Devocional

Esqueça-se de si mesmo

do Quórum dos Doze Apóstolos

6 de março de 1977

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De modo geral, as pessoas mais miseráveis que conheço são aquelas obcecadas por si mesmas; as pessoas mais felizes que conheço são aquelas que se perdem a serviço dos outros.


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Boa noite, irmãos e irmãs. Que visão maravilhosa vocês formam daqui — uma tremenda multidão, realmente notável. Suponho que a maioria de vocês esteja jejuando hoje. Suponho que, neste campus, pelo menos vinte mil pessoas estejam jejuando e unindo o jejum a fervorosas orações. Acho que esse é um fenômeno notável. Presumo que a maioria de vocês tenha jejuado e orado com um propósito — para encontrar respostas a problemas pessoais complexos, pelas necessidades de outras pessoas ou para que a chuva caia sobre estas terras áridas do Oeste. Só espero que ninguém tenha orado por neve com a intenção de poder esquiar no domingo.

Creio que o Senhor ouvirá nossas súplicas fervorosas, desde que combinemos jejum e oração com atos de bondade em nossas vidas. Para a antiga Israel, Ele fez uma promessa notável com estas palavras:

Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes,

Então eu vos darei as vossas chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua produção, e a árvore do campo dará o seu fruto;

E a debulha se vos chegará até a vindima, e a vindima se chegará até a semeadura; e comereis o vosso pão a fartar, e habitareis seguros na vossa terra.

E para vós olharei, e vos farei frutificar, e vos multiplicarei, e confirmarei o meu convênio convosco.

E andarei no meio de vós, e eu serei vosso Deus, e vós sereis meu povo. [Levítico 26:3–5, 9, 12]

Para mim, essa é uma promessa maravilhosa, e creio que o Senhor cumprirá Sua palavra nestes dias – como prometeu antigamente – se vivermos como devemos viver.

Na manhã do domingo passado, estive na casa de um presidente de estaca em uma pequena cidade de Idaho. Antes da oração matinal, a família leu alguns versículos das escrituras. Entre eles, estavam algumas das palavras de Jesus registradas em João 12:24: “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; porém, se morrer, dá muito fruto”. Sem dúvida, Ele referia-Se a Sua morte iminente, declarando que, se não morresse, Sua missão na vida seria sem propósito. Mas vejo nisso um significado adicional. Parece-me, também, que o Senhor diz a cada um de nós que, se não nos perdermos no serviço ao próximo, nossa vida não terá grande propósito, pois prossegue assim: “Quem ama sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida guardá-la-á para a vida eterna” (João 12:25). Ou então, como registrado em Lucas: “Qualquer que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á; e qualquer que a perder, salvá-la-á” (Lucas 17:33). Em outras palavras, quem vive só para si mesmo murcha e fenece, ao passo que aquele que se esquece de si mesmo a serviço do próximo cresce e floresce nesta vida e na eternidade.

Na conferência de estaca daquela manhã, o presidente que me hospedara foi desobrigado após 13 anos de serviços fiéis. Houve uma demonstração geral de afeto e apreço por ele, não devido a sua riqueza, sua posição na comunidade empresarial, mas por causa de seu grande serviço e de sua abnegação. Sem pensar em si, viajara dezenas de milhares de quilômetros em todas as condições climáticas. Ele despendeu literalmente milhares de horas em prol das outras pessoas. Negligenciara seus negócios pessoais para socorrer os que dele precisavam. E assim ele frutificou e tornou-se grande aos olhos daqueles a quem servira.

Um novo presidente foi apoiado naquela manhã e havia muitos que estavam orgulhosos e felizes por causa dele; mas o mais orgulhoso e feliz era um homenzinho que se sentava à mesa do secretário da estaca, um carteiro rural por profissão. Foi ele quem, há doze anos, com um trabalho tranquilo e paciente, convenceu seu vizinho totalmente inativo a voltar à Igreja. Teria sido muito mais fácil ter deixado aquele vizinho indiferente seguir seu próprio caminho, e teria sido muito mais fácil para o carteiro ter vivido sua própria vida tranquila. Mas, deixara de lado seus interesses pessoais em prol do outro; e esse outro, no domingo passado, tornou-se um honrado e respeitado líder de uma grande estaca de Sião. Enquanto as pessoas apoiavam o novo presidente, o homenzinho sentado à mesa do secretário chorou de gratidão. Por ter vivido além de si mesmo, ele havia ajudado a despertar o homem que, naquela manhã, foi sustentado como presidente da Estaca Jerome de Sião. Certa vez, Phillips Brooks fez esta observação significativa: “Enquanto a maioria caminha com cuidado para túmulos esquecidos, alguns poucos se esquecem de si mesmos — e assim tornam-se imortais.”

Recentemente, visitamos um velho amigo no sul da Índia. Nós o conhecemos há doze anos, quando fomos a Nova Deli em resposta a seu pedido de que alguém fosse batizá-lo. Dez anos antes, ele havia encontrado um folheto – como ou por meio de quem o folheto tinha chegado naquela parte do mundo, ele não sabia. Ele escreveu uma carta para o escritório da Igreja em Salt Lake City. Enviaram-lhe outras publicações, que ele leu atentamente. Não o batizamos quando o encontramos pela primeira vez, pois sentimos que ainda não estava preparado. Contudo, providenciamos para que fosse instruído no evangelho, e ele foi batizado alguns meses depois.

Ele trabalha como contador em uma fábrica de cimento naquela região. Seu salário é modesto – menor do que o salário que alguns de vocês recebem varrendo os corredores do campus. Sua casa é pequena; caberia facilmente na sala de estar da maioria das casas onde vocês cresceram. Mas seu coração é grande e transborda amor. Por causa do grande amor pelas pessoas que aprendeu no evangelho de Jesus Cristo, ele construiu com suas próprias mãos uma escola em um terreno que comprou com suas economias. É um edifício simples e modesto; mas lá, cerca de quatrocentas crianças pobres estão sendo conduzidas das trevas do analfabetismo para a luz do aprendizado. O impacto que isso terá em suas vidas é quase incalculável. E, perto da escola, há outro pequeno edifício que ele também construiu com suas próprias mãos. É um orfanato com quarenta e cinco criancinhas, bebês pequeninos e crianças de até cinco anos de idade que ninguém quis, pois foram abandonados pelos pais. Ao ver aquelas crianças deitadas sobre tábuas (pois os pais não tinham condições de comprar camas ou colchões), lágrimas brotaram nos olhos da minha esposa. Mas um homem de grande coração e poucos recursos viu aqueles pequenos bebês desnutridos como filhos de Deus e sentiu uma grande e poderosa responsabilidade de fazer algo para ajudá-los.

Mais tarde, por causa de seus esforços, cinco pequenos ramos da Igreja foram organizados naqueles vilarejos rurais humildes do sul da Índia. Lá, os membros também construíram três ou quatro capelas simples, limpas e bem cuidadas. Sobre a porta de cada uma delas há uma placa, em inglês e tâmil, que diz: “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”. Os pisos são de concreto e não há bancos. Para selar o concreto, espalhou-se uma mistura de esterco de vaca e água, que foi deixada secar e depois polida. Isso criou um piso limpo, onde as pessoas se sentavam enquanto se reuniam, compartilhavam testemunhos e participavam do sacramento da Ceia do Senhor.

Hoje, há cerca de duzentos membros da Igreja entre os milhões da Índia. De alguma forma, algum dia, de acordo com o plano do Senhor, chegará o tempo em que o evangelho será pregado naquela terra com poder, e a colheita se seguirá. E alguém vai escrever a história da Igreja na Índia. Essa história será incompleta, a menos que haja um capítulo sobre o meu amigo, Paul Thiruthuvadoss, um homem que se perdeu no serviço aos outros.

Nessa longa e recente viagem ao redor do mundo, encontramos outro amigo que já havia sido professor da Universidade Brigham Young. Agora seus filhos estão crescidos; e ele e sua esposa decidiram que, em vez de se aposentarem para uma vida de ociosidade como poderiam ter feito, e como milhões de outros neste mundo estão fazendo, eles encontrariam um lugar no mundo onde pudessem ajudar alguns dos filhos de nosso Pai, ensinando-lhes as verdades salvadoras do evangelho. Eles encontraram um lugar assim. Eles venderam sua bela casa em Utah; eles venderam seu carro de luxo; eles deixaram amigos e parentes e partiram para uma terra distante e menos confortável. Ao “lançarem o pão sobre as águas”, o Senhor deu-lhes oportunidades de ensinar, elevar e ajudar. Ninguém pode prever as consequências desse pioneirismo. Sempre que penso nesse casal, que deixou o conforto do lar e o convívio dos amigos em uma idade em que a maioria das pessoas quer descansar, penso nas palavras do Senhor: “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por causa do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna (Mateus 19:29).

De modo geral, as pessoas mais miseráveis que conheço são aquelas obcecadas por si mesmas; as pessoas mais felizes que conheço são aquelas que se perdem a serviço dos outros. Acho que há uma grande quantidade desse tipo de miséria entre os estudantes. Já ouvi muitas queixas — como as usuais da juventude, principalmente a respeito das pressões escolares — como se fosse um fardo e não uma oportunidade de poder adquirir conhecimentos seculares —, queixas dos alojamentos e da alimentação. Outro dia, peguei um livro de poesias americanas em minha estante e gostaria de ler para vocês as palavras de Lucinda Matlock, do livro Spoon River: Uma antologia de Edgar Lee Masters:

Fui aos bailes de Chandlerville,
E joguei cartas em Winchester.
Certa vez trocamos de parceiros
Voltando para casa sob o luar de junho.
Foi quando conheci Davis.
Casamos e vivemos por setenta anos juntos,
Com alegria, labutando e criando doze filhos,
Oito dos quais perdemos
Antes que eu chegasse aos sessenta.
Fiei, teci, cuidei de casa e dos doentes,
Fiz o jardim, e nos feriados
Andei pelos campos onde canta a cotovia,
E ao largo de Spoon River, colhi tantas conchinhas,
E muito mais flores e ervas medicinais,
Cantando para os vales, saudando as colinas verdejantes.
Aos noventa e seis, tinha vivido o bastante, simples assim,
E passei a um doce descanso.
Que é isto que ouço, de mágoa e cansaço,
Raiva, desgosto e esperanças perdidas?
Degenerados filhos e filhas,
A vida é forte demais para vocês —
É preciso uma vida para amar a Vida”
[O Livro da Poesia Americana, p. 378]

Se as pressões escolares forem demasiadas, se estiverem descontentes com o alojamento e a comida, então eu vou sugerir uma cura para seus problemas. Deixem seus livros de lado por algumas horas, saiam dos seus quartos e vão visitar uma pessoa idosa e solitária; há muitos nessa situação aqui neste vale. Ou visitem aqueles que estão doentes e desanimados; há centenas desse tipo aqui, inclusive neste campus, que precisam do ânimo que vocês podem oferecer. Se vocês estão se queixando da vida, é porque estão pensando somente em si mesmos. Durante muitos anos, havia numa sapataria, onde eu costumava mandar consertar sapatos, um cartaz afixado. Ele dizia: “Reclamei da falta de sapatos até que vi um homem sem pés”. O melhor remédio para a autopiedade é nos dedicarmos a serviço do próximo.

Algumas moças neste campus se preocupam tanto com a ideia de se casar que chegam a adoecer. O casamento é algo bom e desejável; é natural esperar por ele e trabalhar para que aconteça. Mas, preocupar-se demais não vai fazer com que isso aconteça. Na verdade, pode ter o efeito oposto, pois nada enfraquece tanto uma personalidade quanto uma perspectiva negativa. Talvez alguns de vocês nunca se casem; mas não se esqueçam de que há outras coisas na vida, outras atividades a serem seguidas. Gostaria de sugerir que vocês leiam o artigo da Dra. Anne G. Osborn publicado na edição de março de 1977 da revista Ensign. Ela é uma professora altamente qualificada na Faculdade de Medicina da Universidade de Utah, uma especialista respeitada em sua área e membro da Junta Geral da Escola Dominical. Eu gosto do título de seu pequeno artigo. Ela o intitulou de: “O êxtase da agonia: Como ser solteira e sã ao mesmo tempo.” Falando abertamente sobre seus 33 anos de idade, ela menciona o casamento como uma bênção prometida, mas logo deixa claro que há uma vida estimulante e produtiva para as mulheres solteiras que se dedicam a servir às necessidades de outras pessoas. Ela diz,

Como membros solteiros da Igreja, podemos nos envolver em recriminação pessoal e autoflagelação, lamentando nosso status de solteiro e vivendo à beira do desespero, ou podemos usar esse período provisório em nossas vidas como um momento de espera ativa e criativa. [Ela continua:] Quando o desânimo pesar muito, olhe ao redor. Eu descobri que uma cura certa para a depressão é perceber que alguém lá fora precisa de mim. Ao abençoar alguém, minhas necessidades e meus problemas são rapidamente consumidos pelo brilho caloroso de saber que iluminei a vida de outra pessoa e que o que fiz é agradável ao Senhor.

[Ela conclui com estas palavras:] Regozijemo-nos, então, com este precioso tesouro chamado tempo, e agradeçamos ao Senhor por essa dádiva especial. Temos tempo para nos tornarmos pessoas interessantes porque nos interessamos pelos outros.

Quero parabenizar aqueles de vocês que são dignos de frequentar o templo e que o fazem. No trabalho realizado na Casa do Senhor encontra-se a própria essência do serviço abnegado. Na minha opinião, um dos milagres de nossos dias é a grande consagração de tempo e esforço por parte de centenas de milhares de pessoas ocupadas – incluindo muitos de vocês, estudantes atarefados – em favor dos mortos. Aqueles que se dedicam a esse serviço sabem que dele surge um sentimento doce e satisfatório. Torna-se literalmente um remédio para curar muitas das aflições de nossas vidas. A partir de tal experiência, percebemos que somente quando servimos aos outros é que realmente servimos ao Senhor.

O Senhor disse: “Em verdade eu digo: Os homens devem ocupar-se zelosamente numa boa causa e fazer muitas coisas de sua livre e espontânea vontade e realizar muita retidão. E então ele acrescenta estas palavras significativas: Pois neles está o poder” [D&C 58:27–28]. O poder está em nós, meus queridos irmãos e irmãs – o poder de fazer coisas significativas por iniciativa própria, se nos engajarmos zelosamente.

Penso em algumas das pessoas que estiveram envolvidas na obra do Senhor em regiões pelas quais eu fui responsável. Um filósofo notável, e eu não me lembro se foi Emerson ou Carlyle (eu estudei sobre os dois no mesmo semestre) disse que “toda grande instituição é apenas a sombra estendida de um grande homem.” Lembrei-me disso ao encontrar alguns coreanos aqui e pensar no progresso da obra na Coreia, onde hoje temos duas missões fortes e uma estaca de Sião consolidada. Tudo isso é a sombra estendida do Dr. Kim e dos dois jovens que lhe ensinaram o evangelho quando ele era estudante na Universidade Cornell: Oliver Wayman e Don C. Wood. Esses dois estudantes despertaram em seu colega coreano o interesse em ler o Livro de Mórmon. O tempo e a atenção que dedicaram a ele não tinham nenhuma relação com seus estudos de pós-graduação, que poderiam facilmente ter consumido cada minuto de seu tempo desperto. Mesmo assim, encontraram tempo para ensinar e aprender. E, quando o doutorando coreano retornou à sua terra natal, levou consigo o amor pelo Livro de Mórmon e pela Igreja cujas reuniões havia frequentado em Ithaca, Nova York. Militares americanos que serviram na Guerra da Coreia também compartilharam o evangelho com alguns de seus companheiros. A presença do Dr. Kim — um homem instruído e respeitado em seu país — tornou-se um ponto de partida para o estabelecimento da Igreja na Coreia, inclusive com o envio de missionários do Japão. Embora o Dr. Kim já tenha falecido, a obra continua viva e esplendorosa, tocando para o bem eterno um número cada vez maior de vidas na “Terra da Calma Matinal.”

Hoje, nas Filipinas, temos mais de vinte mil membros da Igreja. Temos duas missões fortes e uma estaca de Sião; é uma das áreas mais produtivas da obra no mundo todo. Quando a história da Igreja nas Filipinas for devidamente escrita, deverá incluir o nome da irmã Maxine Grimm, que alguns de vocês talvez conheçam — uma jovem de Tooele, Utah, que serviu na Cruz Vermelha durante as campanhas do Pacífico na Segunda Guerra Mundial. Ela se casou com um oficial do exército americano e, após a guerra, o casal se estabeleceu em Manila. A irmã Grimm fez tudo o que pôde para ensinar o evangelho a outras pessoas e implorou que missionários fossem enviados. Seu marido realizou o trabalho jurídico necessário e tomou várias providências para tornar possível a vinda dos missionários. Teria sido muito mais fácil para eles simplesmente viverem confortavelmente, ganhando dinheiro e aproveitando os frutos do sucesso; mas a irmã Grimm persistiu incansavelmente em seus esforços e em seus apelos.

Naquela época, eu era responsável pelo trabalho na Ásia, e levei os apelos dela à Primeira Presidência, que, em 1961, autorizou a extensão do trabalho missionário formal para aquela área. Em maio de 1961, realizamos uma reunião para iniciar o trabalho. Não tínhamos onde nos reunir, então recebemos permissão da Embaixada Americana para realizá-la no Cemitério Militar Americano, nos arredores de Manila. Ali, onde são lembrados solenemente os sacrifícios de mais de cinquenta mil homens que deram a vida pela causa da liberdade, reunimo-nos às 6h30 da manhã. A irmã Grimm tocou o pequeno órgão portátil que ela havia carregado durante as campanhas da Guerra do Pacífico, e cantamos os hinos de Sião em uma terra estranha. Juntos, prestamos testemunho e invocamos as bênçãos do céu sobre a obra que estávamos iniciando. Naquele dia, havia apenas um filipino membro da Igreja presente.

Esse foi o começo de algo maravilhoso, o começo de um milagre. O resto é história — às vezes desafiadora, outras vezes gloriosa. Estive lá há cerca de um ano e meio, na conferência de área com o presidente Spencer W. Kimball e outros líderes. Cerca de 18 mil membros reuniram-se no Grande Coliseu Araneta, o maior centro de eventos coberto das Filipinas. Chorei enquanto pensava nos anos anteriores, e lembrei-me com apreço da mulher que se esqueceu de seus próprios interesses, enquanto perseguia incansavelmente seu sonho do dia em que a Igreja seria forte na terra em que então vivia, trazendo felicidade de um tipo antes desconhecida para milhares de pessoas maravilhosas. E talvez alguém diga: “Ah, mas se nós estivéssemos em um lugar exótico como as Filipinas, faríamos o mesmo.” Espero que sim. Mas deixem-me dizer que há oportunidades ao nosso redor para ampliar nossa visão e dedicar nossos interesses aos outros.

Certa noite, em Phoenix, Arizona, entrevistei um jovem que tinha viajado por quatro ou cinco horas para me ver. Ele queria ir para a missão, mas seu comportamento anterior havia lançado uma sombra séria sobre essa possibilidade. Ele me disse que estava totalmente afastado da Igreja, assim como todos os outros membros de sua família. Mas, em seu trabalho, conheceu um homem que era membro da Igreja e que era da mesma ala que ele. Esse homem pediu ao bispo a oportunidade de tentar ajudar aquele rapaz. O homem começou dizendo ao rapaz que era mestre familiar. O menino perguntou o que era aquilo. O homem explicou e o convidou para acompanhá-lo. Por curiosidade, o rapaz aceitou experimentar. Na primeira visita, achou que não havia sido tão ruim. Depois veio outra. O homem sugeriu que o rapaz lesse o Livro de Mórmon.

“Quem o senhor acha que eu sou, para perder tempo lendo um livro tão longo?” — respondeu o rapaz.

O homem insistiu: “Leia apenas cinco minutos por dia”.

“Nem pensar!” — respondeu o jovem.

“Então leia apenas um minuto por dia,” desafiou o homem.

O rapaz finalmente concordou em ler um minuto por dia. Um brilho veio em seus olhos quando ele me disse que o minuto se tornou cinco minutos, e depois trinta minutos, e depois uma hora, e ele acrescentou: “É por isso que eu dirigi cinco horas para vê-lo, para ver se eu posso servir missão.”

Bem, para concluir, quero apenas dizer a vocês que estão aqui esta noite: esqueçam-se de si mesmos e estendam a mão. De vez em quando, coloquem em segundo plano seus próprios interesses pessoais e egoístas. Sirvam aos outros. Ao fazerem isso, encontrarão o pote de ouro no fim do arco-íris. “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas qualquer que perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, esse a salvará” (Marcos 8:35). Essas palavras são tão verdadeiras hoje quanto eram quando foram ditas pela primeira vez. “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; porém, se morrer, dá muito fruto.”

Tenho um pouco de experiência no assunto sobre o qual falei esta noite. Testifico que isso é verdade. Testifico que Deus, nosso Pai Eterno, vive. Testifico a vocês que Jesus é o Cristo. Testifico que essa é a obra Deles. Invoco as bênçãos do céu sobre cada um de vocês ao estenderem a mão para ajudar outras pessoas, para que, ao fazê-lo, encontrem seu verdadeiro eu e abençoem grandemente o mundo em que vivem. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

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Esqueça-se de si mesmo

Gordon B. Hinckley era membro do Quórum dos Doze Apóstolos da A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias quando este discurso foi proferido na Universidade Brigham Young, em 6 de março de 1977.