Palestra

Aprender com o coração

Susan W. Tanner

Presidente geral das Moças

12 de agosto de 2004

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Para que nossas vidas se tornem a música da esperança do mundo, nosso aprendizado deve penetrar o coração; deve alcançar nosso âmago. Devemos ser capazes não apenas de acessar informações, mas de compreendê-las; devemos adquirir não apenas conhecimento, mas sabedoria.


Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu

É um privilégio poder dirigir algumas palavras a vocês. Gostaria de começar oferecendo meus sinceros parabéns aos formandos e às famílias e amigos presentes aqui hoje. Este é um dia de alegria e um dia em que louvamos ao Senhor pelas muitas ternas misericórdias que Ele nos concedeu.

Meu marido, John, acabou de fazer aniversário. Quando nos reunimos para lhe entregar nossos presentes, nossa celebração foi um pouco diferente da maioria das famílias. Havia pouco papel de embrulho e fita, e quase nenhuma evidência tangível de presentes. Em vez disso, apresentamos a ele memorizações como nossos presentes. Desde que me lembro, John sempre desencorajou o uso de presentes comprados em lojas para celebrar seu aniversário. Em vez disso, ele pediu que memorizássemos um poema, uma canção ou uma passagem das escrituras para recitar para ele. Dessa forma, nossas ofertas poderiam ser descritas da mesma maneira na qual William Shakespeare descreveu a misericórdia: “É duas vezes abençoada; abençoa aquele que dá e aquele que recebe” (O Mercador de Veneza, ato 4, cena 1, linhas 186–87). Conheço essa passagem porque uma vez a memorizei para o John. Ele sempre sentiu que a memorização dá aos nossos filhos e a mim a chance de lhe dar algo que também podemos guardar para nós mesmos. É um presente do coração.

Aprendi que há muitos benefícios em memorizar. Para mim, pessoalmente, isso aprofunda minha compreensão da passagem específica e a fixa em meu coração. À medida que vocês repassam uma passagem mentalmente, pensam nela repetidas vezes. A riqueza das palavras, a maneira como são organizadas, os possíveis simbolismos, o uso inteligente de recursos literários e novos significados que vocês talvez nunca tenham notado ou compreendido antes —  tudo se torna claro no processo de memorização. Memorizar pode colocar palavras em nossos corações, bem como em nossas mentes. Aprender com o coração — que talvez seja uma tradição em extinção — significa aprender algo tão profundamente que se torna parte do nosso âmago: isso nos preenche; isso nos muda. Frequentemente, meu coração fica repleto durante minhas corridas matinais enquanto eu repasso mentalmente as palavras de “A Família: Proclamação ao Mundo” (A Liahona, novembro de 1995, 102), “O Cristo Vivo” (A Liahona, abril de 2000, 2–3), ou alguma escritura ou poema que eu esteja memorizando no momento.

Eu li a proclamação da família muitas vezes e a cada vez senti amor e apreço por ela. Mas, à medida que memorizei cada palavra e frase, comecei a ver como ela fala detalhadamente sobre cada um dos males culturais que assolam nossa sociedade. Senti esperança de que as verdades eternas ensinadas na proclamação pudessem me armar ao enfrentar questões morais atuais e difíceis. Comecei a sentir uma maior validação pessoal por parte de apóstolos, profetas e do Senhor, em relação às escolhas familiares que fiz ao longo da vida. Senti fortemente o conhecimento de que temos um Pai Celestial que tem um plano infalível para nós. Senti Seu amor e bondade incomparáveis. Senti, como explicado em Provérbios, que “o Senhor é o que dá a sabedoria; da sua boca é que sai o conhecimento e o entendimento” e “a sabedoria entrar[á] no teu coração” (Provérbios 2:6, 10). Meu coração se encheu de conhecimento, entendimento, sabedoria e amor. Esse conhecimento promoveu a gratidão, o aperfeiçoamento pessoal e o desejo de fortalecer os outros.

Essa tradição de memorizar e recitar nos permitiu, como pais, ter vislumbres adicionais do coração de nossos filhos. À medida que escolhem suas próprias passagens, muitas vezes descobrimos quais desafios ou alegrias estão vivenciando. Também aprendemos sobre sua sabedoria e, às vezes, sobre seu senso de humor. Lembro-me do aniversário de 40 anos do John, quando nossa filha, então com 15 anos, apresentou um poema de Lewis Carroll:

“Você está velho, Pai William,” o jovem disse,
“E seu cabelo ficou muito branco;
E ainda assim você incessantemente fica de cabeça pra baixo —
Você acha que, na sua idade, está certo?”
[“Você é Velho, Pai William”, estrofe 1]

Embora um pouco desanimado naquele ano por se sentir meio velho, meu marido ficou ainda mais encantado com o senso de humor de nossa filha. Em outra ocasião, uma das nossas filhas escolheu recitar o “Soneto 29” de Shakespeare: “Quando em desgraça, sem sorte e afastado / Dos homens, sozinho, em meu exílio” (Soneto 29, linhas 1–2). Isso aconteceu em um momento em que ela se sentia inadequada e sem amigos. Um dos nossos filhos escolheu um poema de amor quando estava se sentindo apaixonado. Outra memorizou a seção 4 de Doutrina e Convênios e nos anunciou que havia decidido servir uma missão. O que nossos filhos aprendem com o coração e compartilham com seu pai torna-se uma expressão de suas próprias emoções sinceras.

Aprender com o coração é uma expressão rica. Pensem na palavra coração. Todos sabemos que nossos corações são fundamentais para a vida. Fisicamente, o coração é o órgão que sustenta a vida em nossos corpos. Da mesma forma, o coração é usado para descrever a parte essencial e mais vital de nosso ser espiritual — o caráter, os sentimentos ou as inclinações mais íntimas de uma pessoa. No sentido do evangelho, o coração é o nosso âmago espiritual. Por isso, as escrituras ensinam que “como [o ser humano] imagina no seu coração, assim ele é” (Provérbios 23:7; ênfase adicionada) e que “onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mateus 6:21; ênfase adicionada). O evangelho deve ser escrito “não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” (2 Coríntios 3:3; ênfase adicionada). Repetidas vezes nas escrituras, os profetas nos lembram, como Alma disse a seu filho, de “que o afeto do teu coração seja posto no Senhor para sempre” (Alma 37:36; ênfase adicionada). Aprender com o coração, em seu sentido mais pleno, é um dever do evangelho. É um mandamento que faz par com a lembrança. Devemos aprender as verdades espirituais em nosso coração e, em seguida, guardar na memória o que guardamos no fundo do coração.

Muitos de vocês aqui hoje passaram os últimos quatro anos (ou talvez mais) nesta maravilhosa universidade para obter uma educação. O que vocês aprenderam com o coração? Parte dessa educação é factual ou informativa. Tal aprendizado é útil. Isso nos ajuda a resolver problemas do dia a dia e a atender às necessidades imediatas. O Dr. Todd Britsch, ex-vice-presidente acadêmico da BYU, disse:

Lembramos de alguns dados que nos ajudam a resolver um problema, indicamos alguém a um local específico, discutimos uma pintura sem ter uma cópia dela à nossa frente, encomendamos uma peça para um computador sem um catálogo à mão. Em cada caso, memorizamos algo que nos ajuda a encurtar o processo de lidar com a experiência cotidiana. Sem esse repositório de fatos e dados, ficaríamos desamparados.

Outras coisas que aprendemos com o coração servem a propósitos ainda mais profundos, como o Dr. Britsch descreve:

Uma escritura que auxilia no aconselhamento de um amigo que sofre; um hino cujas palavras e música expressam nossos sentimentos religiosos mais profundos quando estamos lutando com uma questão de fé; . . . um ponto técnico que nos ajuda a defender uma posição que é importante para nós, nossa família ou nossa comunidade. [Todd A. Britsch, “Memorization: ‘Regurgitation’ or ‘Learning by Heart [Memorização: Repetição mecânica ou Aprender com o coração]?’” Focus on Faculty 5, nº 3 (verão de 1997): 2]

Vocês já acumularam conhecimentos valiosos e enriquecedores em seu banco de memórias, de modo que, quando precisarem recorrer a eles, tenham à disposição uma abundância de tesouros de conhecimento e sabedoria? Vocês já adquiriram tanto a habilidade quanto o amor pelo aprendizado, para que possam continuar, ao longo da vida, a encher esse banco e, assim, ser mais prestativos para outros?

Aprender com o coração nos permite buscar o aprendizado e o serviço ao longo da vida de forma mais plena — o que deve ser um resultado contínuo de uma educação na BYU. O documento “Aims of a BYU Education [Os objetivos de uma educação na BYU]” afirma:

A BYU deve inspirar os alunos a manterem viva sua curiosidade e prepará-los para continuar aprendendo ao longo de suas vidas. . . . Um diploma da BYU deve educar os alunos sobre como aprender, ensinar-lhes que ainda há muito a aprender e implantar neles o amor pelo aprendizado “pelo estudo e também pela fé” (D&C 88:118). [Em The Mission of Brigham Young University (A missão da Universidade Brigham Young) e The Aims of a BYU Education (Os objetivos de uma educação na BYU), Provo: BYU, 1996, 12]

Brigham Young declarou: “Poderíamos perguntar: quando deixaremos de aprender? Darei a minha opinião sobre isso: nunca, nunca” (JD 3:203). Ele também ensinou: “Nossa educação deve ser tal que aprimore nossas mentes e nos capacite para uma maior utilidade; para nos tornar de maior serviço à família humana” (JD 14:83).

Sou grata por exemplos poderosos em minha vida de pessoas que estão continuamente aprendendo e servindo — tornando, assim, o mundo um lugar melhor ao usarem suas mentes e corações cheios de vida.

A mãe de John, de 84 anos, é um desses exemplos. Atualmente, ela está servindo uma missão no templo — sua sexta missão. É sempre divertido conversar com ela porque há tanto entusiasmo em sua voz sobre cada nova descoberta — seja sobre nossa igreja, a história de um país ou a cultura local. Ela aprendeu sozinha a falar vários idiomas para ser mais prestativa em seu serviço no templo. Ao longo dos anos, ela tem sido uma ótima fonte de sugestões de leitura para meu clube do livro pois está continuamente aprendendo com livros interessantes. Ela é mãe de 13 filhos que seguem seu exemplo na busca pelo conhecimento. Ela é alguém que levou o aprendizado a sério.

Da mesma forma, vi um padrão de aprender com o coração em minha família que começou com meu avô. Esse padrão então continuou com o meu pai e agora com minha geração. Meu avô e meu pai tinham amor pela geografia, história e culturas. Eles viajaram o máximo que puderam e ainda conseguem relatar, com riqueza e precisão de detalhes, nomes de aldeias, montanhas, rios e lagos que visitaram. Em minha casa, enquanto crescíamos, fazíamos competições para memorizar as sedes de todos os condados do estado, depois as capitais de todos os estados dos Estados Unidos e, em seguida, as capitais dos países de cada continente. É claro que, nesse processo, estudamos mapas, aprendemos sobre línguas e culturas e visitamos muitos lugares belíssimos de nosso interesse. Meu avô nos levava em viagens e, assim, começou a tradição de encher nossos corações com conhecimento e recordações. Ele acreditava em dar experiências à sua posteridade, em vez de coisas. Meu pai deu continuidade a isso.

Uma das experiências que meu pai me proporcionou e que encheu meu banco de memórias foi escalar montanhas juntos. Foi um trabalho árduo, mas ele me ensinou que a vista espetacular do topo era mais magnífica porque eu a havia conquistado. Ele me ensinou a capturar imagens belíssimas na minha memória, para que eu pudesse revivê-las sempre que precisasse da serenidade que elas me proporcionavam. Adquiri o conhecimento de que o nosso Pai Celestial me amava o suficiente para criar este mundo “tanto para agradar aos olhos como para alegrar o coração; (…) e para avivar a alma” (D&C 59:18–19).

Meu pai acabou de voltar de Nauvoo, onde serviu como presidente do templo. Ele tem quase 80 anos agora e admite, com tristeza, que provavelmente não voltará a subir ao topo de nenhum dos seus picos favoritos. Mas ele tem aquelas paisagens que tanto ama guardadas em seu banco de memória, em semelhança ao poema de William Wordsworth sobre ver uma multidão de narcisos dourados que meu pai tantas vezes citou para mim:

Eu olhei e olhei, mas pouco pensei
Qual riqueza a beleza me tinha trazido:

Pois, frequentemente, quando me deito em meu sofá
Em um estado desocupado ou pensativo
Eles brilham sobre aquele olho interior
Que é a alegria da solidão
E então meu coração se enche de prazer
E dança com os narcisos.

(“I Wandered Lonely as a Cloud” [Eu Vaguei Tão Solitário Quanto Uma Nuvem], 1807, estrofes 3–4; ênfase adicionada)

Como meu pai memorizou aquelas paisagens das montanhas, ele pode retornar a elas quando começar a afundar-se “em um estado desocupado ou pensativo” e novamente encher seu coração de alegria.

Uma das muitas coisas que amo em nosso querido presidente Hinckley é sua mente brilhante e seu amor pelo aprendizado. Na dedicação da biblioteca remodelada deste campus, falou-se muito sobre a ampla tecnologia que havíamos adquirido e que ajudaria as pessoas que não estão no campus a acessar informações de nosso vasto acervo de livros. O presidente Hinckley demonstrou gratidão por isso, mas então ele segurou ternamente um belo livro em suas mãos. Ele falou do seu grande amor pelo peso e pelo toque de um livro, e de como nada superava o prazer de segurá-lo e ler suas páginas. Ele herdou uma vasta coleção de livros de seu pai e conhecia bem o seu conteúdo. Os livros tornaram-se parte dele. Sua filha, Virginia Pearce, disse a respeito dele: “Ele frequentemente cita Shakespeare. Ele cita Kipling. Trechos de grandes obras literárias simplesmente flutuam em sua cabeça” (citado em Jake Parkinson, “U. Endowment Expands”, Deseret News, 6 de abril de 2003, A7). Isso porque ele os memorizou na juventude e, às vezes, os recitava para os pais — assim como nossos filhos fizeram por nós.

Meu marido e eu ouvimos muitas outras informações relevantes “surgirem” quando tivemos a oportunidade de levar dois embaixadores para visitá-lo — um da República Tcheca e outro da China. Em cada caso, ficamos impressionados com a profundidade de seu conhecimento sobre os eventos históricos e políticos daquelas terras. Ele é muito culto. Ele é um bom pensador. Ele tem boa memória e é sábio em sua capacidade de assimilar e utilizar seu conhecimento. Essa aprendizagem contínua permitiu que ele se tornasse muito mais prestativo no reino. Ele é capaz de extrair tesouros de sabedoria da abundância de seu coração bem provido de conhecimento.

O documento de metas da BYU explica que um conhecimento maior nos dá a capacidade de sermos mais prestativos:

Fé, intelecto e caráter bem desenvolvidos preparam os alunos para uma vida inteira de… serviço… Os alunos da BYU fortalecem não apenas a si mesmos — eles “também trazem força aos outros nas tarefas do lar e da vida familiar, nas relações sociais, no dever cívico e no serviço à humanidade” (Mission Statement [Documento institucional de missão]). [Aims, 12]

Memorizei um poema de George Eliot que fala eloquentemente sobre nos desenvolvermos para que possamos nos tornar parte do “coro invisível” cujas vidas “dão força aos outros”:

Oh, que eu possa unir-me ao coro invisível
Dos imortais, que vivem de novo
Em mentes tornadas melhores pela sua presença: . . .
. . . Que eu possa . . .
. . . ser para outras almas
O cálice de força em alguma grande agonia,
Acender ardor generoso, nutrir amor puro,
Dar à luz sorrisos sem crueldade —
Ser a doce presença de um bem difundido,
E na difusão sempre mais intenso.
Assim me reunirei ao coro invisível
Cuja música é a alegria do mundo.

“O May I Join the Choir Invisible,” [Oh, que eu possa unir-me ao coro invisível] 1867

Por meio do aprendizado e do serviço ao longo da vida, podemos nos juntar “ao coro invisível cuja música é a alegria do mundo”. Como formandos da BYU, temos o dever especial de viver assim. Como disse o presidente Kimball na dedicação da Torre de Carrilhão, que “a moralidade dos formandos desta universidade forneça a música da esperança para os habitantes deste planeta.” (Spencer W. Kimball, “O segundo século da Universidade Brigham Young”, Universidade Brigham Young, 10 de outubro de 1975, 12).

Para que nossas vidas se tornem a música da esperança do mundo, nosso aprendizado deve penetrar o coração; deve alcançar nosso âmago. Devemos ser capazes não apenas de acessar informações, mas de compreendê-las; devemos adquirir não apenas conhecimento, mas sabedoria. Hoje em dia, podemos pesquisar qualquer coisa, mas isso só nos transforma se a aprendermos com o coração. T. S. Eliot disse: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?” (The Rock [1934], I).

“Oh! lembrai-vos, lembrai-vos”, disse Alma a cada um de seus filhos (Helamã 5:9). Que possamos “acumular sabedoria” em nosso coração (D&C 38:30) ao meditarmos em nosso coração sobre as bênçãos de proteção, consolo e paz; ao ponderarmos em nosso coração momentos de inspiração e revelação; e, acima de tudo, ao lembrarmos que somos filhos do convênio do Pai Celestial. Devemos gravar nossos convênios nas tábuas de carne de nosso coração.

É minha esperança e minha oração que, como disse Jeremias, Deus “Por[á] a [sua] lei no [nosso] interior, e a escrever[á] no [nosso] coração” (Jeremias 31:33). Que possamos aprender com o coração as coisas que encherão continuamente nossos bancos de memória com sabedoria e, então, usar essa sabedoria em Seu serviço. Esta é minha oração, em nome de Jesus Cristo, amém.

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Susan W. Tanner

Susan W. Tanner era a presidente geral das Moças de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias quando este discurso de formatura foi proferido em 12 de agosto de 2004.