Devocional

Revelação

Dallin H. Oaks

Juiz da Suprema Corte de Utah

29 de setembro de 1981

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Sei que Deus vive e que Ele Se comunica com Seus filhos. Oro para que sejamos dignos e dispostos e que Ele nos abençoe para que cresçamos nesse princípio de revelação.




Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu

Eu vou falar nesta manhã sobre revelação. Revelação é a comunicação de Deus com Seus filhos. Ela pode ocorrer de diversas maneiras. Alguns profetas, como Moisés e Joseph Smith, falaram com Deus face a face. Algumas pessoas já se comunicaram pessoalmente com anjos. Outras revelações vieram, como o élder James E. Talmage descreveu, por meio de “sonhos quando a pessoa dorme [ou] por visões quando as faculdades estão despertas,” (Regras de Fé, p. 214). Em suas formas mais conhecidas, a revelação ou inspiração vem por meio de palavras ou pensamentos comunicados à mente (D&C 8:2–3; Enos 1:10), iluminação repentina (D&C 6:14–15), sentimentos positivos ou negativos sobre cursos de ação propostos, ou até mesmo por apresentações inspiradoras, como nas artes cênicas, sendo a bela música que ouvimos no início deste devocional um exemplo notável. Como declarou o élder Boyd K. Packer, “A inspiração vem mais como um sentimento do que como um som.” (“Orações e Respostas”, A Liahona, março de 1980, p. 30).

Supondo que vocês estejam familiarizados com essas formas diferentes de revelação ou inspiração, decidi abordar esse assunto sob outro critério de classificação— o propósito da comunicação. Posso identificar oito propósitos distintos da comunicação com Deus: (1) testificar; (2) profetizar; (3) consolar; (4) elevar; (5) informar; (6) restringir; (7) confirmar; e (8) impelir. Descreverei cada um desses pontos nessa mesma ordem, dando exemplos para cada um.

Meu propósito ao sugerir essa classificação e dar esses exemplos é persuadir cada um de vocês a examinar sua própria experiência e perceber que já receberam revelações e que podem receber mais revelações porque a comunicação de Deus aos homens é uma realidade. O presidente Lorenzo Snow declarou que “todo santo dos últimos dias tem esse grande privilégio… [de] receber manifestações do Espírito todos os dias de nossa vida.” (Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Lorenzo Snow, Capítulo 4). O presidente Harold B. Lee ensinou:

Todo homem tem o privilégio de exercer esses dons e privilégios na vida pessoal: ao criar os filhos, ao escolher o caminho a seguir, ao administrar seus negócios ou qualquer outra atividade que exerça. Tem o direito de desfrutar o espírito de revelação e inspiração para fazer a coisa certa, ser sábio e sensato, justo e bom, em tudo o que fizer. [Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Harold B. Lee, capítulo 6, p. 51]

Ao rever os seguintes oito propósitos da revelação, espero que vocês possam reconhecer até que ponto já receberam revelação ou inspiração e que decidam cultivar esse dom espiritual para usá-lo com mais frequência no futuro.

Os propósitos da revelação

1. O testemunho do Espírito Santo de que Jesus é o Cristo e de que o evangelho é verdadeiro é uma revelação de Deus. Quando o apóstolo Pedro afirmou que Jesus Cristo era o Filho do Deus vivo, o Salvador o chamou de bem-aventurado, “porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mateus 16:17). Essa preciosa revelação pode fazer parte da experiência pessoal de todos os que buscam a verdade e, uma vez recebida, ela torna-se uma estrela polar que guia todas as atividades da vida.

2. A profecia é outro propósito ou função da revelação. Falando sob a influência do Espírito Santo e dentro dos limites de sua responsabilidade, uma pessoa pode ser inspirada a prever o que acontecerá no futuro. Esse é o ofício do Profeta, Vidente e Revelador, que profetiza para a Igreja, como Joseph Smith profetizou a Guerra Civil (D&C 87) e previu que os santos se tornariam um povo poderoso nas Montanhas Rochosas. A profecia é parte do chamado de um patriarca. Cada um de nós tem o privilégio de receber revelação profética que ilumina acontecimentos futuros de nossa vida, como um chamado na Igreja que iremos receber. Citando outro exemplo, depois que nosso quinto filho nasceu, minha esposa e eu não tivemos mais filhos. Depois de mais de dez anos, concluímos que nossa família não iria crescer, o que nos entristeceu. Então, um dia, enquanto minha esposa estava no templo, o Espírito lhe sussurrou que ela teria outro filho. Essa revelação profética foi cumprida um ano e meio depois com o nascimento do nosso sexto filho, pelo qual estávamos esperando há 13 anos.

3. Um terceiro propósito da revelação é consolar. Tal revelação veio ao profeta Joseph Smith na Cadeia de Liberty. Depois de muitos meses em condições deploráveis, ele clamou em agonia e solidão, suplicando ao Senhor que Se lembrasse dos santos perseguidos. A resposta consoladora veio:

Meu filho, paz seja com tua alma; tua adversidade e tuas aflições não durarão mais que um momento; E então, se as suportares bem, Deus te exaltará no alto; triunfarás sobre todos os teus inimigos. [D&C 121:7–8]

Nessa mesma revelação, o Senhor declarou que, não importasse quais tragédias ou injustiças acontecessem ao Profeta: “Sabe, meu filho, que todas essas coisas te servirão de experiência e serão para o teu bem” (D&C 122:7).

Cada um de nós conhece outros exemplos de revelações de consolo. Alguns foram consolados por visões de entes queridos falecidos ou por sentirem sua presença. A viúva de um bom amigo contou-me como tinha sentido a presença do falecido marido, dando-lhe a certeza do seu amor e preocupação por ela. Outros foram consolados ao se ajustarem à perda de um emprego, de uma vantagem nos negócios ou mesmo de um casamento. Uma revelação de consolo também pode vir em conexão com uma bênção do sacerdócio, seja pelas palavras proferidas ou pelo sentimento comunicado através da benção.

Outro tipo de revelação consoladora é a certeza recebida de que um pecado foi perdoado. Depois de orar fervorosamente por um dia e uma noite, um profeta do Livro de Mórmon registrou que ouviu uma voz dizendo: “Perdoados são os teus pecados e tu serás abençoado.”

“Portanto”, escreveu Enos, “minha culpa foi apagada” (Enos 1:5–6; ver também D&C 61:2). Essa certeza, que vem quando uma pessoa completa todos os passos do arrependimento, dá a segurança de que o preço foi pago, que Deus ouviu o pecador arrependido e que seus pecados foram perdoados. Alma descreveu essa experiência como sendo o momento no qual não se encontrava mais “atormentado pela lembrança” de seus pecados.

E oh! que alegria e que luz maravilhosa contemplei! Sim, minha alma encheu-se de tanta alegria . . . nada pode haver tão belo e doce como o foi minha alegria. [Alma 36:19–21]

4. Intimamente relacionado ao sentimento de consolo está o quarto propósito ou função da revelação, que é elevar. Em algum momento de nossas vidas, cada um de nós precisa ser elevado de uma depressão, de um sentimento de apreensão ou inadequação, ou apenas de um platô de mediocridade espiritual. Por elevar nosso espírito e nos ajudar a resistir ao mal e buscar o bem, acredito que o sentimento de elevação que é transmitido pela leitura das escrituras ou pelo apreço à música, arte ou literatura saudáveis é um propósito distinto da revelação.

5. O quinto propósito da revelação é informar. Isso pode consistir na inspiração que dá a uma pessoa as palavras a serem ditas em uma ocasião específica, como nas bênçãos pronunciadas por um patriarca ou em sermões ou outros ensinamentos expressos sob a influência do Espírito Santo. O Senhor ordenou a Joseph Smith e Sidney Rigdon que levantassem a voz e falassem os pensamentos que Ele colocaria em seus corações,

Pois naquela mesma hora, sim, naquele mesmo momento, ser-vos-á dado o que dizer. [D&C 100:5–6; ver também 84:85124:97]

Em algumas ocasiões sagradas, informações foram dadas por conversas face a face com seres celestiais, como nas visões registradas nas escrituras antigas e modernas. Em outras, as informações necessárias foram comunicadas pelos sussurros mansos do Espírito. Uma criança perde um bem precioso, ora pedindo ajuda e é inspirada a encontrá-lo; um adulto tem um problema no trabalho, em casa ou na pesquisa genealógica, ora e é levado às informações necessárias para resolvê-lo; um líder da Igreja ora para saber quem o Senhor quer que ele escolha para receber um determinado chamado, e o Espírito sussurra um nome. Em todos esses exemplos, familiares a cada um de nós, o Espírito Santo age em Sua função de professor e revelador, comunicando informações e verdades para a edificação e a orientação do destinatário.

A revelação de Deus tem todos esses cinco propósitos: testificar, profetizar, consolar, elevar e informar. Eu falei sobre eles apenas brevemente, dando exemplos principalmente das escrituras. Falarei mais detalhadamente sobre os três propósitos restantes da revelação, dando exemplos de minha experiência pessoal.

6. O sexto tipo ou propósito da revelação é nos impedir de fazer algo. Assim, no meio de um grande sermão no qual explicava sobre o poder do Espírito Santo, Néfi declarou subitamente:

E agora eu, Néfi, não posso dizer mais; o Espírito encerra a minha fala (2 Néfi 32:7).

A revelação que impede é uma das formas mais comuns de revelação. Ela sempre vem de surpresa, sem termos pedido orientação a respeito de um assunto específico. Mas se guardarmos os mandamentos de Deus e vivermos em sintonia com o Seu Espírito, uma força restritiva nos afastará das coisas que não devemos fazer.

Uma de minhas primeiras experiências em ser impedido pelo Espírito veio logo depois de ser chamado como conselheiro em uma presidência de estaca na cidade de Chicago. Em uma de nossas primeiras reuniões como presidência, nosso presidente de estaca fez uma proposta de que nossa nova sede da estaca fosse construída em um local específico. Pensei imediatamente em quatro ou cinco boas razões pelas quais esse era o local errado. Quando me perguntaram o que eu pensava, me opus à proposta, apresentando cada uma de minhas razões. O presidente da estaca sabiamente propôs que cada um de nós considerasse o assunto em espírito de oração por mais uma semana e o discutisse novamente em nossa próxima reunião. Quase superficialmente, orei sobre o assunto e imediatamente recebi uma forte impressão de que eu estava errado, que estava impedindo a vontade do Senhor e que eu deveria deixar de me opor à proposta. Nem é preciso dizer que fui corrigido e prontamente dei minha aprovação à construção proposta. Aliás, a sabedoria de construir a sede da estaca naquele local logo ficou evidente, até mesmo para mim. Minhas razões contrárias acabaram se revelando míopes, e logo fiquei grato por ter sido impedido de confiar nelas.

Há vários anos, peguei uma caneta que estava na mesa do meu escritório na BYU para assinar um documento que havia sido preparado para a minha assinatura, algo que eu fazia pelo menos uma dúzia de vezes por dia. Esse documento comprometia a universidade a um curso particular de ação que tínhamos decidido seguir. Todo o trabalho da equipe tinha sido feito, e tudo parecia estar em ordem. Mas, quando fui assinar o documento, senti uma onda de pensamentos e apreensão tão negativos que resolvi deixá-lo de lado e solicitar que o assunto fosse reavaliado. Ele foi revisado, e, em poucos dias, fatos adicionais vieram à tona que mostraram que o curso de ação proposto teria causado problemas sérios à universidade no futuro.

Em outra ocasião, o Espírito me ajudou quando eu estava editando um livro de casos sobre um assunto jurídico. Um livro de casos consiste em várias centenas de opiniões judiciais, juntamente com material explicativo e texto escrito pelo editor. Meu assistente e eu tínhamos terminado todo o trabalho do livro, incluindo a pesquisa necessária para garantir que essas opiniões judiciais não tivessem sido revertidas ou anuladas. Pouco antes de enviá-lo para a editora, eu estava lendo o manuscrito, e uma opinião judicial em particular chamou minha atenção. Ao olhar para essa opinião, tive uma sensação profundamente desconfortável. Pedi ao meu assistente para verificar essa opinião novamente para ver se tudo estava em ordem. Ele verificou e então relatou que sim, estava em ordem. Em uma verificação subsequente do manuscrito concluído, fui novamente parado nesse caso com um grande sentimento de desconforto. Dessa vez, eu mesmo fui à biblioteca de direito. Lá, em algumas publicações recém-recebidas, descobri que esse caso tinha acabado de ser revertido em recurso. Se essa opinião tivesse sido publicada no meu livro de casos, teria sido um sério constrangimento profissional. Eu fui salvo pelo poder restritivo da revelação.

7. Sétimo. Uma maneira comum de buscar a revelação é propor um curso de ação particular e, em seguida, orar pedindo inspiração para confirmá-lo. O Senhor explicou esse tipo de revelação confirmadora quando Oliver Cowdery falhou em seus esforços para traduzir o Livro de Mórmon:

Eis que não compreendeste; supuseste que eu o concederia a ti, quando nada fizeste a não ser pedir-me. Mas eis que eu te digo que deves estudá-lo bem em tua mente; depois me deves perguntar se está certo e, se estiver certo, farei arder dentro de ti o teu peito; portanto sentirás que está certo. [D&C 9:7–8]

Da mesma forma, o profeta Alma compara a palavra de Deus a uma semente e diz às pessoas que estudam o evangelho que, se elas derem lugar para que a semente seja plantada em seus corações, a semente dilatará sua alma e iluminará seu entendimento e começará a ser deliciosa para elas (Alma 32). Esse sentimento confirma a revelação do Espírito Santo sobre a veracidade da palavra.

Há alguns anos, em um discurso na BYU intitulado “Arbítrio ou inspiração”, o élder Bruce R. McConkie destacou que é nossa responsabilidade fazer tudo o que pudermos antes de buscar revelação. Ele deu um exemplo muito pessoal. Quando ele decidiu buscar uma companheira eterna, ele não foi ao Senhor para perguntar com quem deveria se casar. “Eu saí e encontrei a moça que eu queria”, disse ele. “Ela combinava comigo; parecia que era para ser assim. [Então], tudo o que eu fiz foi orar ao Senhor e pedir orientação e apoio em relação à decisão que eu estava prestes a tomar” (Discursos do Ano, 1972–73 [Provo, Utah: Brigham Young University Press, 1973], p. 111).

O élder McConkie resumiu seu conselho sobre o equilíbrio entre arbítrio e inspiração nestas frases:

O que se espera de nós é que usemos os dons, talentos e capacidades, a inteligência, o julgamento e o arbítrio que nos foram conferidos. [p. 108]

Está implícito que, ao pedir com fé, devemos primeiro fazer tudo ao nosso alcance para alcançar o objetivo que buscamos. [p. 110]

O que se espera de nós é que façamos tudo a nosso alcance, para depois buscar uma resposta do Senhor, um selo de confirmação de que chegamos à conclusão correta [p. 113].

Como Representante Regional da Igreja, tive o privilégio de trabalhar com quatro membros diferentes do Conselho dos Doze e com outras Autoridades Gerais enquanto buscavam revelação relacionada ao chamado dos presidentes de estaca. Todos procediam da mesma maneira. Eles entrevistavam pessoas que residiam na estaca— conselheiros na presidência da estaca, membros do sumo conselho, bispos e outros que tinham experiência especial na administração da Igreja— fazendo-lhes perguntas e ouvindo seus conselhos. À medida que essas entrevistas eram realizadas, os servos do Senhor ponderavam fervorosamente sobre cada pessoa entrevistada e mencionada. Finalmente, chegavam a uma decisão provisória sobre o novo presidente de estaca. Essa proposta era então apresentada ao Senhor em espírito de oração. Se fosse confirmada, o chamado seria estendido. Se não fosse confirmada, ou se esses servos do Senhor fossem impedidos pelo Espírito, essa proposta seria arquivada e o processo continuaria até que uma nova proposta fosse formulada e a revelação confirmadora fosse recebida.

Às vezes, revelações de confirmação e restrição são combinadas. Por exemplo, durante o meu serviço na BYU, fui convidado a dar um discurso perante uma associação nacional de advogados. Como eram necessários muitos dias para eu me preparar, eu rotineiramente recusava esse tipo de convite. Mas, quando comecei a escrever uma carta recusando esse convite em particular, senti-me impedido. Eu parei e reconsiderei minha ação. Pensei, então, se deveria aceitar o convite e, ao pensar sobre ele sob essa perspectiva, senti a confirmação do Espírito e soube que era isso o que eu deveria fazer. O discurso que resultou, “Uma universidade privada analisa a regulação governamental”, abriu as portas para uma série de oportunidades importantes. Fui convidado a repetir esse mesmo discurso diante de vários outros grupos de destaque nacional. O discurso foi publicado na revista Vital Speeches e em vários outros periódicos e livros, servindo como uma declaração importante sobre o interesse da universidade privada na liberdade em relação à regulamentação governamental. Esse discurso levou a BYU a ser consultada por diversos grupos de diferentes igrejas sobre o relacionamento adequado entre o governo e uma universidade ligada à religião. Essas consultas, por sua vez, contribuíram para a formação de uma organização nacional de faculdades e universidades ligadas à religião, o que tem proporcionado uma coalizão significativa para se opor a regulamentações governamentais ilegais ou imprudentes. Não tenho dúvidas, ao olhar para trás, de que esse convite que quase recusei foi uma daquelas ocasiões em que um ato aparentemente insignificante fez muita diferença. Esses são os momentos em que é vital recebermos a orientação do Senhor, e são esses os momentos em que a revelação virá em nosso auxílio, se a ouvirmos e a seguirmos.

8. O oitavo propósito ou tipo de revelação consiste naqueles casos em que o Espírito impele uma pessoa à ação. Esse não é um caso em que uma pessoa se propõe a tomar uma ação particular e o Espírito ou restringe ou confirma. Esse é um caso em que a revelação vem quando não está sendo buscada e impele alguma ação não planejada. Esse tipo de revelação é obviamente menos comum do que os outros tipos discutidos, mas sua raridade a torna ainda mais significativa.

Um exemplo nas escrituras está registrado no primeiro livro de Néfi. Quando Néfi foi a Jerusalém para obter os preciosos registros que se encontravam no tesouro de Labão, o Espírito do Senhor o orientou a matar Labão enquanto ele estava caído, bêbado, na rua. Esse ato estava tão distante do coração de Néfi que ele recuou e lutou com o Espírito; ainda assim, foi novamente instruído a matar Labão e, finalmente, obedeceu à revelação (1 Néfi 4).

Os estudantes de história da Igreja vão se lembrar do relato de Wilford Woodruff sobre uma impressão que ele teve durante a noite, dizendo-lhe para mover sua carruagem e suas mulas para longe de uma grande árvore. Ele fez isso, e sua família e gado foram salvos quando a árvore caiu durante um tornado que atingiu a região 30 minutos depois (ver Matthias F. Cowley, Wilford Woodruff: History of His Life and Labors [História de sua vida e trabalhos] [Salt Lake City: Bookcraft, 1964], p. 331–32).

Quando jovem, minha avó, Chasty Olsen Harris, teve uma experiência semelhante. Ela estava cuidando de algumas crianças que brincavam no leito seco de um rio perto de sua casa em Castle Dale, Utah. De repente, Chasty ouviu uma voz que a chamava pelo nome e a orientava a tirar as crianças do leito do rio e levá-las à margem. Era um dia claro, e não havia nenhum sinal de chuva. Ela não viu razão para ouvir a voz e continuou a vigiar as crianças. A voz falou com ela novamente, com urgência. Dessa vez, ela atendeu ao aviso. Rapidamente chamando as crianças, ela correu para a beira do rio. Assim que chegaram lá, uma enorme parede de água, formada por uma chuva torrencial nas montanhas a muitos quilômetros de distância, desceu pelo cânion com estrondo e atravessou o local onde as crianças estavam brincando. Se não fosse por essa revelação impelida, ela e as crianças teriam se perdido.

Por nove anos, o professor Marvin Hill e eu tínhamos trabalhado no livro Carthage Conspiracy [Conspiração de Carthage], que trata do julgamento de 1845 dos assassinos de Joseph Smith. Tivemos várias fontes diferentes de atas do julgamento, algumas com os nomes de seus autores e outras sem assinatura. A ata completa não estava assinada, mas como a encontramos no Escritório do Historiador da Igreja, tivemos certeza de que se tratava da ata feita por George Watt, o escrivão oficial da Igreja que foi enviado para registrar os procedimentos do julgamento. Afirmamos isso em sete rascunhos de nosso manuscrito, e analisamos todas as nossas fontes nessa suposição.

Finalmente, o livro foi concluído, e dentro de algumas semanas o manuscrito final seria enviado para a editora. Quando me sentei em meu escritório na BYU, em um sábado à tarde, senti-me impelido a percorrer uma pilha de livros e panfletos não examinados acumulados na mesa atrás de mim. No fundo da pilha de 50 ou 60 publicações, encontrei um catálogo impresso do conteúdo do Museu Wilford C. Wood, que o professor Lamar Berrett, o autor, havia me enviado um ano e meio antes. Enquanto folheava rapidamente as páginas desse catálogo de manuscritos de história da Igreja, meus olhos caíram em uma página que descrevia o manuscrito das atas de teste que tínhamos atribuído a George Watt. Essa página de catálogo explicava como Wilford Wood havia comprado a versão original daquele conjunto de atas em Illinois e doado à Igreja uma versão datilografada, a mesma que havíamos obtido do historiador da Igreja. Imediatamente, visitamos o Museu Wilford Wood em Woods Cross, Utah, e obtivemos informações adicionais que nos permitiram determinar que as atas que pensávamos serem a fonte oficial da Igreja haviam sido preparadas por um dos advogados para a defesa. Com esse conhecimento, voltamos ao Escritório do Historiador da Igreja e conseguimos localizar pela primeira vez o conjunto oficial e altamente autêntico de atas de George Watt no julgamento. Essa descoberta nos salvou de um grave erro na identificação de uma de nossas principais fontes e também nos permitiu enriquecer significativamente o conteúdo de nosso livro. A impressão que recebi naquele dia em meu escritório foi um exemplo precioso de como o Senhor nos ajudará em nossas atividades profissionais justas quando nos qualificarmos para as impressões do Seu Espírito.

Alguns meses depois de começar meu serviço na BYU, houve outra ocasião em que a revelação me impeliu a agir. Como presidente novo e inexperiente, tive muitos problemas para analisar e muitas decisões para tomar. Eu era muito dependente do Senhor. Um dia, em outubro, eu dirigi até o cânion de Provo para refletir sobre um problema específico. Embora sozinho e sem qualquer interrupção, eu me vi incapaz de pensar nesse problema específico. Uma outra questão pendente que eu ainda não estava pronto para considerar continuava surgindo em minha mente: Devemos modificar o calendário acadêmico da BYU para completar o semestre de outono antes do Natal? Depois de dez ou quinze minutos tentando evitar os pensamentos sobre esse assunto, finalmente percebi o que estava acontecendo. A questão do calendário não me pareceu oportuna, e eu certamente não estava buscando nenhuma orientação sobre isso, mas o Espírito estava tentando comunicar-se comigo sobre o assunto. Imediatamente eu voltei minha atenção para essa pergunta e comecei a registrar meus pensamentos em um pedaço de papel. Em poucos minutos, eu tinha registrado os detalhes de um calendário de três semestres, com todas as suas vantagens poderosas. Apressando-me de volta para o campus, revisei o material com meus colegas, e isso os deixou muito entusiasmados. Alguns dias depois, o Conselho de Administração aprovou nossa proposta de novo calendário e publicamos suas datas, quase sem tempo de torná-las efetivas no outono de 1972. Desde então, reli estas palavras do profeta Joseph Smith e percebi que tive a experiência que ele descreveu:

O profeta Joseph Smith explicou que as “primeiras impressões do Espírito de revelação” vêm quando “sentimos que a inteligência pura flui em nós,” e “de repente podem vir idéias a nossa mente”. . . e assim, por conhecer e aceitar o Espírito de Deus, poderemos crescer no princípio da revelação. [Ensinamentos, p. 151]

Revelações não recebidas

Até agora, descrevi oito propósitos ou tipos diferentes de revelação: (1) testificar, (2) profetizar, (3) consolar, (4) elevar, (5) informar, (6) restringir, (7) confirmar e (8) impelir. Cada um deles se refere a revelações que são recebidas. Antes de concluir, vou sugerir algumas ideias sobre revelações que não são recebidas.

Primeiro, devemos entender o que pode ser chamado de princípio de “responsabilidades na revelação”. A casa de nosso Pai Celestial é uma casa de ordem, na qual seus servos são ordenados a “agir no ofício para o qual [eles são] designados” (D&C 107:99). Esse princípio também se aplica à revelação. Somente o presidente da Igreja recebe revelação para guiar toda a Igreja. Somente o presidente da estaca recebe revelação para guiar especificamente sua estaca. A pessoa que recebe revelação para a ala é o bispo. Na família, é o líder do sacerdócio. Os líderes recebem revelação para suas próprias responsabilidades. As pessoas podem receber revelação para guiar sua própria vida. Mas quando uma pessoa afirma receber revelação para outra pessoa fora de sua própria responsabilidade, como um membro da Igreja que afirma ter revelação para guiar toda a Igreja ou uma pessoa que afirma ter uma revelação para guiar outra pessoa sobre a qual não tem autoridade de acordo com a ordem da Igreja, vocês podem ter certeza de que tais revelações não são do Senhor. “Há sinais falsos” (Boyd K. Packer, “Orações e respostas”, A Liahona, março de 1980, p. 30). Satanás é um grande enganador, e ele é a fonte de algumas dessas revelações ilegítimas. Outras são simplesmente imaginadas.

Se uma revelação estiver fora dos limites da responsabilidade de vocês, vocês saberão que ela não é do Senhor e então não estarão obrigados a cumpri-la. Eu já ouvi casos em que um rapaz disse a uma moça que ela deveria se casar com ele, porque ele havia recebido uma revelação de que ela seria sua companheira eterna. Se for uma revelação verdadeira, esta será confirmada diretamente à mulher se ela buscar saber. Enquanto isso, a moça não tem nenhuma obrigação de aceitar isso. Ela deve buscar sua própria orientação e decidir por si mesma. O homem pode receber revelação para dirigir suas próprias ações, mas ele não pode receber apropriadamente revelação para direcionar as ações dela. Ela está fora da responsabilidade dele.

O que dizer daqueles momentos em que buscamos revelação e não a recebemos? Nem sempre recebemos inspiração ou revelação quando pedimos. Às vezes, o recebimento da revelação é atrasado, e às vezes somos deixados a nosso próprio julgamento. Não podemos forçar as coisas espirituais. E deve ser assim. Nosso propósito na vida de obter experiência e desenvolver fé seria frustrado se nosso Pai Celestial nos orientasse em cada ato, mesmo nos atos mais importantes. Devemos tomar decisões e experimentar as consequências para desenvolver a autossuficiência e a fé.

Mesmo nas decisões que achamos muito importantes, às vezes não recebemos respostas às nossas orações. Isso não significa que nossas orações não tenham sido ouvidas. Significa apenas que oramos sobre uma decisão que, por uma razão ou outra, devemos tomar sem ter uma revelação. Talvez tenhamos pedido orientação para escolher entre alternativas que são igualmente aceitáveis ou igualmente inaceitáveis. Sugiro que não existe uma resposta certa ou errada para todas as perguntas. Para muitas perguntas, há apenas duas respostas erradas ou duas respostas certas. Então, se alguém pede orientação para saber como se vingar de quem lhe fez mal, provavelmente não receberá revelação. Do mesmo modo, alguém que pede orientação sobre uma escolha que nunca terá de fazer — porque algum acontecimento futuro mudará tudo, oferecendo uma terceira opção claramente melhor — também não deve esperar receber revelação. Em certa ocasião, minha esposa e eu oramos fervorosamente pedindo orientação para uma decisão que parecia muito importante. Nenhuma resposta veio. Fomos deixados para prosseguir com o nosso melhor julgamento. Não podíamos imaginar por que o Senhor não nos havia ajudado com uma impressão confirmativa ou restritiva. Mas não demorou muito para aprendermos que não precisávamos tomar uma decisão sobre essa questão porque algo mais aconteceu que tornou a decisão desnecessária. O Senhor não nos guiaria em uma escolha que não fizesse diferença.

Provavelmente, nenhuma resposta virá para uma pessoa que busca orientação na escolha entre duas alternativas que são igualmente aceitáveis ao Senhor. Assim, há momentos em que podemos servir produtivamente em dois campos diferentes de trabalho. Qualquer uma das respostas está certa. Da mesma forma, o Espírito do Senhor provavelmente não nos dará revelações sobre assuntos triviais. Certa vez ouvi uma jovem em uma reunião de testemunho elogiar a espiritualidade de seu marido, indicando que ele fazia todas as perguntas ao Senhor. Ela contou como ele a acompanhava em suas compras e nem mesmo escolheria entre diferentes marcas de vegetais enlatados sem fazer com que sua seleção fosse uma questão de oração. Isso me parece inadequado. Creio que o Senhor espera que usemos a inteligência e a experiência que Ele nos deu para fazer esse tipo de escolha. Quando um membro pediu conselhos ao profeta Joseph Smith sobre um assunto específico, ele declarou:

Perguntar a Deus, ou vir à sua presença é algo muito sério; e tememos consultá-lo sobre assuntos de pouca ou nenhuma importância para responder a perguntas individuais. [Ensinamentos, p. 24]

Claro que nem sempre somos capazes de julgar o que é trivial. Se um assunto parece ter pouca ou nenhuma consequência, podemos proceder com base em nosso próprio julgamento. Se a escolha é importante por razões desconhecidas para nós, como o convite para discursar que mencionei anteriormente ou mesmo uma escolha entre duas latas de legumes quando uma contém um veneno escondido, o Senhor intervirá e nos dará orientação. Quando uma escolha fará uma diferença real em nossa vida, óbvia ou não, e se estivermos vivendo em sintonia com o Espírito e buscando Sua orientação, podemos ter certeza de que receberemos a orientação de que precisamos para atingir nosso objetivo. O Senhor não nos deixará desamparados quando uma escolha for importante para nosso bem-estar eterno.

Sei que Deus vive e que Ele Se comunica com Seus filhos. Oro para que sejamos dignos e dispostos e que Ele nos abençoe para que cresçamos nesse princípio de revelação. Presto-lhes meu testemunho da veracidade do evangelho, em nome de Jesus Cristo. Amém.

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Dallin H. Oaks

Dallin H. Oaks era um juiz da Suprema Corte de Utah quando esse devocional foi proferido em 29 de setembro de 1981.