Devocional

Esperar no Senhor: O antídoto para a incerteza

Professora da Escola de Vida Familiar da BYU

4 de abril de 2017

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[A incerteza] inclui perguntas, dúvidas, ambiguidade e a descoberta de que pessoas (ou coisas) não são exatamente o que esperávamos. Em essência, a incerteza é um reflexo da lacuna entre nosso desejo pelo ideal e nossa experiência da realidade.


Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu

Sou muito grata pela oportunidade que tenho de falar a vocês hoje. Gostaria de começar com uma escritura em Eclesiastes 9:11:

Voltei-me, e vi debaixo do sol que não é dos ligeiros a carreira, nem dos valentes a peleja, nem tampouco dos sábios o pão, nem tampouco dos prudentes as riquezas, nem tampouco dos que têm discernimento o favor, mas que o tempo e o acaso lhes sucedem a todos. [ênfase adicionada]

Pondero sobre essa escritura toda vez que tenho uma conversa com alguém que não entrou no programa de pós-graduação para o qual se candidatou, que não sabe qual emprego deve escolher, que voltou mais cedo da missão ou que teve outras experiências inesperadas. Ao ouvir suas histórias, minha mente se volta a essa escritura e à realidade de que “o tempo e o acaso sucedem a todos [nós]”.

Hoje eu gostaria de explorar essa escritura com vocês, mas sugiro que outra maneira de falar sobre “o tempo e o acaso” é usar a palavra incerteza.

A incerteza como uma experiência humana essencial

Embora as fontes de sua incerteza provavelmente sejam diferentes das minhas, acredito que essa escritura em Eclesiastes fale a verdade. Ninguém está imune à incerteza ou à luta, ao questionamento, ao sofrimento e à dor que podem acompanhá-la.

A incerteza tem muitas faces. Ela inclui perguntas, dúvidas, ambiguidade e a descoberta de que pessoas (ou coisas) não são exatamente o que esperávamos. Em essência, a incerteza é um reflexo da lacuna entre nosso desejo pelo ideal e nossa experiência da realidade. O ideal representa como achamos que as coisas devem ou deveriam ser; a realidade é como as coisas realmente são. Embora vivamos nossas vidas no mundo real, nossos sonhos e metas são muitas vezes refletidos em ideais. Quando nos deparamos com “uma lacuna entre o ideal e o real”, 1 experimentamos a incerteza.

Em algumas de minhas pesquisas, estudei essa lacuna para as mulheres que estavam em transição para a maternidade. Meus colegas e eu concentramos nossa atenção no que as novas mães achavam que seriam suas situações ideais de trabalho versus quais eram suas situações reais de trabalho. Definimos as situações de trabalho de forma ampla, incluindo oportunidades de ficar em casa, de combinar trabalho e família, ou de combinar escola e família. A maioria das mães da nossa amostra (mais de 70%) vivenciou uma lacuna entre o que acreditavam ser ideal e qual era a sua situação real de trabalho e família.2 Digo isso para exemplificar a afirmação em Eclesiastes de que “o acaso sucede a todos”.

A incerteza nos desafia

Meus colegas e eu também descobrimos que quanto maior essa lacuna, maior a probabilidade de uma mãe enfrentar depressão. Acho que essa descoberta reflete outra coisa sobre incerteza: as lacunas entre nossos ideais e nossas circunstâncias reais nos desafiam. Podemos ter dificuldade em lidar com o momento em que a realidade chega – ou quando as coisas não saem como planejado. 

Cerca de dois anos e meio atrás, depois de muitos anos esperando que mais um filho viesse para nossa família, meu marido e eu descobrimos que eu estava grávida. Até nossos filhos ansiavam pela chegada desse bebê. Em nossa oração familiar, eles sempre pediam por um novo irmãozinho ou irmãzinha, e um deles me disse que tinha sonhado com um novo bebê chegando à nossa família. Por causa de suas orações, imediatamente contamos a eles sobre a gravidez, acreditando que isso fortaleceria sua fé e seu testemunho.

Inesperadamente, com cerca de dez semanas de gravidez, perdemos o bebê. A gravidez parecia um presente milagroso depois de tantos anos de espera; perder aquele bebê foi como se Deus estivesse tirando o presente que havia nos dado.

A perda me deixou com muitas perguntas sem resposta e muita incerteza. A perda não era algo novo para mim, mas, de alguma forma, essa me abalou profundamente. Sinceramente, eu não sabia se conseguiria voltar a ter esperança de outro filho; não sabia se conseguiria confiar em Deus da mesma forma que antes. Eu senti que, de alguma forma, eu tinha falhado com Deus – ou que talvez Ele tivesse falhado comigo. Esse foi um tempo de incerteza que refletia uma lacuna na minha própria vida entre o ideal (um corpo fértil, uma gravidez saudável e um bebê saudável) e o real (infertilidade e um aborto espontâneo).

A incerteza pode ser dolorosa.

Se a incerteza é inevitável e se pode ser tão desafiadora, o que devemos fazer a respeito? O élder Robert D. Hales ensinou:

Ao fazermos essas perguntas, percebemos que o propósito de nossa vida na Terra é crescer, desenvolver e fortalecer-nos por meio de nossas próprias experiências. Como fazemos isso? As escrituras nos dão uma resposta em uma frase simples: “esperamos no Senhor” (Salmos 37:9).3

Gostaria de passar o restante deste discurso falando com vocês sobre como podemos colocar em prática a visão do élder Hales em nossa própria vida, esperando no Senhor em momentos de incerteza.

Um estudo sobre a espera: Quatro princípios

Uma das mais belas escrituras sobre esperar no Senhor se encontra em Isaías 40. Ouçam estas promessas:

Porventura não sabes, porventura não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos confins da terra, nem se cansa nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento.

Dá força ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor.

Os jovens se cansarão e se fatigarão, e os moços certamente cairão.

Mas os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não desfalecerão.4

Como o Senhor “não se cansa nem se fatiga”, Ele será a fonte de nossa força. Observem que Isaías não disse que vocês encontrarão o Senhor imediatamente ou que Ele responderá a todas as suas perguntas agora. Ele prometeu, no entanto, que, ao esperar no Senhor, vocês terão a capacidade de suportar as incertezas da vida.

Ao recorrer a escrituras como esta em busca de respostas e refletir sobre minhas próprias experiências com a incerteza, descobri quatro princípios básicos que nos ajudam a esperar no Senhor. Acredito que essa espera seja o antídoto para a incerteza.

Primeiro, esperar inclui buscar ativamente a Deus. E, ao buscá-Lo, precisamos confiar que O encontraremos.

Segundo, esperar inclui tentar compreender o plano de Deus para nós.

Terceiro, enquanto esperamos, podemos escolher a fé e a esperança.

Quarto, ao enfrentarmos as lutas desse período de espera, podemos encontrar alento no amor de Deus por nós.

Primeiro princípio: Devemos buscar ativamente a Deus para encontrá-Lo

Primeiro, devemos buscar ativamente a Deus. Ao buscá-Lo, precisamos confiar que O encontraremos. Aqui estão duas escrituras que formam o alicerce desse princípio.

A primeira encontra-se em Isaías 8:17: “E esperarei o Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei.”

A segunda encontra-se em Jeremias 29:13: “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.”

Se pudéssemos conversar uns com os outros agora, gostaria de ouvir suas histórias sobre ocasiões em que sentiram que o Senhor estava Se escondendo e tiveram que procurá-Lo, ou ocasiões em que sentiram que O buscaram de todo o coração. Normalmente falamos sobre buscar com os olhos, então fico tocada com o conceito de buscar com o coração.

Como não podemos ter essa conversa aqui, vou compartilhar uma das minhas histórias com vocês. Meu aborto espontâneo não foi minha primeira experiência com a incerteza. Uma das minhas primeiras grandes lutas com a incerteza começou quando eu tinha vinte e poucos anos. Meu marido, Chris, e eu éramos recém-casados e esperávamos ter filhos. Com o passar dos meses e dos anos, descobrimos que não seria fácil engravidar. Então esperamos. Na espera, enchemos nossas vidas com estudos de pós-graduação, serviço na Igreja e amizades. Tínhamos uma vida boa. Mas nossa luta contra a infertilidade foi profundamente dolorosa para mim. Havia muita incerteza nessa espera. Será que algum dia descobriríamos por que não podíamos ter filhos? Será que um dia conseguiríamos receber uma criança em nossa família? O que eu deveria fazer enquanto esperava? Trabalhar? Fazer um doutorado?

Essa incerteza e essa espera me levaram a voltar-me constantemente a Deus em busca de respostas. Eu estava descobrindo o primeiro princípio de esperar no Senhor: Eu precisei buscar ativamente a Deus para encontrá-Lo. Para buscá-Lo, eu estudava as escrituras. Estudava os ensinamentos dos profetas. Participava das reuniões da ala. Ia ao templo. Magnificava meu chamado. Orava fervorosamente. Mesmo assim, as respostas não vinham rapidamente.

Lembro-me de estar na minha ala em Newark, Delaware, em um domingo em que senti que os céus estavam especialmente silenciosos. (Lembram daquela escritura em que Isaías fala sobre o Senhor esconder Seu rosto?) Um dos hinos cantados pela congregação naquele domingo foi “Aonde Mandares Irei.” Cantamos estas palavras:

Mas, quando o Cristo me chamar
A sendas que não trilhei,
Eu proclamarei com amor, ó Senhor:
Aonde mandares irei.5

Essas palavras representavam bem a minha incerteza — essas “sendas que não trilhei” — e, por meio das outras frases do hino, comecei a receber uma resposta às minhas orações. Em meio à minha incerteza e desejo de saber, eu tive que colocar a minha mão na mão do Senhor. Eu tive que deixá-Lo me guiar.

Enquanto continuávamos cantando, senti uma impressão nítida de que o Senhor queria que eu seguisse adiante em meio à escuridão e à incerteza — em uma jornada desconhecida. Senti que a jornada incluiria mais estudos de pós-graduação, mas também senti que não receberia imediatamente as respostas que buscava sobre ter filhos. Em vez disso, eu precisava continuar seguindo em frente. Continuar esperando e buscando. Naquela escuridão, eu não podia buscar o Senhor apenas com os olhos. Eu precisava buscá-Lo com o coração. Que experiência profundamente humilde é esperar no Senhor. Embora eu não tivesse recebido todas as respostas que buscava, eu estava encontrando o Senhor, e Ele estava me ajudando a sentir Sua presença em minha vida.

Então continuei seguindo em frente. Mais tarde, naquele mesmo ano letivo, participei da reunião geral das Moças. Muitos dos discursos daquela noite se concentraram na revelação pessoal. O discurso de encerramento foi proferido pelo presidente Gordon B. Hinckley. Esse foi um discurso particularmente marcante para mim. O presidente Hinckley ensinou:

Encontrem um propósito para a sua vida. Escolham as coisas que gostariam de fazer e eduquem-se para serem eficazes em sua busca. Atualmente, uma jovem precisa estudar. Ela precisa ter meios de sustentar-se caso venha deparar-se com uma situação em que isso seja necessário.

Estudem suas opções. Ore ao Senhor sinceramente pedindo orientação. Então siga seu caminho com determinação.

Todas as oportunidades de desenvolvimento estão abertas agora às mulheres. Não há nada que não possam fazer se estiverem decididas. Podem incluir em seu sonho o tipo de mulher que querem tornar-se, o retrato de uma pessoa qualificada para servir a sociedade e fazer uma contribuição significativa para o mundo de que fará parte.6

Nessa mensagem, o Senhor me ofereceu uma visão, por meio de Seu profeta, do tipo de futuro que poderia ser meu. Mais uma vez, não recebi nenhuma resposta específica para a minha pergunta persistente sobre quando – ou se – eu teria filhos. Minha incerteza não foi resolvida, nem a minha espera havia terminado. Mas fui lembrada de que “todas as oportunidades de desenvolvimento” estavam abertas para mim. Independentemente de eu me tornar mãe ou não, haveria uma obra para eu realizar. Senti uma confirmação de que continuar meus estudos poderia me ajudar a me tornar “uma pessoa qualificada para servir a sociedade e fazer uma contribuição significativa para o mundo” ao meu redor. O presidente Hinckley estava reforçando a mesma mensagem que eu havia recebido alguns meses antes, enquanto cantava aquele hino com os membros da minha ala.

Com fé, busquem ao Senhor. Coloquem sua mão na Dele e sigam juntos com Ele nessa jornada desconhecida.

O presidente Dieter F. Uchtdorf expressou isso lindamente: “O Salvador ‘não está longe de cada um de nós’ [Atos 17:27]. Temos a promessa de que, se O buscarmos diligentemente, O encontraremos.”7

Segundo princípio: Esperar inclui tentar compreender o Plano de Deus para nós

O segundo princípio que descobri é que esperar no Senhor inclui tentar compreender o plano de Deus para nós.

Ao ouvir aquele hino e ao ouvir o presidente Hinckley, senti que Deus tinha um plano para mim. Se eu continuasse a buscá-Lo fielmente, as coisas que precisavam ser reveladas a mim seriam reveladas.

Hoje quero compartilhar essa mesma fé com aqueles de vocês que talvez estejam passando por tempos de incerteza. Deus tem um plano para você. Ao buscarem-No, Ele os ajudará a compreender o que esse plano inclui. Mas, ao compartilhar minha fé com vocês, também quero compartilhar algumas outras coisas sobre a frase “Deus tem um plano para você”.

Primeiro, o plano de Deus para você pode ser diferente do ideal que você imaginou. Na verdade, se levarmos aquela escritura em Eclesiastes a sério, provavelmente não corresponderá ao ideal que você imaginou. Mas você pode ter fé de que, junto com o Senhor, você pode criar algo realmente extraordinário.

Alguns de meus alunos neste semestre compartilharam comigo uma postagem de blog intitulada “You’re Not Messing Up God’s Plan for You” [Você não está estragando o plano de Deus para você]. A autora ensinou: “É tentador pensar que Deus tem algum plano mestre com o qual Ele está me medindo, e se eu der um passo em falso, terei perdido minha chance de felicidade para sempre.”8

Eu me identifico com esse medo. Quando a vida não parece corresponder aos ideais que imaginamos, podemos sentir a mesma dificuldade da autora — a preocupação de não estar à altura ou o temor de decepcionar a Deus.

Ela continuou:

Mas sabe de uma coisa? Ao examinar essa mentalidade, aprendi que preciso de uma melhor compreensão de Deus e do que significa o termo “Seu plano para mim”.

Estou aprendendo que Deus é muito menos um ditador divino que exige obediência perfeita a um plano predeterminado, e muito mais um co-criador, que constrói conosco o tipo de vida que desejamos viver.”9

Que distinção fantástica! Deus não é um ditador; ao invés disso, Ele é um co-criador. Seu plano inclui criar uma vida extraordinária conosco.

Parte de compreender o plano de Deus para cada um de nós é ter fé suficiente para entrar em parceria com Ele. Fazemos isso ao fazer e guardar convênios. Quando minha filha mais velha, Elena, foi batizada, tentei ensiná-la sobre como nossos convênios nos conectam com Cristo, compartilhando esta citação do élder William R. Bradford: “Sejam companheiros de Cristo, e Ele se aproximará de vocês e será seu melhor amigo. Não há melhor amigo do que Cristo.”10

Por meio de nossos convênios, estamos ligados a Ele e Ele está ligado a nós. Que amigo melhor poderíamos ter do que Cristo? Juntos, vocês e Ele podem criar uma vida notável.

Segundo, o plano de Deus para você não vai corresponder aos planos que Deus tem para os outros. Você precisa descobrir o que o Senhor quer para você, pessoalmente. O presidente Uchtdorf ensinou:

Podemos compartilhar o mesmo conjunto de genes, mas não somos iguais uns aos outros. Temos um espírito singular. Somos influenciados por nossas experiências de maneiras diferentes. E como resultado, cada um de nós é diferente. 

Em vez de tentar forçar todos a adequar-se a um molde que criamos, podemos comemorar essas diferenças e valorizá-las por acrescentarem valor e surpresas constantes a nossa vida.11

É preciso coragem e fé para reconhecer e celebrar a beleza das diferenças, abrir espaço para que cada pessoa encontre o próprio caminho e confiar que Deus a guiará — assim como vocês O veem guiando tantos ao redor. Isso pode incluir celebrar o casamento de uma amiga mesmo quando você ainda não tem perspectivas de um relacionamento. Pode incluir ficar feliz por alguém que entrou na pós-graduação dos sonhos, mesmo que você não tenha sido aceito. Eu sei como é se sentir esquecido ou inseguro quando os outros recebem as coisas que você esperava, mas se você puder aprender a celebrar e apreciar as diferenças, eu acredito que seu coração estará mais aberto ao que Deus tem reservado para você.

Na Conferência de Mulheres da BYU, em 2015, o élder M. Russell Ballard suplicou:

Cada uma de vocês precisa descobrir o que o Senhor quer para vocês individualmente, com as escolhas que estão por vir.

Assim que conhecemos a vontade do Senhor, podemos então seguir em frente com fé para realizar nossos propósitos individuais. Uma irmã pode ser inspirada a dar continuidade a seus estudos e a frequentar a faculdade de medicina, permitindo que ela tenha um impacto significativo na vida de seus pacientes e no avanço da pesquisa médica. Para outra irmã, a inspiração pode levá-la a desistir de uma bolsa de estudos numa instituição de prestígio e, em vez disso, dar início a uma família bem antes do que é comum em sua geração, permitindo que ela tenha um impacto significativo e eterno na vida de seus filhos agora.

Então ele fez esta pergunta: “Será possível que duas mulheres igualmente fiéis recebam respostas tão diferentes para as mesmas perguntas básicas?” Ele respondeu enfaticamente:

Com certeza! O que é certo para uma mulher pode não ser certo para outra. Por isso é tão importante não questionar as escolhas uns dos outros ou a inspiração por trás delas.12

O que é certo para uma pessoa nem sempre será certo para outra. Com esse entendimento, podemos encorajar uns aos outros, celebrar e apreciar nossas diferenças e seguir em frente em parceria com o Senhor. Não precisamos julgar ou criticar. Nosso incentivo e amor em meio a nossas diferenças aumentarão nossa capacidade de ­celebrar juntos. Isso também aumentará nossa capacidade individual de entender o plano de Deus para nós à medida que criamos esse plano com Ele.

Terceiro princípio: Enquanto esperamos, podemos escolher a fé e a esperança

Esperar, buscar e compreender o plano de Deus para todos nós requer uma tremenda quantidade de fé e esperança. Mas como mantemos a fé e a esperança quando a incerteza tem uma capacidade tão forte de nos fazer duvidar e temer?

Essa pergunta leva ao meu terceiro princípio: Ao esperarmos no Senhor, podemos escolher a fé e a esperança.

Para mim, o oposto da fé e da esperança é o medo. Quando digo que podemos escolher a fé e a esperança, também estou sugerindo que podemos escolher a fé e a esperança em vez do medo.

Alguns de vocês podem ser como eu: um pouco ansiosos e um pouco receosos de tentar coisas novas. Quando sentimos ansiedade ou medo, parece algo natural — não uma escolha. Em um devocional de 2008, o professor Gregory Clark refletiu sobre essa tensão entre fé e medo. Ele explicou que, ao acordarmos todos os dias, podemos escolher viver com fé ou com medo. Quando escolhemos a fé, o medo perde força. Mas quando escolhemos o medo, a esperança e a fé são praticamente impossíveis.

O professor Clark explicou:

Quando vivo com medo, percebo que mudar — e mudar para melhor, pelo menos — se torna quase impossível. É importante aprender a viver com fé e não com medo, porque o processo de mudar para melhor está no alicerce do plano do Pai para nós.

Ele então perguntou: “Qual é a fonte do medo?” Gostei muito da resposta dele:

Acho que está enraizado na suposição. . . Que eu devo resolver todos os meus problemas e enfrentar todos os meus desafios sozinho, usando meus próprios recursos. Isso é assustador, porque no fundo do meu coração eu sei como esses recursos são limitados. . . . Sabendo que não sou capaz de mudar a mim mesmo ou às minhas circunstâncias para melhor, fico paralisado pelo medo.13

O medo vem da falsa crença de que estamos sozinhos.

Qual é, então, a fonte da fé e da esperança? O professor Clark disse: “A fé se baseia em nossa memória de testemunhos e bênçãos divinas recebidas no passado e em nossa esperança em promessas divinas para o futuro.”14

Quando nos lembramos de experiências espirituais ou bênçãos que o Senhor nos deu, é mais fácil esperar por essas mesmas coisas no futuro. Elas nos lembram que não estamos sozinhos. Esse otimismo na divindade de Cristo e essa crença de que continuaremos a ser abençoados são a própria essência da esperança e da fé. Algo que me ajuda a lembrar disso é registrar as experiências espirituais e as bênçãos que recebi em minha vida. Nos dias mais difíceis, gosto de abrir meu diário e relembrar o quanto o Senhor me ama e me ampara.

Quando começo a sentir medo, reler meu diário me lembra que não teria sido melhor perder a esperança, parar de tentar ter filhos, desistir do doutorado ou deixar de buscar a Deus mesmo em meio à dor e aos desafios da jornada. Escolher a fé e praticar a esperança me capacitaram a agir de acordo com a vontade de Deus – o que inclui abraçar a incerteza e suportar além do que eu pensava que poderia suportar.15

Quarto princípio: Se nos sentirmos perdidos enquanto esperamos, podemos encontrar alento no amor de Deus por nós

Depois do meu aborto espontâneo, descobri uma pintura de Brian Kershisnik. Seu título é She Will Find What Is Lost [Ela encontrará o que está perdido]. Essa pintura passou a representar o meu quarto princípio: Se nos sentirmos perdidos enquanto esperamos, podemos encontrar alento no amor de Deus por nós.

Às vezes, em meio à espera, e apesar de nossos melhores esforços, podemos nos sentir perdidos. Contei a vocês sobre minhas experiências com infertilidade, sobre as perguntas que surgiram a respeito do meu propósito na vida e sobre minha luta após um dos abortos espontâneos. O que eu não contei é que depois daquele aborto espontâneo, além de perder um filho que eu tanto desejava, comecei a me perder. Senti-me distante de Deus; Eu O buscava, mas parecia que não conseguia encontrá-Lo. Lutei para encontrar um sentido, um rumo, uma razão para continuar. Foi preciso muito tempo de espera e esforço para escolher a esperança, mas eu me esforcei para isso.

Cerca de um ano e meio após aquele aborto espontâneo, descobri que estava grávida novamente. Minha ansiedade de perder aquele bebê era enorme. Apesar da empolgação com uma nova gravidez, comecei novamente a me sentir perdida. Um dia, enquanto estava no trabalho, aquela sensação de perda foi intensa. Ajoelhei-me em meu escritório, no Edifício Joseph F. Smith, e orei fervorosamente para que Deus estivesse comigo em minha espera. Foi uma oração cheia de fé e anseio. Com fé, pedi a Deus que estivesse comigo naquele período de espera. Eu realmente desejava que Ele confirmasse para mim que meu bebê seria saudável. Mas, enquanto orava, eu sabia que tinha que orar por outra coisa: Tinha que orar para que Deus estivesse ao meu lado e me ajudasse a enfrentar qualquer dor, tristeza ou perda- independentemente do que acontecesse com este bebê durante a gravidez. Tive que orar por isso porque, embora perder um bebê não fosse o ideal, a possibilidade era real. Foi uma experiência que me fez sentir muito humilde.

Depois daquela oração fervorosa, levantei-me e tentei voltar à minha rotina. Parte da minha rotina naquele dia incluiu caminhar até o Edifício Richards para encontrar minha filha depois de sua aula de dança de salão. Enquanto descia as escadas e entrava no prédio, algo extraordinário aconteceu. Parecia que o tempo havia parado. Senti um formigamento da cabeça até a ponta dos pés. Era realmente elétrico. Em minha mente e em meu coração, eu sabia que Deus estava plenamente ciente de mim. Ele entendeu o quanto me sentia perdida e com medo. Ele estava comigo naquele momento e continuaria a estar comigo por todo o tempo que fosse necessário. Esse foi um presente raro, mas necessário para mim naquele momento.

O título da pintura de Brian Kershisnik voltou à minha mente novamente: She Will Find What Is Lost [Ela encontrará o que está perdido]. Deus estava me ajudando a encontrar o que estava perdido. Eu não estava sozinha.

Infelizmente, tive outro aborto espontâneo. Mas, dessa vez, não perdi aquele testemunho vigoroso e sustentador do amor de Deus por mim. Quando nos sentimos perdidos, podemos encontrar alento no amor de Deus por nós.

Anteriormente, sugeri que um princípio fundamental da espera é que temos que buscar o Senhor para encontrá-Lo. Minha experiência me ensinou que há um paradoxo interessante em meio a essa verdade: Às vezes, quando estamos perdidos, Ele também nos encontra.

Esse paradoxo pode ser melhor refletido na parábola da ovelha perdida. 16 O Presidente Uchtdorf ensinou essa parábola. Ele disse:

Será possível que a mensagem do Salvador seja a de que Deus está plenamente ciente dos que se perderam — e de que Ele vai encontrá-los, vai estender-lhes a mão e resgatá-los?

Nosso Salvador, o Bom Pastor

Ele sabe quando você está perdido e sabe quem você é. Ele conhece seu sofrimento. Suas silenciosas súplicas. Seus temores. Suas lágrimas.

Vocês são filhos [e filhas] Dele. E. . . Ele ama Seus filhos.17

Em minha espera

Para concluir, gostaria de compartilhar mais uma mensagem sobre incerteza. A irmã Neill F. Marriott ensinou:

As escrituras dizem: “Buscai diligentemente, orai sempre e sede crentes; e todas as coisas contribuirão para o vosso bem” (D&C 90:24). Isso não significa que todas as coisas estão bem, mas para os mansos e fiéis, as coisas — tanto positivas quanto negativas — trabalham juntas para o bem, e o tempo é do Senhor. Esperamos Nele, às vezes como Jó em seu sofrimento, sabendo que Deus “faz a chaga, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam” (Jó 5:18). Um coração manso aceita o julgamento e a espera pelo tempo de cura e plenitude que virá.18

Ainda estou esperando. Em minha espera, busquei a Deus e O encontrei. Seu plano para mim está se desdobrando à medida que eu tomo Sua mão e aceito o convite para me tornar uma co-criadora com Ele. Estou tentando escolher a esperança e a fé. Às vezes, quando estou perdida, Ele me encontra.

Apesar das incertezas da vida, oro para que vocês também O busquem, que se esforcem para entender Seu plano para vocês e que escolham a fé e a esperança. Ao fazerem essas coisas, espero que recebam alento celestial. Ele os conhece. Ele os ama. Testifico que seguir esses princípios me ajudou a enfrentar a incerteza. Eu acredito que eles podem ajudá-los também. Em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém.

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Notas

  1. Bruce C. Hafen, “O amor não é cego: Reflexões para os alunos universitários sobre fé e ambiguidade”, discurso de devocional BYU, 9 de janeiro de 1979; ver também Bruce C. Hafen, “O Amor Não é Cego: Reflexões para os alunos universitários sobre fé e ambiguidade“, Devocional da BYU, 9 de janeiro de 1979.
  2. Ver Erin Kramer Holmes, Jenet Jacob Erickson e E. Jeffrey Hill, “Doing What She Think Is Best: Maternal Psychological Wellbeing and Attaining Desired Work Situations” [Fazendo o que ela acredita ser o melhor: Bem-estar psicológico materno e a conquista de situações de trabalho desejadas], Human Relations 65, nº 4 (abril de 2012): 501-22.
  3. Robert D. Hales, “Esperar no Senhor: Seja feita a Tua Vontade, A Liahona, novembro de 2011.
  4. Isaías 40:28–31
  5. Aonde Mandares Irei“, Hinos, no 167.
  6. Gordon B. Hinckley, “Como posso me tornar a mulher que sempre quis ser?“, A Liahona, maio de 2001.
  7. Dieter F. Uchtdorf, “O que é a verdade?” Devocional do SEI, 13 de janeiro de 2013.
  8. Ariel Szuch, “You’re Not Messing Up God’s Plan for You” [Você não está estragando o plano de Deus para você], LDS.org blog, 22 de fevereiro de 2017,
  9. Szuch, “You’re Not Messing Up God’s Plan for You” [Você não está estragando o plano de Deus para você]
  10. William R. Bradford, “Are We Following Christ’s Pattern?” [Estamos seguindo o padrão de Cristo?] A Liahona, maio de 1976.
  11. Dieter F. Uchtdorf, “Em louvor dos que salvam“, A Liahona, maio de 2016.
  12. M. Russell Ballard, “Women of Dedication, Faith, Determination, and Action” [Mulheres de dedicação, fé, determinação e ação], discurso proferido na Conferência das Mulheres da BYU, 1 de maio de 2015.
  13. Gregory Clark, “Some Lessons on Faith and Fear“[Algumas Lições sobre Fé e Medo], Devocional da BYU, 6 de maio de 2008.
  14. Clark, “Some Lessons on Faith and Fear” [Algumas Lições sobre Fé e Medo]
  15. Ver Dieter F. Uchtdorf, “A última porta do quarto andar“, A Liahona, novembro de 2016.
  16. Ver Lucas 15:3,7.
  17. Dieter F. Uchtdorf, “Ele vai colocar você sobre os ombros e carregá-lo para casa“, A Liahona, maio de 2016.
  18. Neill F. Marriott, “Entregar Nosso Coração a Deus“, A Liahona, novembro de 2015; ênfase no original.
Esperar no Senhor: O antídoto para a incerteza

Erin Kramer Holmes, diretora associada da Escola de Vida Familiar da BYU, proferiu este discurso no devocional do dia 4 de abril de 2017.