Deus é o Jardineiro
Hugh B. Brown
Primeiro conselheiro na Primeira Presidência
31 de maio de 1968
Primeiro conselheiro na Primeira Presidência
31 de maio de 1968
Quaisquer que sejam os compromissos que exijam sua atenção, digo a vocês, tanto aos rapazes quanto às moças, que não há melhor decisão a tomar hoje do que esta: “Vou me manter perto do Senhor. Eu vou conhecê-Lo melhor, e, conhecendo-O, vou conhecer a mim mesmo e tentar colocar minha vida em harmonia com a Dele.”
Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu
Presidente Wilkinson, membros do corpo docente, convidados de honra, membros do conselho, formandos e o maravilhoso corpo estudantil da Universidade Brigham Young, fico feliz que o Presidente Wilkinson tenha mantido um pouco de bom humor no que ele tinha a dizer, porque acho que o humor é uma parte essencial de uma vida rica e radiante.
Quero falar sobre o humor por apenas um minuto. Ouvi dizer que J Golden Kimball disse que o próprio Senhor deve gostar de uma piada — ou não teria criado alguns de vocês aí. Espero que nenhum de vocês leve isso para o lado pessoal.
É realmente uma aventura ousada, talvez até imprudente, para um octogenário se propor a falar — transpondo um abismo de sessenta anos de diferença em idade — para um grupo de jovens estudantes cheios de energia que estão se formando. Mas, sabendo de seus quatro anos de treinamento, especialmente em paciência e persistência em suas aulas, acho que vocês terão alguma simpatia comigo se eu tentar dirigir-lhes a palavra da outra margem do rio da vida.
Gostaria de parabenizar a turma de formandos e todos os estudantes desta grande universidade pelo fato de terem permanecido, em grande parte, alheios às atividades que têm prevalecido nos campi de muitas outras universidades, onde estudantes tentam assumir o controle, não apenas das questões disciplinares do campus, mas também de substituir o papel do governo civil, tanto dentro da universidade quanto fora dela. É lamentável que esses jovens tenham pensado em tentar substituir o governo civil estabelecido. Não podemos concordar com suas tentativas de conseguir o que querem por meio da força.
Parabenizo também os membros do corpo estudantil e docente pelo que o presidente Wilkinson mencionou: aceitar o chamado ao dever para com nossa grande nação quando ele surgir e não fugir da responsabilidade inerente a ele.
Há outro assunto sobre o qual quero falar brevemente, mas com sinceridade. Vocês, jovens, estão deixando sua universidade em um momento em que nossa nação está engajada em um processo abrasivo e cada vez mais acirrado de eleger um presidente. Gostaria de saber se vocês me permitiriam — alguém que conseguiu sobreviver a uma série desses eventos — dar-lhes alguns conselhos.
Em primeiro lugar, gostaria que se assegurassem de que os líderes dos dois principais partidos políticos deste país são homens de integridade e patriotismo inquestionável. Tomem cuidado com aqueles que se sentem obrigados a provar seu próprio patriotismo, colocando em dúvida a lealdade dos outros. Sejam céticos em relação àqueles que tentam demonstrar seu amor pelo país degradando suas instituições. Saibam que os homens de ambos os principais partidos políticos que guiam os poderes executivo, legislativo e judiciário da nação são homens de lealdade inquestionável, e devemos apoiá-los e ficar ao seu lado. E isso não se aplica apenas a um partido específico, mas a todos eles.
Esforcem-se para desenvolver maturidade mental e emocional, bem como profundidade espiritual, qualidades que lhes permitirão discordar em questões políticas sem pôr em dúvida a integridade daqueles com quem discordam. Permitam — dentro dos limites da sua definição de ortodoxia religiosa — uma flexibilidade de crenças políticas. Não tenham a presunção de dogmatizar questões sobre as quais o Senhor achou por bem permanecer em silêncio.
Eu descobri através de uma longa experiência que nosso sistema de dois partidos é sólido. Tomem cuidado com aqueles que carecem tanto de humildade que não conseguem se enquadrar no âmbito de um dos nossos dois grandes partidos. Nossa nação evitou um caos como o que está tomando a França hoje, porque os homens foram capazes de moderar seus próprios desejos o suficiente para buscar amplo acordo dentro de um dos dois maiores partidos, em vez de formar grupos fragmentados em torno de uma ideia radical. Nosso sistema de dois partidos nos serviu bem e não deve ser descartado levianamente.
Em uma época em que os radicais de direita ou de esquerda inflamariam raça contra raça, evitem aqueles que pregam as doutrinas malignas do racismo. Quando nosso Pai declarou que nós, Seus filhos, éramos irmãos e irmãs, Ele não limitou esse relacionamento com base na raça. Esforcem-se para desenvolver esse verdadeiro amor à pátria que percebe que o verdadeiro patriotismo deve incluir nela uma consideração pelas pessoas: todos os habitantes do mundo. Os patriotas nunca exigiram dos homens bons que odiassem outro país como prova do amor pelo seu próprio. Adquiram tolerância e compaixão pelos outros e por aqueles de uma corrente política, raça ou religião diferente. Isto é algo exigido pela paternidade celestial que todos nós temos em comum.
Agora, gostaria de chamar sua atenção para um dos assuntos mais antigos conhecidos pelo ser humano — de interesse atemporal, sempre atual e imperativo em seu apelo. É um assunto sobre o qual o Salvador dedicou muito tempo, com o qual filósofos lutaram e sobre o qual os cientistas se aventuraram a dar grandes, eruditas e ponderadas opiniões. Desde o princípio dos tempos até esta era espacial e atômica, este tem sido um tema vibrante, de exigências imperativas. É um tópico de vital importância para todos nós, desde o momento em que entramos neste mundo até o deixarmos e, em seguida, por toda a eternidade. O assunto que desejo discutir, de forma breve mas com reverência, é Deus e a relação do ser humano com Ele.
No décimo capítulo de Lucas lemos:
Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento. [Lucas 10:27]
Será que uma pessoa pode amar a Deus com sua mente, ou será que a mente está limitada apenas a processos frios de raciocínio? Vocês, rapazes e moças, já começaram a estudar e a se maravilhar com as belas surpresas do universo. Suas mentes inquisitivas e em amadurecimento os levaram a perguntar: “Quem estava no controle quando tudo isso foi posto em movimento?” Eu preferiria muito mais que vocês encontrassem uma resposta reverente e verdadeira a essa pergunta do que tivessem a capacidade de ler grego e hebraico ou de decifrar, na pedra, na terra e nas plantas, a história do planeta — a história da própria natureza.
Em outras palavras, gostaria que vocês colocassem as coisas importantes em primeiro lugar e começassem sua educação no centro do seu coração. À medida que essas convicções crescem, vocês terão fome e sede de conhecimento, assim como uma planta tem sede de água. Vocês perceberão que todo o conhecimento obtido nas melhores universidades seria incompleto e totalmente inadequado sem alguma síntese subjacente ou algum significado e propósito compreensíveis.
Imploro que tomemos nota das verdades subjacentes relacionadas ao nosso universo, às nossas vidas e ao nosso propósito, e que então vivamos como se realmente acreditássemos naquilo que afirmamos quando dizemos que acreditamos em Deus. Jesus disse que, se vocês querem ter a vida eterna, precisam conhecer a Deus. À medida que O conhecermos progressivamente, seremos inspirados a imitá-Lo — e é a isso que gostaria de chamar à atenção de todos e o que gostaria de deixar com esta turma de formandos: que, à medida que passarmos a conhecer a Deus cada vez mais, inegavelmente e de modo constante seremos lembrados da possibilidade de imitá-Lo e, assim, nos tornaremos mais semelhantes a Ele.
Estive em Colorado Springs recentemente. Como convidado do comandante e discursante dos cadetes, fui levado pelo comandante em uma excursão pelas instalações e pelo campus. Chegamos a um monumento maravilhoso que, em seu topo, tinha uma águia com asas abertas. Na base deste monumento, li estas palavras: ”O voo do homem através da vida é sustentado pelo poder de seu conhecimento.” E eu me fiz a seguinte pergunta: “Que conhecimento? Qual fase do conhecimento, qual ramo do aprendizado cuidará definitiva e inspiradamente do voo do homem através da vida?” Concluí que a vida do homem e seu voo ao longo dela são sustentados principalmente por um conhecimento de Deus e do homem. Eu afirmo para vocês que a fé em um Deus pessoal, alguém a quem podemos nos referir como “Pai”, dá-nos um senso de dignidade e apresenta um ideal pelo qual devemos lutar.
Ele é real, como você e eu somos reais. Quero gravar isso na mente de vocês, jovens estudantes, ao saírem para o mundo: há Alguém maior que está sempre presente e podem recorrer a Ele.
Na história da criação, estas palavras estão registradas em Gênesis: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou” (Gênesis 1:27).
Foi sem dúvida esse pensamento de que o homem foi feito à imagem de Deus, em um status semelhante ao divino, que levou o apóstolo João a dizer: “Agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Porém sabemos que, quando se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos“ (1 João 3:2).
Ao longo dos séculos, nenhuma experiência tem sido mais universal e útil do que a de sentir Alguém cuidando de nós — próximo o suficiente para podermos recorrer a Ele, e atento o suficiente para nos compreender. Ele é real e pessoal e deve ser idealizado, mas também compreendido. Não devemos apenas possuir uma ideia de Deus, mas devemos ser tomados por ela. Os homens acreditam em Deus não porque O provaram; mas, na verdade, eles tentam infinitamente prová-Lo porque não podem deixar de acreditar Nele. Ele estabeleceu isso no coração de Seus filhos.
Vocês agora são ex-alunos, não apenas de uma instituição relacionada à Igreja, mas de uma instituição que pertence e é operada pela Igreja. Sejam gratos por isso, jovens. Ao considerar a história da educação nos Estados Unidos, vocês podem se surpreender com o que a religião tem feito às grandes universidades de nossa terra e do mundo. Agradeço ao reverendo Earl L. Riley, da Primeira Igreja Batista de Salt Lake City, por algumas informações estatísticas que gostaria de compartilhar com vocês:
Péricles fundou sua civilização com base na cultura comum, e falhou. César fundou sua civilização sobre a lei, e ela falhou. Alexandre fundou sua civilização com base no poder, e igualmente falhou. Mas nossos antepassados sabiam que qualquer outra base que não fosse a religião e a educação — as duas maiores forças do mundo — seria inadequada como alicerce para construir uma civilização. E se fosse construída sobre algo menos do que uma religião verdadeira e uma boa educação, teríamos apenas uma estrutura artificial.
Vinte e duas das primeiras 24 universidades construídas nos Estados Unidos da América foram construídas por organizações religiosas. Das 119 instituições educacionais a leste do Mississippi, 103 delas foram construídas por organizações religiosas. Durante os primeiros 150 anos dos Estados Unidos, as igrejas mantiveram todas as instituições de ensino superior. Desses edifícios vieram líderes de pensamento e defensores da liberdade que tornaram nossa república possível.
Thomas Jefferson foi aluno do Colégio William & Mary, e James Madison, da Universidade de Princeton. Alexander Hamilton foi um ex-aluno do que hoje é a Universidade de Columbia. É interessante notar que todos, exceto oito, dos 55 que assinaram a Declaração de Independência, e a maioria daqueles que redigiram a Constituição, haviam respirado a atmosfera das instituições de ensino apoiadas por igrejas.
Thomas Jefferson declarou que as pessoas não podem ser ignorantes e livres. A fundação da Universidade da Virgínia foi a maior conquista de sua vida.
Benjamin Franklin regozijou-se por ter sido o fundador da Universidade da Pensilvânia. George Washington deixou um legado de US$ 50.000, e a Universidade Washington & Lee foi a beneficiária desse legado.
Os primeiros líderes religiosos e civis dos Estados Unidos foram produtos de escolas iniciadas pelo cristianismo ortodoxo. Dezesseis dos primeiros 18 presidentes eram graduados em instituições de ensino superior ligadas à religião. Sete dos primeiros juízes da Suprema Corte eram graduados universitários em escolas relacionadas à religião.
Esse é o fim da citação, e concordo com suas implicações.
Jovens, vocês foram ensinados a acreditar que Deus e o ser humano pertencem a uma sociedade de inteligências eternas. A diferença é, naturalmente, indescritivelmente grande, mas é de grau e não de espécie. A ideia de um ser supremo está gravada de forma indelével na consciência humana. Embora o ser humano seja até certo ponto mestre de seu destino, ele está consciente de sua relação com a fonte suprema de sua existência.
Dr. James E. Talmage resume a discussão da criação e do universo da seguinte forma:
O que é o ser humano neste cenário sem limites de esplendor sublime? Eu vos respondo: Potencialmente agora, na verdade, ele é maior e mais grandioso, mais precioso de acordo com a aritmética de Deus, do que todos os planetas e sóis do espaço. Pois foi para ele que foram criados.
Estou lendo isso porque gostaria que vocês sentissem a dignidade do ser humano e a honrassem com sua conduta ao seguirem em frente como cidadãos responsáveis do nosso país e representantes desta grande universidade.
Neste mundo é dado ao ser humano domínio sobre algumas coisas; é seu privilégio alcançar a supremacia sobre muitas coisas.
“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.” (Salmo 19:1). Por mais incompreensivelmente grandiosas que sejam as criações físicas da Terra e do espaço, elas foram trazidas à existência como meios para um fim, necessárias à realização do propósito supremo, que nas palavras do Criador é assim declarado:
“Pois eis que esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem” (Moises 1:39). [James E. Talmage, discurso proferido no Tabernáculo, 9 de agosto de 1931; “The Earth and Man [A Terra e o Homem]”, Millennial Star 93, nº 53 (31 de dezembro de 1931): 862–63; também The Earth and Man (Salt Lake City: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1931), 16]
Alguns teólogos nos dizem que Deus é incompreensível, mas Ele diz que conhecê-Lo é vida eterna. Um destes pontos de vista tira a esperança da vida e o outro é um farol eterno.
Às vezes, os jovens dizem que nós, os mais velhos, estamos atrasados, e eles provavelmente estão certos. Com certeza eles estão certos. Mas durante o tempo que ficou para trás — e digo isso a vocês como testemunho — desenvolvi uma fé em um Deus pessoal e vivo, o que considero ser o bem mais precioso que possuo. Tem sido meu glorioso privilégio conhecê-Lo cada vez mais. Tal fé dá ordem, significado, estímulo e direção à vida. Não podemos conhecê-Lo apenas pelo intelecto, nem pelos sentidos corporais, nem somente lendo as escrituras, mas por inspiração — a iluminação da alma, como a que Pedro experimentou ao responder à pergunta de Cristo: “Quem dizeis vós que eu sou? Sem hesitar, ainda que surpreso com as próprias palavras, ele declarou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.”
E Cristo respondeu-lhe: “to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mateus 16:15–17).
Se vocês sempre tiverem em mente que são verdadeiramente filhas e filhos de seu Pai Celestial, que há algo Dele em vocês, e que podem almejar tornar-se semelhantes àquilo de onde vieram e cooperar com Ele na obra inacabada da criação, lembrar-se-ão de que o plano Dele para a salvação de Seus filhos e filhas tinha um propósito — um desígnio a ser realizado. Se mantiverem essas grandes verdades em mente, serão fortalecidos e apoiados, independentemente do que a vida lhes trouxer.
É importante que vocês não só continuem crescendo, mas também que sejam versáteis, adaptáveis e não tenham medo de se aventurar. Em outras palavras, estejam à altura do seu tempo. Procurem obter uma certa flexibilidade mental que os inspire a ouvir, a aprender e a adaptarem-se, à medida que avançarem para um universo novo e em constante expansão.
Da covardia que se encolhe da nova verdade,
da preguiça que se contenta com meias-verdades,
da arrogância que pensa conhecer toda a verdade,
ó Deus da verdade, livrai-nos.
[Oração antiga]
No processo de autodescoberta, vocês por vezes se surpreenderão com o que, aos poucos, passarão a perceber sobre a amplitude de seu potencial e de suas habilidades. Vocês, então, não se desanimarão com um ou dois fracassos pelo caminho, desde que estejam aprendendo e crescendo. Deixo com vocês meu humilde testemunho a respeito dessas coisas.
Agora, alguns de vocês, à medida que avançam, vão se deparar com decepções — talvez muitas, algumas delas cruciais. Às vezes, vocês vão se perguntar se Deus esqueceu de vocês. Às vezes vocês podem até se perguntar se Ele vive ou para onde Ele foi. Mas, nestes tempos em que tantos estão dizendo que Deus está morto e quando tantos estão negando Sua existência, acho que eu não poderia deixar com vocês uma mensagem melhor do que esta: Deus está ciente de você individualmente. Ele sabe quem você é e o que você é, e, além disso, Ele sabe o que você é capaz de se tornar. Não desanime, então, se você não conseguir todas as coisas que você quer exatamente quando quer. Tenha a coragem de seguir em frente e enfrentar a sua vida e, se necessário, reorientá-la para colocá-la em harmonia com Sua lei.
Posso contar uma breve história de minha própria experiência de vida? Há sessenta e poucos anos, eu estava em uma fazenda no Canadá. Comprei a fazenda de alguém que havia sido negligente em cuidar dela. Saí de casa certa manhã e vi um pé de groselha com mais de dois metros de altura. Eu sabia que tudo ia ser usado como madeira. Não havia sinal de flor ou de fruto. Eu já tinha alguma experiência com poda de árvores antes de mudarmos de Salt Lake para o Canadá, porque meu pai tinha uma fazenda de frutas. Então eu peguei minha tesoura de poda e fui trabalhar naquele pé de groselha. Cortei e cortei até não sobrar nada, exceto um monte de tocos.
E, ao olhar para ele, cedi a um impulso, que muitas vezes tenho, de falar com coisas inanimadas e fazê-las falarem comigo. É um hábito absurdo. É algo que não consigo superar. Enquanto eu olhava para esse pequeno monte de tocos, parecia haver uma lágrima em cada um, e eu disse: “O que se passa, pé de groselha? Por que você está chorando?”
E pensei ter ouvido aquele pé de groselha falar. Parecia dizer: “Como você pôde fazer isso comigo? Eu estava crescendo de maneira tão maravilhosa. Eu estava quase tão frondosa quanto a árvore de sombra e a árvore frutífera, e agora você me reduziu a isto. E todos no jardim vão olhar para mim com desprezo e pena. Como você teve coragem de fazer isso comigo? Achei que você fosse o jardineiro.”
Isso é o que achei ter ouvido o pé de groselha dizer, e pensei tanto a respeito que respondi.
Eu disse: “Olhe, meu pequeno pé de groselha, eu sou o jardineiro, e sei o que quero que você seja. Se eu deixar você crescer do jeito que você quer crescer, você não chegará a nada. Mas um dia, quando você estiver carregada de frutas, você vai dizer: ‘Obrigada, Sr. Jardineiro, por amar-me o bastante para podar-me’”.
Dez anos se passaram, e eu fui parar na Europa. Eu havia avançado no exército canadense durante a Primeira Guerra Mundial. Na verdade, eu era um oficial de combate e havia apenas um homem entre mim e o posto de general, um posto que eu tanto desejava há anos. Então, ele se tornou vítima de guerra. E, no dia seguinte, recebi um telegrama de Londres, do general Turner, que estava no comando de todos os oficiais canadenses. O telegrama dizia: “Esteja em minha sala amanhã de manhã às 10h”.
Me enchi de orgulho. Chamei meu assistente pessoal (lá, nós os chamávamos de “Batmen”). Eu disse: “Engraxe minhas botas e meus botões. Faça-me parecer um general, porque amanhã vou ser nomeado.”
Ele fez o melhor que pôde com o que tinha para trabalhar, e eu fui para Londres. Entrei no escritório do general. Eu prestei continência respeitosamente e ele fez o mesmo tipo de saudação que um oficial de patente mais elevada faz aos subalternos — algo como “Saia do caminho, verme desprezível!” Então ele disse: “Sente-se, Brown.”
Eu senti-me vazio. Sentei-me. E ele disse: “Brown, você tem direito a esta promoção, mas eu não posso fazer isso. Você se qualificou e cumpriu os regulamentos, tem experiência e tem todo o direito a isso, mas não posso promovê-lo.”
Então, ele foi para outra sala para atender o telefone e eu fiz o que a maioria dos oficiais e homens do exército faria nessas circunstâncias: Olhei para sua mesa para ver o que minha folha de dados pessoais mostrava. E eu vi escrito na parte inferior da folha, em grandes letras maiúsculas: “ESTE HOMEM É MÓRMON.”
Naquela época, éramos profundamente odiados na Grã-Bretanha, e eu sabia por que ele não poderia conceder a promoção. Finalmente, ele voltou e disse: “É só isso, Brown.”
Eu o saudei, com menos entusiasmo do que antes, e saí. No caminho de volta para Shorncliffe, a 120 quilômetros de distância, eu achava que cada volta das rodas que batiam nos trilhos dizia: “Você é um fracassado. Você tem que ir para casa e ser chamado de covarde por aqueles que não entendem.”
E a amargura aumentou em meu coração até que cheguei, finalmente, ao quartel e joguei vigorosamente minha boina na cama, junto com meu cinto Sam Browne. Cerrei os punhos e agitei-os em direção ao céu, dizendo: “Como pudeste fazer isso comigo, Deus? Fiz tudo o que sabia fazer para manter os padrões da Igreja. Eu estava crescendo de maneira tão maravilhosa, e agora você me reduziu a isto. Como você teve coragem de fazer isso comigo?
Então ouvi uma voz. Parecia minha própria voz, e a voz dizia: “Eu sou o jardineiro. Sei o que quero que você faça. Se eu deixar você crescer do jeito que você quer crescer, você nunca chegará a nada.. Mas um dia, quando você estiver mais maduro na vida, você vai gritar através do tempo e dizer: ‘Obrigado, Sr. Jardineiro, por podar-me, por amar-me o bastante para ferir-me’”.
Essas palavras — que reconheço agora como minhas palavras para o pé de groselha e que se tornaram a palavra de Deus para mim — me levaram a ajoelhar-me, onde orei por perdão pela minha arrogância e ambição.
Enquanto orava lá, ouvi alguns rapazes mórmons em uma tenda ao lado cantarem o número de encerramento de uma sessão da AMMR [Associação de Melhoramentos Mútuos dos Rapazes], à qual eu geralmente assistia com eles. E reconheci estas palavras, que todos vocês memorizaram:
Talvez não seja em alto mar
Que Cristo me vá mandar;
Talvez não haja conflitos lá,
Nem honras eu vá encontrar.
Mas, quando o Cristo me chamar
A sendas que não trilhei,
Eu proclamarei com amor, ó Senhor:
“Aonde mandares irei.”
. . .
Confio em ti, sem vacilar
E sempre te amarei
A tua vontade farei, ó Senhor.
Tal como mandares serei!
[“ Aonde Mandares Irei ” Hinos,1948, nº 75]
Meus jovens amigos, irmãos e irmãs, vocês se lembrarão daquela pequena experiência que mudou toda a minha vida? Se o jardineiro não tivesse tomado o controle e feito por mim o que era melhor para mim, ou se as coisas tivessem ido do jeito que eu queria, eu teria retornado ao Canadá como um oficial comandante sênior do oeste do Canadá. Eu teria criado minha família em um quartel. Minhas seis filhas teriam tido pouca chance de se casar na Igreja. Eu mesmo provavelmente teria ido cada vez mais para baixo. Eu não sei o que poderia ter acontecido, mas sei isto, e digo isto a vocês e a Ele aqui hoje, olhando para trás há mais de sessenta anos: “Obrigado, Sr. Jardineiro, por podar-me.”
Agora deixo com vocês meu testemunho, que recebi da mesma fonte que, segundo Jesus, inspirou Pedro quando disse: “Tu és o Cristo.”
Quaisquer que sejam os compromissos que exijam sua atenção, digo a vocês, tanto aos rapazes quanto às moças, que não há melhor decisão a tomar hoje do que esta: “Vou me manter perto do Senhor. Eu vou conhecê-Lo melhor, e, conhecendo-O, vou conhecer a mim mesmo e tentar colocar minha vida em harmonia com a Dele.” Pois passei a saber que todo homem e toda mulher tem potencial divino habitando neles, pois Deus é na realidade o Pai de todos nós.
Deixo a vocês minha bênção. Que Deus abençoe esses jovens. Eles olham para as experiências da vida com esperança e alegria. Ó, Pai, esteja com eles, apoie-os, ajude-os, aprofunde seus testemunhos, mantenha-os fiéis à fé e a si mesmos. Pai, abençoe-os para que possam viver de acordo com as melhores tradições de nosso país e se orgulhar de terem se formado em uma escola filiada e administrada pela Igreja, onde aprenderam essas preciosas verdades sobre o propósito de suas vidas e seu relacionamento com a Deidade. Oro em nome de Jesus Cristo. Amém.
© Intellectual Reserve, Inc. Todos os direitos reservados.

Hugh B. Brown era o primeiro conselheiro na Primeira Presidência de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias quando este discurso de formatura foi proferido em 31 de maio de 1968.