Devocional

“Não temais, pequeno rebanho”

Sherami L. Jara

Vice-diretora da Faculdade de Ciências Humanas

15 de julho de 2025

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A fé não é a ausência da tristeza, do sofrimento, das dificuldades ou da dor. Muitas vezes, esses sentimentos coexistem com a fé.


Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu

Quando era criança, eu tinha um medo terrível de vampiros. Eu estava convencida de que um deles vivia embaixo da minha cama, esperando que eu chegasse muito perto da borda para me puxar para baixo — e esse seria meu fim.

O meu medo era tão forte que desenvolvi uma rotina rigorosa matinal e noturna para me manter “segura”. À noite, eu corria do corredor para o meu quarto e pulava para a minha cama de longe, com cuidado para não deixar nenhum dedo do pé tocar no chão. De manhã, eu ficava no canto mais distante da cama, encostava as costas na parede e depois corria pelo colchão e saltava até a porta. Fiz isso todos os dias, de manhã e de noite, por vários meses.

Tudo isso parece muito assustador, mas é importante notar que o vampiro que vivia debaixo da minha cama era o Conde da Vila Sésamo. Para quem não o conhece, ele é um Muppet — um personagem alegre feito de espuma e pelúcia —, que me ensinou a contar. Em minha defesa, eu tinha ouvido histórias de Halloween sobre vampiros, e ele era o único vampiro que eu já tinha visto, então naturalmente ele se tornou aquele que eu imaginava à espreita debaixo da minha cama.

Como adultos, esta história pode nos parecer infantil. Todos nós sabemos que os Muppets são relativamente inofensivos (com exceção da Miss Piggy), que vampiros não existem, e que nada vive debaixo das nossas camas a menos que deixemos. E, no entanto, o meu medo do Conde era muito real para mim quando criança. Mudei completamente a forma como entrava e saía da cama, de manhã e à noite. Em vez de enfrentar o medo, mudei meus hábitos e ações em resposta a ele.

Gostaria de lhes dizer que, depois de refletir sobre essa história da minha infância, nunca mais permiti que o medo conduzisse as minhas ações. No entanto, a reflexão honesta sempre acaba revelando suavemente onde ainda temos espaço para crescer, e nos ajuda a ver que o medo muitas vezes se esconde atrás de cautela, de hesitação ou de desculpas que parecem razoáveis no momento. Eu, talvez como alguns de vocês, já perdi oportunidades, experiências, crescimento, direção e entendimento simplesmente porque agia por medo. O medo, mesmo quando sutil ou disfarçado de cautela ou hesitação, pode nos impedir de nos tornarmos quem o Senhor nos convida a ser.

No entanto, sentir medo faz parte de ser humano. Nem sempre é um sinal de fraqueza ou falta de fé. Todos nós sentimos medo. Nosso Pai Celestial criou nossos corpos de forma que tivéssemos uma reação instintiva a qualquer coisa que nosso cérebro perceba como uma ameaça, seja real ou imaginária. Nesses momentos, os nossos corações disparam, a nossa respiração acelera, e hormônios do estresse, como a adrenalina, correm por nossas veias. Nossos músculos se contraem e sentimos o desejo de lutar, fugir, ou ficar paralisados. Essas respostas têm o objetivo nos proteger e nos manter seguros. Esse é um medo natural e instintivo.

Dito isso, nem todos os medos servem para nos proteger de um perigo imediato. Hoje, quero me concentrar nos nossos medos antecipatórios. Esses medos envolvem imaginar perda, dor ou sofrimento futuros. Em um mundo cheio de incerteza, é fácil ficar preso a esses medos. Eles podem se manifestar como medo do fracasso, da rejeição, da tristeza, de estar sozinho, de perder oportunidades, de não ser suficiente, ou mesmo de ser demais. Esses medos nos dizem: “Não há garantia contra o fracasso. Este é um jogo em que se ganha tudo ou se perde tudo.” Esses medos tendem a persistir, moldando nossos comportamentos e decisões ao longo do tempo, na tentativa de evitar dores e perdas percebidas. São tipos de medos que podem nos impedir de progredir. Enquanto me ouvem, eu os convido a refletir sobre onde os medos antecipatórios aparecem em suas próprias vidas.

Embora todos sintamos algumas formas de medos antecipatórios de vez em quando, tais medos não foram dados por Deus. Eles têm origem em Satanás. O presidente Gordon B. Hinckley afirmou: “O medo não vem de Deus, mas do [adversário].”1 É uma ferramenta de Satanás para nos tornar infelizes e nos impedir de progredir. Satanás trabalha arduamente para diminuir os nossos dons espirituais e a certeza de nossa herança divina. Ele trabalha incansavelmente para nos convencer de que somos as únicas pessoas que Deus não ama. Ele pode até transformar as nossas obras e a nossa fé em um exercício assustador de tentar fazer com que Deus nos ame. Ele perverte o temor a Deus, e nos convence de que nada do que fazemos é suficiente e que nunca seremos suficientes. Ele desvia nosso olhar e o afasta da verdadeira natureza de Deus e de Seu amor por nós. Nesse lugar sombrio, é difícil fazer qualquer coisa além de sentir medo.

Como o Pai Celestial sabia que enfrentaríamos medos capazes de nos desorientar e paralisar, Ele nos abençoou com a habilidade de superá-los. Como Paulo ensinou em 2 Timóteo 1:7, “Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação”. Esse poder nos dá coragem e autoridade divina para resistir às tentações e para agir em nome de Deus. Recebemos poder e proteção através dos nossos convênios com Ele. O amor nos enche de compaixão cristã, não só pelos outros, mas também por nós mesmos, e nos ajuda a superar o ódio, o egoísmo e a contenda. Amar como o Salvador ama nos enche de esperança e luz e “lança fora o temor”.2 Uma mente moderada é calma, clara e capaz de discernir as coisas . Uma mente sensível aos sussurros do Espírito é capaz de recordar o que aprendemos sobre quem somos e quem Deus é para nós. Satanás quer que vocês esqueçam dessas bênçãos. Ele é o pai da mentira e do caos mental.

Conheço bem essa luta. Os meus próprios medos antecipatórios quase me impediram de iniciar a minha jornada na BYU. Para começar, eu não queria ir para a BYU. Eu queria ficar na Califórnia e estava determinada a fazer algo diferente de todos os outros jovens da minha ala. Na verdade, sei que uma das maiores razões pelas quais não queria ir para a BYU era porque eu temia que não fosse inteligente ou espiritual o suficiente para ter sucesso aqui. Mas o Senhor sabia que não era assim. Ele me inspirou fortemente a me inscrever e a estudar na BYU. Eu segui essa inspiração.

Muitas vezes, quando agimos fielmente de acordo com os sussurros do Espírito, acreditamos que o desafio já acabou. Mas, por experiência própria, a maioria de nós sabe que nem sempre é assim. Apesar dos meus esforços para seguir em frente com fé, senti imediatamente a síndrome do impostor. Meu curso estava repleto de alunos de destaque que eram mais articulados e que se expressavam melhor e escreviam melhor do que eu. E, como aluna recém-transferida, senti que todos compreendiam tudo melhor do que eu, incluindo o hino da BYU. Eu tinha dificuldade para sentir que compreendia o evangelho da mesma forma que os demais compreendiam, tanto na Igreja quanto em minhas aulas de religião. Eu estava sendo engolida pela insegurança. Para onde quer que eu olhasse, tudo o que via eram sinais de que todos os medos que eu tinha sobre mim mesma antes de vir para cá eram verdadeiros. Eu não me encaixava na BYU.

No entanto, naquele ano tive a benção de acabar morando em um apartamento com maravilhosas mulheres de muita fé. Elas me ajudaram a reformular meus pensamentos e a me concentrar em tudo o que Deus tinha feito para me preparar para a BYU, assim como no que aquela oportunidade poderia significar para o meu crescimento espiritual e intelectual. Comecei a entender os papéis que o Pai Celestial, o Salvador e o Espírito Santo desempenhavam na minha vida e no meu aprendizado. Compreender isso me libertou para encarar essa experiência com todas as minhas imperfeições, confiando que Eles poderiam me tornar alguém melhor do que eu era. Essa perspectiva também me ajudou a ver melhor as outras pessoas em suas próprias lutas e a oferecer amor e consolo a elas. Acima de tudo, isso acalmou minha mente. Eu realmente pertencia a este lugar, e Deus sabia que era aqui que eu poderia prosperar e crescer. Estremeço ao pensar em tudo o que teria perdido se tivesse me rendido completamente a esses medos.

Ao considerarem alguns dos medos antecipatórios que estão enfrentando, gostaria de sugerir três coisas que penso que podemos fazer para que os nossos medos não nos mantenham como reféns, nem nos privem dos dons e do crescimento que o Pai Celestial tem em mente para nós.

Busquem a Cristo

Primeiro, busquem a Cristo e saibam quem vocês são para Ele.

Cristo está sempre nos convidando a deixar de lado o medo e olhar para Ele. Em uma de suas súplicas mais gentis, Ele disse, em Doutrina e Convênios 6:34: “Portanto, não temais, pequeno rebanho; fazei o bem; deixai que a Terra e o inferno se unam contra vós, pois se estiverdes estabelecidos sobre minha rocha, eles não poderão prevalecer.” Como lemos em Helamã 5:12, “É sobre a rocha de nosso Redentor, que é Cristo, o Filho de Deus, que deveis construir os vossos alicerces.”

Cristo é a nossa rocha. Ele é o nosso protetor e alicerce firme. Edificar o nosso alicerce em Cristo significa nos centrar em Seus ensinamentos, seguir Seu exemplo, fazer e guardar convênios e acreditar e confiar em Sua Expiação. Significa mantermos os olhos fixos Nele. Quando o fazemos, nos é prometido

que, quando o diabo lançar a fúria de seus ventos, sim, seus dardos no torvelinho, sim, quando todo o seu granizo e violenta tempestade vos açoitarem, isso não tenha poder para vos arrastar ao abismo da miséria e angústia sem fim, por causa da rocha sobre a qual estais edificados, que é um alicerce seguro; e se os homens edificarem sobre esse alicerce, não cairão.3

Parece que deveria ser óbvio manter o nosso foco em Cristo, conhecendo a proteção e a força que Ele oferece. No entanto, como mortais que se esforçam para ser melhores discípulos e agir com fé, às vezes nos distraímos com o caos ao nosso redor e deixamos que o medo assuma o controle.

Um dos meus exemplos favoritos encontra-se em Mateus 14. Nesse capítulo, Jesus tinha acabado de alimentar os cinco mil. Os discípulos tinham partido antes Dele em um barco para atravessar o Mar da Galiléia. Mais tarde naquela mesma noite, o vento começou a soprar e as ondas ficaram agitadas. Os discípulos estavam passando por dificuldades quando, “na quarta vigília da noite”4 — algum momento entre as 3h e as 6h da madrugada — Jesus veio andando sobre as águas até eles. Eles pensaram que era um espírito e gritaram. Jesus imediatamente os consolou: “Tende bom ânimo; sou eu, não tenhais medo.”⁵

Ao ouvir essas palavras, Pedro exclamou: “Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas.”⁶ Jesus o convidou, e Pedro saiu do barco e começou a caminhar sobre as águas em direção a Jesus. Gosto de pensar neste momento — os olhos de Pedro firmemente fixos no Salvador, avançando destemidamente em Sua direção.

Então, por um breve instante, Pedro desviou o olhar e viu o vento e as ondas. Vocês conseguem imaginar não apenas o medo imediato e instintivo que ele sentiu, como também seus medos antecipados ao perceber que estava afundando?

  • E se eu não conseguir fazer isto?
  • E se eu não for digno?
  • E se eu não tiver feito o suficiente? Sido o suficiente? Acreditado o suficiente?

Sobrecarregado por seus medos e dúvidas, ele afundou ainda mais na água. Pedro clamou: “Senhor, salva-me.”⁷

Cristo não hesitou. Imediatamente, Ele estendeu a mão, segurou Pedro e disse: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?”⁸

Assim como Cristo lembrou Pedro de quem Ele era e onde Pedro deveria concentrar sua atenção, Ele nos lembra de quem nós somos. Seu desejo de nos dar um alicerce no qual possamos confiar em momentos de temor está enraizado em Sua certeza de que somos filhos e filhas do Pai Celestial.

Tenho a bênção e o privilégio de servir na organização das Moças em minha ala. A cada duas semanas, fico com os olhos marejados ao ouvir essas jovens fortes e fiéis dizerem juntas as seguintes palavras: “Sou uma filha amada de pais celestiais, com uma natureza divina e destino eterno.”⁹ Essa curta frase reafirma nossa herança divina. Somos investidos de poder e glória. Nossos convênios nos unem a nosso Pai Celestial e nos fortalecem. Ele vê e conhece nossa capacidade infinita.

Se vocês estão se perguntando se isso é verdade para todos, mas não para vocês, aqui vão algumas reflexões: Lembrem-se dos convênios que fizeram com Deus. Em todos eles, Ele derramou sobre vocês as mesmas bênçãos e promessas que concede a todas as outras pessoas. Leiam sua bênção patriarcal. Ela oferece uma visão poderosa do potencial que vocês possuem e dos dons que Deus concedeu a vocês. Pensem nas bênçãos que receberam ou nos momentos de revelação pessoal. Lembrem-se dos momentos em que sentiram Seu amor, Sua paz ou Sua orientação. Vocês são Seus filhos e filhas e Ele os ama. Nada do que façam, digam ou pensem mudará essa verdade eterna. Essas bênçãos e lembranças podem recordá-los da rocha sobre a qual estão firmados, o alicerce que os mantém firmes e inabaláveis.

Ao longo das escrituras, vemos exemplos de pessoas que, ao enfrentarem medo e dificuldade, lembraram-se de sua natureza divina e destino eterno. Vemos isso em Moisés, ao enfrentar Satanás; em Ester, ao aproximar-se do rei; em Abinádi ao permanecer diante dos sacerdotes do rei Noé e em muitos outros. Seus exemplos nos lembram que nós também podemos encontrar coragem para nos mantermos firmes diante do medo, ao olharmos para Cristo.

“Não temas, crê somente”

Segundo, para vencerem o medo e serem quem estão destinados a ser, não temam, creiam somente.10

Enquanto compartilhava as minhas experiências iniciais na BYU, talvez alguns de vocês tenham sentido o mesmo. Talvez vocês tenham tido momentos semelhantes em suas próprias vidas. Eu os convido a refletir comigo por um instante: o que poderia ter sido perdido se, naqueles tempos difíceis, vocês não tivessem escolhido acreditar e seguir em frente com fé? Minha reflexão me levou a considerar as bênçãos e o crescimento que eu teria deixado de receber se eu tivesse permitido que os medos e dúvidas me abalassem naquela época. Agora, pensem em suas vidas e em algumas das provações, decisões e medos que enfrentam hoje. De que maneiras o medo e a descrença podem estar impedindo vocês de aproveitar oportunidades de crescimento neste momento?

À medida que fui acumulando lições de vida e, espero, um pouco de sabedoria, percebi que o medo e a dúvida muitas vezes tomaram conta de mim justamente quando eu estava prestes a cruzar a linha de chegada. Não era necessariamente difícil seguir a primeira inspiração ou ter fé de que eu estava no caminho certo. Em vez disso, minha convicção vacilava depois que eu me esforçava, seguia em frente com fé e esperava para ver como as coisas iriam acabar.

A ideia de que Deus conhece nossa jornada e pode operar milagres ao longo do caminho faz-me lembrar do livro O Alquimista, do autor brasileiro Paulo Coelho. É a história de um jovem pastor espanhol chamado Santiago, que sonha encontrar um tesouro nas pirâmides do Egito. Santiago vende suas ovelhas e embarca em uma jornada para encontrar esse tesouro.

Após grandes sacrifícios e desvios inesperados, Santiago finalmente se aproxima do tesouro que buscou diligentemente. Ele está tão perto, mas fica em dúvida e com medo. E se não houver nada aqui? E se tudo tiver sido em vão?

Esse é um momento de transformação e de uma nova perspectiva para Santiago. Ele precisa decidir se o valor de suas escolhas e sacrifícios será definido pela descoberta de ouro ou pela sabedoria que adquiriu ao longo de seu percurso. No início de sua jornada, um condutor do deserto lhe deu este conselho: “Só sentimos medo de perder aquilo que temos, sejam nossas vidas ou nossas plantações. Mas este medo passa quando entendemos que nossa história e a história do mundo foram escritas pela mesma Mão”.¹¹

Tal como Santiago, frequentemente chegamos a momentos em que já percorremos um longo caminho — seguimos inspirações, suportamos provações e confiamos em Deus. E agora, diante da promessa, somos convidados a dar o passo final rumo ao desconhecido e a acreditar. Nesses momentos, podemos hesitar e pensar:

  • E se eu estiver errado?
  • E se eu confiei em algo que não era real e depositei toda a minha fé nisso?
  • E se isso me custar tudo?
  • E se Deus não se manifestar?

No Novo Testamento, em Marcos e Lucas, lemos sobre um “principal da sinagoga” chamado Jairo.¹² A sua filha, ainda jovem, estava muito doente. Marcos escreveu: “vendo-o, prostrou-se aos seus pés… e rogava-lhe muito.”13

Tudo isso aconteceu em um momento em que muitos buscavam a Cristo; Ele estava cercado por multidões. De fato, em Sua jornada para ajudar a filha de Jairo, Ele parou para consolar e curar a mulher que padecia de “um fluxo de sangue havia doze anos.”¹⁴ Logo após Cristo curar essa mulher, alguém disse a Jairo: “Tua filha está morta; para que ainda enfadas o Mestre?”15

Reservem um momento para considerar o que Jairo deve ter sentido. Não sei exatamente o que Jairo pensou ou sentiu naquele instante, mas, como mãe, imagino que eu me sentiria completamente derrotada e com o coração partido.

Nesse momento devastador, Cristo compreendia a dor que Jairo sentia no coração e proferiu as seguintes palavras gentis e amorosas:  “Não temas, crê somente.”¹⁶

Esse momento tem um profundo significado para todos nós. Quantas vezes nos sentimos como Jairo — desesperados por ajuda, agarrando-nos à esperança — e então algo acontece que nos faz questionar se já é tarde demais. Começamos a temer. E se tivermos esperado em vão? E se tivermos percorrido todo este caminho apenas para nos decepcionarmos? Mas somos lembrados de que, para Deus, nunca é demasiado tarde. Mesmo em nossos momentos mais sombrios e desesperadores, o Salvador nos sussurra: “Não temas, crê somente.”¹⁷

Minha jornada até a maternidade foi difícil, repleta de oportunidades para colocar minha fé à prova e enfrentar desafios que me ajudaram a me tornar a mulher que sou hoje. Seis anos após nosso casamento, descobrimos que estávamos esperando nosso primeiro filho. Essa foi a notícia mais maravilhosa que eu já havia recebido! No entanto, a gravidez revelou-se muito desafiadora e, com trinta e uma semanas, nosso bebê nasceu. Ele pesava cerca de um quilo e quatrocentos gramas e foi imediatamente internado na unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN). Ao final do primeiro dia, ele pesava um pouco mais de um quilo. Meu bebê era tão pequeno e frágil e eu temia que, depois de todas as minhas esperanças e orações, perderia esse filho tão amado.

Naquelas primeiras horas e nas semanas seguintes, eu vivi todas as dúvidas e medos imagináveis. Eu duvidava de mim mesma e me atormentava com dúvidas sobre minha capacidade como mãe e se, de alguma forma, isso teria sido culpa minha. Eu sofria com a possibilidade de perdê-lo e com o medo de que Deus não nos concedesse as bênçãos que buscávamos. Eu estava assustada e lutava para acreditar que o Pai Celestial sabia como essa história iria — e precisava — se desenrolar. Ao olhar para trás, consigo ver Satanás trabalhando intensamente, mas também consigo ver o consolo e a paciência que Deus teve comigo repetidas vezes, enquanto eu aprendia a exercer fé.

“Não temas, crê somente” pode ser muito difícil. Na verdade, talvez não consigamos fazer isso de maneira perfeita. E ainda assim, o Pai Celestial e o nosso Salvador trabalham conosco para aumentar a nossa fé de maneiras que nos ajudem a tornar-nos quem Eles sabem que podemos ser! Em Alma 32:27 lemos: 

Mas eis que, se despertardes e exercitardes as vossas faculdades, pondo à prova as minhas palavras, e exercerdes uma partícula de fé, sim, mesmo que não tenhais mais que o desejo de acreditar, deixai que esse desejo opere em vós, até acreditardes de tal forma que possais dar lugar a uma porção das minhas palavras. 

Vocês não precisam ser perfeitos para seguir em frente rumo a lugares desconhecidos e tempos difíceis. Basta exercerem “uma partícula de fé” e terem o “desejo de acreditar”. Naqueles dias na UTIN, quando as coisas pareciam sombrias, às vezes tudo o que eu conseguia fazer era ter o desejo de acreditar. Mas descobri que isso se tratava de um processo criativo, um processo que trazia esperança, alegria e paz. Quando eu me permitia ceder ao medo e ao desespero, tudo o que sentia era a destruição da esperança, da alegria e da paz. Testifico que o Senhor aceitou esses desejos e ajudou a edificar a minha fé, o que me deu coragem para enfrentar desafios e acreditar. 

Em relação ao meu primeiro filho, as coisas acabaram correndo bem e ele continua sendo uma grande bênção em minha vida. Ao longo dos nove anos que se seguiram, dei à luz ao meu segundo filho, um menino muito doce, mas perdi outras sete gestações. Nesses momentos desafiadores, eu senti um medo imenso. Eu tive que reaprender várias vezes como desejar acreditar, agir com uma partícula de fé e confiar em Deus, no Seu amor e no Seu plano para mim. 

Nos momentos em que vocês se sentirem tentados a dizer: “Isso está acontecendo comigo porque não sou digno o suficiente” ou “Estou com tanto medo de não ser capaz de enfrentar o que vem pela frente”, lembrem-se do que falou o presidente Jeffrey R. Holland: “Vocês são Seus filhos, a quem Ele envia profetas e faz promessas; a quem Ele concede dons espirituais e revelações, milagres e mensagens; a quem Ele coloca ao dispor anjos em ambos os lados do véu.”18 Vocês têm o poder de seguir em frente com fé e vigor rumo a seu destino eterno.

Um dos lugares onde vejo isso se manifestar mais claramente no meu trabalho aqui na BYU é nas dificuldades que os alunos enfrentam para definir como será sua carreira e sua vida após a formatura. Muitas vezes, minhas conversas com eles levam a uma exploração de quando as coisas correram bem e quando Deus cuidadosamente os guiou por um certo caminho. Também testifico que Deus se importa com o que vocês fazem com sua vida e seus talentos, bem como a forma com que os usam para abençoar o mundo. Ele não vai abandoná-los. Ele estará presente e os guiará a oportunidades que lhes permitam aprender e crescer. “Não temas, crê somente.”

Ajam com fé 

Terceiro, ajam com fé. 

Fomos abençoados com poder, amor, uma mente sã, anjos, profetas, convênios, escrituras e muito mais. Todas essas coisas são lembretes amorosos do desejo de nosso Pai Celestial de nos ajudar a progredir e a não ficarmos paralisados pelo medo. Quando permitimos que esses dons operem em nossas vidas, podemos ter a coragem e a força para agir. Às vezes, vocês enfrentarão medos tão esmagadores que sentirão que não há como seguir em frente ou acreditar que tudo ficará bem. Poderão ser chamados a deixar situações confortáveis para se colocarem em outras desconfortáveis. Sofrerão perdas, dores e tristezas, mesmo quando estiverem fazendo o melhor possível para agir com fé. Mas lembrem-se de que Cristo tem conhecimento das coisas como são e como serão.19 Ele tem o poder de vencer todas as coisas. Ele ama vocês e sabe exactamente o que estão sentindo e enfrentando.

Agir com fé significa voltar a essas verdades repetidamente até que possamos acreditar nelas e agir de maneira que elas possam transformar nossa vida. Em Doutrina e Convênios 78:18, o Senhor nos lembrou:

E não podeis suportar tudo agora; contudo, tende bom ânimo, porque eu vos guiarei. Vosso é o reino e são vossas as suas bênçãos e são vossas as riquezas da eternidade. 

Muitos homens e mulheres notáveis antes de vocês enfrentaram medos e sentimentos semelhantes. Convido-os a buscar coragem nos exemplos deles. Pensem em Joseph Smith, quando ele sofreu na Cadeia de Liberty e clamou: “Ó Deus, onde estás?”20

O Senhor respondeu com conforto, perspectiva e esta gentil exortação: “Não temas o que o homem possa fazer, pois Deus estará contigo para todo o sempre.”21

A dor e a crença podem coexistir 

Antes de nos despedirmos hoje, quero encerrar com uma última reflexão. Muitas vezes, ouvimos histórias de pessoas extraordinárias que superaram o medo e agiram com convicção e fé, mesmo enquanto passavam por grandes perdas e sofrimentos. Frequentemente, essas histórias são contadas como se, para sermos fiéis, superarmos o medo e agirmos, precisássemos ao mesmo tempo enterrar, negar ou ignorar a dor, a tristeza, o luto ou a perda que sentimos.

A fé não é a ausência da tristeza, do sofrimento, das dificuldades ou da dor. Muitas vezes, esses sentimentos coexistem com a fé. Jairo sentiu a dor da morte de sua filha, mas mesmo assim decidiu atender ao convite do Salvador para crer e levou Cristo até sua casa. Podemos sentir medo, tristeza ou ansiedade diante da possibilidade de que algo em nosso futuro nos traga dor e sofrimento. Nem todas essas experiências podem ser evitadas. Nesses momentos dolorosos, ainda assim podemos optar por nos unir ao Salvador e buscar Sua ajuda.

Sou a mais velha de cinco irmãos — quatro meninas e um menino. Em 2022, meu irmão, Houston, sofreu um ataque cardíaco. Infelizmente, Houston não foi encontrado imediatamente e a falta de oxigênio prolongada causou uma lesão cerebral. Ao longo dos dias que passamos com ele na unidade de terapia intensiva, posso afirmar com toda a certeza que nunca orei com tanta intensidade nem exerci tanta fé. No entanto, dia após dia, o estado do Houston piorava e, por fim, nos disseram que ele não sobreviveria. Foi difícil aceitar que, apesar da fé e das orações de tantas pessoas maravilhosas, iríamos perder o Houston. E então o perdemos. O meu coração ficou partido. 

Mas a dor, a tristeza e a fé podem coexistir. Eu e muitos outros enfrentamos todos os medos antecipatórios de perder o Houston — e de ter que viver sem ele — com toda a fé que conseguimos reunir. Continuamos orando, esperando e confiando que Deus conhecia o caminho do Houston, mesmo quando já não conseguíamos mais ver o milagre pelo qual esperávamos.

O Élder Dieter F. Uchtdorf disse: 

Há tantas coisas na vida que Deus vê de forma diferente do que nós vemos. . . . 

Tendemos a pensar na alegria como a ausência de tristeza.

Mas e se a alegria não fosse a ausência de tristeza?

E se a alegria e a tristeza pudessem coexistir?

E se elas precisassem coexistir? 22

A dor de perder meu irmão me ajudou a procurar paz e a solidificar minha fé nos convênios que fiz com Deus e nas promessas que vêm deles. Minha tristeza se transformou e aumentou minha alegria e minha fé na Expiação e na Ressurreição. Eu pude agir com a esperança de que meu irmão seria restaurado por completo. Sei que, nesses momentos de grande dor, pode parecer impossível que a alegria possa coexistir. Talvez não seja a alegria que esperávamos sentir se o milagre pelo qual oramos tivesse sido concedido, mas Deus não nos deixa sozinhos.

O élder Uchtdorf disse: 

Como Seu povo do convênio, não precisamos ficar paralisados pelo medo de que coisas ruins possam acontecer. Em vez disso, podemos seguir em frente com fé, coragem, determinação e confiança em Deus ao enfrentarmos os desafios e as oportunidades que temos pela frente. . . .

Diante do medo, que encontremos nossa coragem, reunamos nossa fé e tenhamos confiança na promessa de que “toda a ferramenta preparada contra ti não prosperará”.23

Lembrem-se do convite e da promessa de Cristo a vocês: “Portanto, não temais, pequeno rebanho; fazei o bem; deixai que a terra e o inferno se unam contra vós, pois, se estiverdes edificados sobre a minha rocha, eles não poderão prevalecer.” 

Testifico que Ele pode dar-lhes coragem, fortalecer sua fé e abençoá-los com paz e alegria à medida que derem um passo após o outro e agirem com fé. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

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Notas

  1. Gordon B. Hinckley, “Stand Up for Truth” [Defendei a Verdade], devocional da BYU, 17 de setembro de 1996 (áudio, 23:42–23:46); ver “Excerpts from Recent Addresses of President Gordon B. Hinckley” [Trechos de discursos recentes do presidente Gordon B. Hinckley], Ensign, janeiro de 1998. 
  2. 1 João 4:18
  3. Helamã 5:12
  4. Mateus 14:25
  5. Mateus 14:27
  6. Mateus 14:28
  7. Mateus 14:30
  8. Mateus 14:31
  9. Tema das Moças
  10. Marcos 5:36
  11. Paulo Coelho, O alquimista (Rio de Janeiro: Rocco, 1988), 79. 
  12. Lucas 8:41; ver Marcos 5:22
  13. Marcos 5:22-23; ver Lucas 8:41.  
  14. Marcos 5:25; ver Lucas 8:43
  15. Marcos 5:35; ver Lucas 8:49
  16. Marcos 5:36; ver Lucas 8:50
  17. Ver “6 a 12 de março: Mateus 9–10; Marcos 5; Lucas 9”, Vem, e Segue-Me — Estudo Pessoal e Familiar: Novo Testamento 2023 (Salt Lake City: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2022), 84–85. 
  18. Jeffrey R. Holland, “Não temam, creiam somente”, Liahona, maio de 2022. 
  19. Ver Doutrina e Convênios 93:24
  20. Doutrina e Convênios 121:1
  21. Doutrina e Convênios 122:9
  22. Dieter F. Uchtdorf, “Receber com Alegria o Messias Inesperado”, discurso de devocional na BYU, 15 de abril de 2025; grifo no original. 

23. Dieter F. Uchtdorf, “O Perfeito Amor Lança Fora o Temor”, A Liahona, maio de 2017; citando Isaías 54:17.

Sherami L. Jara

Sherami L. Jara, vice-diretora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Brigham Young e diretora do Centro de Orientação em Artes Liberais e Carreiras, proferiu este discurso no devocional do dia 15 de julho de 2025.