Joseph Smith – Palestra 1: A Primeira Visão e suas consequências
Professor de Filosofia na BYU
22 de agosto de 1978
Professor de Filosofia na BYU
22 de agosto de 1978
Registrando os sentimentos que teve ao sair do Bosque e dos dias que se seguiram, Joseph fez esta declaração: “Minha alma estava repleta de amor e, por muitos dias, pude regozijar-me com grande alegria e o Senhor estava comigo, mas eu não consegui encontrar ninguém que acreditasse na visão celestial.”
Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu
Anos atrás, preparei um artigo intitulado Joseph Smith Among the Prophets [Joseph Smith entre os profetas].1 Este documento tentou apresentar dez caracterizações de profetas que são típicas na literatura judaico-cristã. Por exemplo, um profeta é um vidente; ele tem acesso profético ao futuro. Além disso, os profetas são chamados de “porta-vozes”, o que significa que eles falam ousadamente em juízo e em recomendação quanto ao seu próprio tempo. Um profeta também é um homem que tem autoridade, que fala com uma legitimação maior que a humana. Ele é um recuperador ou descobridor da verdade. Ele é um defensor da retidão social. Ele é carismático, cuja personalidade manifesta algo que atrai em um sentido espiritual. Ele é alguém que suporta o sofrimento, e o faz de forma radiante. Ele é uma personificação do amor. Ele é um vidente, o que significa que ele tem a capacidade de compreender e revelar claramente a verdade. Finalmente, entre os grandes profetas do passado, muitos foram mártires.
Na minha apresentação, demonstrei que Joseph Smith, em cada um desses pontos, se qualifica como profeta. Se pudermos usar qualquer um deles para caracterizar um profeta, o que podemos dizer de um homem que manifesta todos eles?
Mais intimamente do que nas características judaico-cristãs acima, chegamos a uma abordagem subjetiva da gloriosa primeira visão de Joseph.
Em 1969, a BYU Studies publicou uma coleção escrita com os quatro relatos conhecidos da Primeira Visão.2 Um dos relatos foi registrado pela primeira vez em 1832; outro surgiu em 1835, após uma visita que Joseph recebeu de um judeu chamado Matthias. Há também a declaração de 1838, publicada ao mundo em A Pérola de Grande Valor; e, por fim, a conhecida carta Wentworth, escrita em 1842 ao Chicago Democrat, na qual o Profeta resumiu brevemente sua primeira visão. A publicação da BYU Studies tinha como objetivo não só disponibilizar, como efetivamente fez, os escritos originais — os relatos manuscritos de seus diversos escribas, conforme ditados por ele —, mas também oferecer artigos de contexto escritos por alguns dos melhores estudiosos da Igreja.
No primeiro relato, Joseph fala de seu tempo em Vermont. Lá, e mais tarde em Nova York, Joseph olhava para cima à noite e se maravilhava com a simetria, a beleza e a organização dos céus. Algo nele dizia: “Por trás disso deve haver um majestoso criador dos céus.”4 O contraste entre sua consciência jovem e a confusão que ele via neste planeta não era apenas difícil; isso queimava sua alma.5 Joseph lamentava as divisões em Palmyra, que existiam não apenas entre pessoas, vizinhos e amigos, mas também dentro de sua própria família. Ele tinha pelo menos um parente em cada igreja de Palmyra, de modo que sua família estava totalmente espalhada. Ordem no céu, desordem na Terra. Como poderia Deus ser responsável por ambos?
O registro deixa claro que, antes da sagrada experiência no Bosque, nunca havia ocorrido a Joseph que todas as igrejas influentes estivessem erradas. A pergunta que Joseph fez a Jesus Cristo quando ele se recuperou não foi: “Existe uma igreja verdadeira no mundo?” A pergunta era: “Qual igreja é verdadeira?” Ele presumiu que pelo menos uma delas tinha que ser verdadeira. A resposta, portanto, foi ainda mais marcante e surpreendente: “Não se una a nenhuma delas.”6
Ao ler na Bíblia, Joseph foi “tocado” – na verdade, ele disse: “Jamais uma passagem de escritura penetrou com mais poder no coração de um homem do que essa, naquele momento, no meu.”7 Talvez tenha sido o reverendo George Lane quem primeiro disse, diante de Joseph Smith: “Peça a Deus.” Essa passagem específica em Tiago 1:5 foi mencionada em alguns dos sermões do ministro. Sendo metodista, ele estava associado a avivamentos no oeste de Nova York.8 Joseph mais tarde passou a falar de um pregador metodista com quem ele estava logo após a visão, uma pessoa que era, Joseph recorda, “ativa na excitação religiosa mencionada anteriormente”. Imaginem (e isso para mim é comovente) Joseph, aos quatorze anos – ainda cheio da glória, da experiência extraordinária e da empolgação daquele momento, relatando tudo a esse homem. E a resposta do homem foi: “Oh não, isso não pode ter vindo de Deus. Essas coisas não acontecem mais.”
Portanto, quem não tem sabedoria deve ir e orar a respeito disso. Que peça a Deus, sem hesitar. Mas, para esse homem, a resposta parecia… bem, um pouco demais. O céu havia chegado muito perto. Quase podemos visualizar o menino – de mente pura, espontâneo, até mesmo um pouco desenfreado, como os adolescentes tendem a ser – sendo impressionado com a maravilha dessa extraordinária resposta à oração. “Nossa! Funcionou! Você me disse para fazer isso. Eu fiz.” E a resposta foi: “Ah, rapaz, isso é tudo coisa do diabo.”9 O sorriso do menino desapareceu lentamente. E aprendeu cedo que testificar de manifestações divinas era provocar trevas e ira. Essa ira acabou se transformando em tiros.
Os inimigos de Joseph Smith disseram repetidas vezes que ele era desleixado, preguiçoso, indolente, que ele nunca trabalhou um dia em sua vida.10 Mas existe um documento que contém relatos de lembranças sobre Joseph Smith, conforme registrado por Martha Cox. Uma das lembranças vem de uma mulher, identificada como Sra. Palmer, que conheceu Joseph na infância.11 Quando era menina — aparentemente alguns anos mais nova do que ele — ela o via, junto com outros rapazes, trabalhando na fazenda do pai dela. Longe de ele ser indolente, a verdade é que, de acordo com esse relato, o pai dela contratou Joseph porque ele era um bom trabalhador.12
Outra razão foi que Joseph conseguiu fazer com que os outros meninos trabalhassem. A suspeita é de que ele tenha feito isso com o uso hábil dos seus punhos. Acredito que um dos sentimentos de indignidade que ele teve, uma das coisas pelas quais ele pediu perdão (e seu relato mostra que ele orou pedindo perdão antes das visitas de Morôni), foi essa propensão física. Ele era tão forte, tão musculoso, tão fisicamente capaz, que era uma maneira que ele tinha de resolver problemas. Isso o perturbou. Ele sentiu que isso não estava em harmonia com o encargo divino que havia recebido.13
O relato da Sra. Palmer fala sobre “o alvoroço despertado entre algumas das pessoas por causa da primeira visão [de Joseph].” Um líder religioso, recorda ela, veio falar com seu pai “para adverti-lo sobre permitir uma amizade tão próxima entre sua família” e o jovem Joseph. Mas o pai, satisfeito com o trabalho de Joseph na fazenda, estava determinado a mantê-lo trabalhando lá. Quanto à visão, ele disse que era “o doce sonho de um menino de mente pura”. Mais tarde, relata a filha, Joseph alegou ter tido outra visão; e desta vez isso levou à produção de um livro. O líder religioso voltou, e nesse momento, o pai da menina virou-se contra Joseph. Mas, ela acrescentou significativamente, já era tarde demais. Joseph Smith tinha seguidores.14
Os primeiros membros desse movimento eram sua família, que o apoiava e amava consistentemente. Na verdade, não há maior exemplo de perseverança familiar total na história do que o da família Smith. É certo que passaram por altos e baixos, e que William Smith era quase tão inseguro e instável quanto Hyrum Smith era leal e inflexível. Mas, de modo geral, um dos pontos fortes da história da Igreja é que os membros da primeira família se mantiveram fiéis uns aos outros.15 Mesmo nos primeiros dias das revelações de Joseph, o pai o aconselhava a não ser desobediente à visão celestial.16
O relato de 1838 da Primeira Visão descreve a luta que Joseph teve com o adversário. Em momentos cruciais da Restauração, Belzebu, o inimigo da retidão e príncipe das trevas, fez com que outros sentissem seu poder.17 A Primeira Visão foi um ponto natural de ataque. O diabo não perdeu, como nós perdemos, a memória da vida pré-mortal. Ele não foi colocado em um corpo físico nem teve um véu colocado sobre ele. Ele, portanto, conhecia Joseph Smith. Mais tarde, em sua vida, Joseph passou a dizer: “Todo homem [e isso incluiria a ele mesmo] que tem um chamado para ministrar aos habitantes do mundo- foi ordenado para esse mesmo propósito no Grande Conselho dos céus antes que este mundo existisse.”18 Não é de se surpreender, então, que o adversário desejasse frustrar as fervorosas súplicas do menino Joseph no Bosque Sagrado. Não foi a primeira vez que alguém orou para que o Senhor respondesse à difícil pergunta: “Onde está a verdade?” A resposta que veio a Joseph foi, eu acredito, uma resposta a milhões de orações oferecidas ao longo dos séculos, em ambos os lados do véu.
Quão forte foi a influência das trevas nessa ocasião? No relato da Pérola de Grande Valor, Joseph deixa claro que não foi uma experiência imaginária. Por um tempo, parecia que ele seria destruído.19 Em um relato anterior, ele acrescenta que, por algum tempo, não conseguia falar, como se lhe travasse a língua.20 Ele exerceu fé e foi libertado do poder maligno.
Ao longo de sua vida, o Profeta tinha coisas importantes a dizer sobre o poder do maligno, mas ele nunca disse que o maligno era tão poderoso quanto o Deus vivo. Ele conhecia os dois. Tal como Moisés na antiguidade, ele não se confundiu ao experimentar ambos e sentir a força de sua influência. Falando sobre o tipo de poder que chamamos de “possessão”, ele ensinou aos santos que “o diabo não tem poder sobre nós, desde que não o permitamos.” Ele também disse, em outro momento, que todos os homens têm poder para resistir ao diabo. Tudo, em suma, é voluntário.23 Mas, quer sejamos justos ou não, todos enfrentamos os ataques dele. E eles podem vir de fora, como no caso de Joseph no Bosque, ou, se nos rendermos, eles podem se tornar interiores– e nós mesmos podemos nos tornar as próprias marionetes do maligno. Um entendimento saudável, se é que posso chamá-lo assim, sobre o poder das trevas surgiu da visão inicial de Joseph Smith, assim como um respeito glorioso pelo poder que supera as trevas.24
Joseph descreveu a luz descendente. Ao ditar o relato, ele procurou a palavra apropriada. Ele primeiro usou a palavra fogo, que foi substituído para dar lugar às palavras espírito ou luz. A palavra que ele acabou escolhendo e usando com mais frequência foi glória, que se refere ao espírito e ao poder de Deus que emanam e irradiam.25 Mas é importante notar a palavra fogo. O livro Interesting Account of Several Remarkable Visions [Relato interessante de várias visões notáveis], foi publicado em 1840 e era muito lido nas missões na Grã-Bretanha e na Europa, dois anos antes da carta de Wentworth.26 Orson Pratt disse no livro que o jovem profeta imaginava ver “as folhas e os ramos das árvores queimados”. Em outras palavras, ele pensava estar vendo descer fogo, do tipo que queima e consome. Será que esse detalhe foi algo que Orson Pratt tinha aprendido ao conversar com o Profeta? Ou seria uma inferência da declaração de Joseph, na qual ele relata que “o esplendor e a glória desafiam qualquer descrição”? Segundo o relato de 1835, o Profeta estava não apenas cheio dessa luz, mas também cercado por ela, que preenchia completamente o Bosque. Então, ele acrescenta: “Ainda não foi consumido”, talvez indicando que ele esperava que isso acontecesse.27
O Profeta não foi prejudicado pela experiência; mas, sim, santificado por ela. Tendo visto a luz, Joseph viu nela dois personagens, um dos quais lhe disse, apontando para o outro: “Este é o meu Filho Amado”. Na carta Wentworth, o profeta acrescenta, falando dos dois, que eles “se pareciam exatamente um com o outro em características e semelhança”.28 Observem que eles não apenas se pareciam — eles se pareciam exatamente um com o outro em características e semelhança. Falamos de uma semelhança familiar: “Tal pai, tal filho.” O Filho se parecia com o Pai. Filipe perguntou: “Mostra-nos o Pai.” Ele lhes disse: “Estou há tanto tempo convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai.”29 Isso não ocorre porque Eles são idênticos, mas porque Eles são, tanto na aparência quanto na natureza, exatamente semelhantes.
Esta circunstância pode dar contexto para a frase que Alma usou em sua série familiar de perguntas sobre nosso progresso espiritual: “Haveis recebido Sua imagem em vosso semblante?”30 Isso também pode dar um significado mais profundo à história favorita do presidente David O. McKay sobre a Grande face de pedra: ao amar um rosto, acabamos, pouco a pouco, assumindo o caráter daquilo que amamos.31 Isso também dá uma confirmação da visão posterior do Profeta a respeito dos Doze enquanto estavam em Kirtland: um grupo diversificado de homens, de diferentes origens, que ele viu em visão passando por lutas e provações, até contemplá-los glorificados. Ele os viu sendo conduzidos ao trono de Deus, recebidos pelo pai Adão, saudados e abraçados pelo Mestre, e então coroados. “Ele viu que todos tinham belos cabelos e que todos se pareciam uns com os outros.”32 Isso não deve ser interpretado como se os Doze tivessem traços absolutamente idênticos, mas sim que, em glória, “em vigor e beleza” — e o Profeta usa a palavra beleza para descrever a glória de um homem ressuscitado tanto quanto a de uma mulher — eles eram semelhantes.33
O jovem Joseph Smith aprendeu no Bosque Sagrado que ver o Pai é ver o Filho, e vice-versa.
Um ponto mais profundo é o relacionamento desses dois seres. Joseph ensinou na década de 1840 – e eu acho que foi uma extensão do que ele aprendeu no Bosque naquela manhã – que a declaração do Mestre sobre Ele não fazer nada além do que Ele tinha visto o Pai fazer tem implicações infinitas.34 Como poderia Jesus ter visto as obras do Pai como testemunha? O Presidente Joseph Fielding Smith escreveu: “Quando o Senhor disse que não podia fazer nada senão o que tinha visto o Pai fazer, isso significa simplesmente que lhe foi revelado o que o Pai havia feito. Sem dúvida, Jesus veio ao mundo sujeito às mesmas condições exigidas de cada um de nós— Ele esqueceu tudo e teve que crescer de graça em graça.”35
Novamente, o relacionamento é exato. Se o próprio Cristo é unigênito e é o primogênito no espírito, e se Ele é o Cristo não apenas desta Terra, mas também, como o Profeta ensinou mais tarde, da galáxia, assim antes Dele o próprio Pai foi um Redentor, tendo operado a salvação das almas das quais Ele era irmão, não um pai. Esse é um assunto profundo. A conclusão à qual Joseph Smith chega em seu discurso de King Follett é clara. Por mais surpreendente e grandiosa que seja, pelo menos significa o seguinte: O Pai, por experiência própria, sabe exatamente o que Seu Filho passou. E o Filho, por experiência, sabe exatamente o que o Pai passou. Portanto, quando Jesus diz: “Eu e meu Pai somos um”, Ele não está expressando uma identidade metafísica. Ele está falando da unidade do espírito, das pulsações harmônicas de amor e discernimento que só podem vir nos padrões da redenção eterna. Semeada na mente de um menino de quatorze anos, aquela semente de discernimento floresceu e cresceu.
Embora não saibamos por quanto tempo o Profeta Joseph esteve no Bosque naquele dia recebendo instruções, provavelmente foi mais longo do que pensamos que foi. Sabemos, por exemplo, que ele escreveu: “Muitas outras coisas Ele me disse, as quais não posso escrever neste momento.” Que eu saiba, ele nunca chegou a registrá-las. Alguns críticos observaram que o profeta falou da visita de anjos em conexão com sua primeira visão. Alguns teorizaram que Joseph começou afirmando que viu um anjo e terminou embelezando a ideia com a alegação de que ele viu o Pai e o Filho. Na verdade, depois de contar tudo o que sabemos sobre a visitação do Pai e do Filho, ele declarou, ao encerrar o relato de 1835: “Vi muitos anjos nesta visão.”38 Portanto, não faz sentido impor a ideia de que ele tenha visto apenas o Pai e o Filho ou apenas anjos. O que ele viu foram os dois.
Quem teria sido permitido estar com ele nessa teofania – quais anjos estavam presentes? Essa é uma pergunta incontestável. Temos o ensinamento de Joseph Smith de que os anjos são (1), personagens ressuscitados que viveram nesta terra, ou (2), os espíritos dos justos que viveram aqui e ainda serão ressuscitados, ou (3), como nos raros casos no Antigo Testamento, pessoas ainda não nascidas que vêm em antecipação. “Mas os únicos anjos que ministram nesta Terra são os que pertencem ou que pertenceram a ela.”39
Joseph ficou cansado por causa da experiência no Bosque. O encontro, por mais longo ou curto que tenha sido, exigiu muito dele. Ele diz: “Eu voltei a mim.”40 Não acho correto dizer que ele estava em transe ou em um estado místico. Os paralelos mais claros vêm dos registros antigos de Moisés, Abraão e Enoque. Como aqueles profetas antigos, Joseph estava cheio de um espírito que o ajudava a suportar a presença de Deus.41 Esse espírito é um que enerva ou energiza? Minha ponderada resposta é sim. É ambos. Isso exige de nós uma concentração e uma entrega incomparáveis a qualquer outra coisa possível nesta vida. Mas isso também confere grandes capacidades que transcendem nossos poderes finitos mentais, espirituais e físicos.
Em 1832, emergindo da visão sobre os três graus de glória (Doutrina e Convênios 76) com seu companheiro na visão, Sidney Rigdon, o Profeta parecia forte enquanto Sidney estava mole e pálido. Para isso, o Profeta, com certa humildade como também talvez com um pouco de condescendência, disse: “Sidney não está tão acostumado com isso como eu.”42 Mas, depois da Primeira Visão, ele ficou fraco. Logo chegou a hora de ele voltar para casa. Da mesma forma, em seu encontro repetitivo com Morôni em 1823, Joseph ficou fraco e seu pai o mandou para casa. Ele não conseguia nem mesmo subir a cerca, embora ele geralmente fosse um menino forte e vigoroso. Neibaur relatou a experiência, falando da condição de Joseph imediatamente após a Primeira Visão: “Eu senti-me extraordinariamente fraco.”43
Passamos agora para algumas das extensões teológicas desse pensamento inicial da Primeira Visão, como o Profeta ensinou mais tarde. “É o primeiro princípio do evangelho”, disse ele, “conhecer com certeza o caráter de Deus”. Isso é mais do que dizer que é o primeiro princípio saber que Deus existe. Ele não usou a palavra existência neste contexto. Vocês não conseguiriam encontrar nenhuma situação em que Joseph Smith falasse sobre a existência de Deus. Por que não? Uma resposta: Porque não começamos a discutir sobre a existência de uma coisa até que surjam dúvidas sérias sobre ela. Os argumentos para a existência de Deus são uma espécie de assobio no escuro. Na ausência de experiência com Deus, os homens inventaram argumentos para justificar a experiência da ausência de Deus. Eles construíram uma torre de Babel racional, da qual eles se confortam com: “Nós não ouvimos de Deus, mas Ele ainda deve estar lá.”
Mas Joseph não estava especulando. Ele estava relatando sua experiência em primeira mão. Os profetas sempre o fizeram. Por outro lado, os filósofos sempre usaram parte da maior engenhosidade do mundo ocidental para criar argumentos que, no fim, se revelaram enganosos e inválidos para provar a existência de Deus. Não. “O primeiro princípio do evangelho é conhecer com certeza o caráter [a personalidade, os atributos] de Deus e saber que podemos conversar com Ele como um homem conversa com o outro.”44 Esse é o testemunho de Joseph Smith do princípio ao fim. Ele está falando de todos nós agora. Um homem, uma mulher – esse é o primeiro princípio para qualquer um de nós. É aí que começamos.
E para que não possamos dizer, como ocasionalmente dizemos, “mas sua notável vida e experiência estão totalmente além da minha”, devemos notar que Joseph disse em 1839: “Deus nada revelou a Joseph [chamando-se pelo próprio nome] que não dará a conhecer aos Doze- e até o menor dos santos pode conhecer todas as coisas tão logo que consiga suportá-las.” Mesmo o menor santo, repito. O Profeta continuou: “Porque é necessário que venha o dia em que ninguém precise dizer ao seu próximo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior.”45 Dizer que “todos O conhecerão” é diferente de saber sobre Ele.
Naquele mesmo ano, Joseph proferiu um discurso maravilhoso no qual comentou sobre João 14, aquele sermão magistral do Salvador em que Ele disse que Ele e o Pai “fariam morada” com os santos fiéis. Neste discurso, o Profeta, na prática, dirige novamente aquele sermão a nós. É como se dissesse: “Não basta você dizer: ‘Ah, o Irmão Joseph está no comando, e ele sabe.’ Você precisa saber por si mesmo.” Ele repete essa ideia de dez maneiras diferentes. Na parte final, acrescenta: “Venham a Deus.” Essas bênçãos são destinadas a Seus santos, então peçam a Ele.46
“Bem”, alguém pode dizer, “Eu não quero exagerar. Eu não quero pedir coisas que não deveria.” É claro que, como um princípio geral que representa uma sabedoria genuína e perspicaz, não devemos pedir o que não é adequado. Mas, se o Senhor nos manda pedir, então é adequado. Isso é ilustrado na parábola do Salvador sobre o juiz injusto e a viúva insistente, que é precedida pela razão de a parábola ter sido dada — para mostrar “que os homens devem orar sempre, e não desfalecer”. A parábola falou da viúva que repetidamente veio ao juiz para defender seu caso. Cada vez, ele se recusou a prestar atenção. Mas como ela voltou tantas vezes, o juiz, tentando se livrar dela, disse: “Tudo bem! Dê a ela o que ela quer e acabe com o clamor.”47
Minha interpretação é uma paráfrase simples da parábola. Mas qual é o objetivo da história? Por que o Salvador ensinaria uma parábola como esta? O ponto é: Orem e não desfaleçam; ou, nas palavras de Joseph Smith, “Cansa [o Senhor] até que Ele te abençoe.”48 Há lugares nas escrituras modernas em que o Senhor ordena que alguém não ore mais sobre um assunto em particular e onde Ele diz: “Não me incomodes mais.” Mas, em cada caso, o contexto mostra que Ele já havia dado a resposta, e Ele está dizendo: “Por favor, aceite sim ou não como resposta.”49
Assim é. Temos o privilégio de recapitular a experiência do Profeta.
Isso leva ao meu último ponto. Muitas vezes, somos assombrados não apenas pela dúvida sobre se avançamos o suficiente em nossa própria experiência religiosa, mas também por questionarmos se podemos confiar naquilo que antes confiávamos. Os ácidos nos corroem. Às vezes, os ácidos são os insultos de outras vozes; mas outras vezes, não passa de nossos próprios pecados e fraquezas, e as traições do melhor que há em nós. A dúvida segue naturalmente.
O Mestre fez uma estranha declaração a Tomé. Tomé é categorizado como um incrédulo porque ele disse o que os outros tinham dito antes: “Eu vou acreditar quando, e somente quando, eu vir.”50 De acordo com Lucas, os outros praticamente esfregaram a verdade nos olhos dos incrédulos quando finalmente viram. É uma bela frase: “Não o crendo eles ainda por causa da alegria.”51 O quê isso significa? Isso quer dizer que era bom demais para ser verdade. Dentro de alguns dias, eles tinham visto seu Senhor crucificado, e agora Ele estava diante deles! Assim também eles tinham dúvidas iminentes, como Tomé. As estranhas palavras de Jesus são relatadas por João: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram, e creram.”
À primeira vista, essa afirmação parece valorizar a consciência indireta ou distante, quase como se a fé sem fundamento fosse mais louvável do que a fé baseada no conhecimento que vem pela visão. Isso, eu acho, é um erro. O que está envolvido na declaração é o reconhecimento pelo Senhor e por Seus profetas de que a mais profunda das garantias – o único poder, mesmo além da visão, que pode tirar dúvidas de nós e tornar impossível para nós negarmos a fé- é o Espírito Santo.53
Registrando os sentimentos que teve ao sair do Bosque e dos dias que se seguiram, Joseph fez esta declaração: “Minha alma estava repleta de amor e, por muitos dias, pude regozijar-me com grande alegria e o Senhor estava comigo, mas eu não consegui encontrar ninguém que acreditasse na visão celestial.”54 Essa é uma das raras percepções que ele compartilha sobre o que se passou dentro de si — em contraste com o que acontecia ao seu redor durante aquela experiência. Alegria e amor. E nenhuma dúvida. Outros, é claro, duvidaram. Ele, não.
O diabo é astuto com suas estratégias e com o substituto satânico, mas uma coisa que ele não pode falsificar é o testemunho e o poder do Espírito Santo. Quando temos isso, há certeza – e, repito, uma certeza ainda maior do que a visão. Claro que é possível ter ambos, e isso é precisamente o que Joseph Smith possuía. Ele viu, como uma revelação posterior explica, não através da mente natural ou carnal, 55 mas com a espiritual. Ele viu com os próprios olhos, mas também estava envolvido naquele poder irradiante que foi comissionado para dar testemunho do Pai e do Filho. Sem ter visões grandiosas ou notáveis, todos nós podemos ter a mesma certeza gloriosa e glorificadora sobre a realidade do Pai e do Filho; e isso vem pelo Espírito, pelo poder do Espírito Santo.
Muitas vezes somos confrontados no mundo por aqueles que querem crer em Deus sem crer em Deus.56 Eles estão dispostos a afirmar que há algo – e isso é praticamente a palavra mais forte que eles estão dispostos a usar – que há algo lá no universo que explica as coisas: Um princípio, uma força harmônica ou um mistério cósmico supremo. Quão raramente é aceito o testemunho de que o Pai é à semelhança de Cristo! Um motivo – e os santos dos últimos dias podem testificar disso – é que esses seres pessoais podem se envolver em sua vida, mudando-a, dando mandamentos e conselhos específicos, repreendendo, aprovando ou desaprovando. Um Deus que está longe é alguém que não se mete na sua vida.57
É pouco provável que o Profeta tenha antecipado todas as consequências de sua oração no Bosque, mas, afinal ele esteve à altura delas. Ele nunca hesitou. Em certa ocasião, ele disse: “Se eu não tivesse realmente entrado neste trabalho e sido chamado por Deus, eu desistiria”. Mas ele acrescentou – e isso mostra a sua integridade – “Eu não posso recuar: Não tenho dúvida da verdade.”58 (Alguns homens, porém, não duvidaram da verdade e, mesmo assim, desistiram. Joseph não). Desde a experiência no Bosque e por toda a sua vida, ele conheceu e acolheu o Pai e o Filho, “mesmo que”, como lhe foi ordenado em 1829, “devesse ser morto.59 Ele foi fiel durante toda a vida e até a morte. Isso sela– usando a palavra que ele restaurou em nossa geração– o poder de sua Primeira Visão e das visões subsequentes. Qualquer pessoa que tenha o suficiente do Espírito de Deus para saber que Deus vive e que Jesus é o Cristo, será pelo mesmo Espírito levada a reconhecer que um dos profetas chamados pelo Pai e pelo Filho foi Joseph Smith.
1989 Truman G. Madsen. ℗ 2003 Deseret Book Company. Todos os direitos reservados.
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Para citações completas, veja “Nota do Autor sobre Fontes, Abreviações e Bibliografia” na Série de Palestras de Joseph Smith.

Professor Titular da cadeira Richard L. Evans e Professor de Filosofia na BYU, proferiu oito palestras sobre o Profeta Joseph Smith na Semana de Educação do Campus da BYU, em agosto de 1978.