós e existem leis imutáveis que governam a entrega dessas bênçãos. Sempre que formos obedientes à lei sobre a qual se baseia uma bênção, ela será entregue.

O segundo conceito é que tudo o que o Pai tem será nosso se cumprirmos uma simples condição. A condição simples é recebermos os servos do Filho do Pai. As escrituras deixam claro que esses servos incluem não apenas os profetas e apóstolos, mas também todos os nossos irmãos e irmãs que precisam de nosso encorajamento e apoio.

Estou convencido de que aquilo que está escrito na seção 84 de Doutrina e Convênios é uma promessa irrevogável de que o Avô Natureza “não pode quebrar nem pode ser removido.” Que nos tornemos habilidosos, especialmente nesta universidade, em receber os servos do Salvador, inclusive uns aos outros, é minha humilde oração em nome de Jesus Cristo. Amém.

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A lei natural das bênçãos

R. Kent Crookston foi o reitor da Escola de Biologia e Agricultura da BYU quando este discurso de devocional foi dado em 20 de março de 2001.