“A tormenta acalmar”
Jeffrey S. McClellan
Diretor de Publicações e Gráficos da BYU
10 de julho de 2018
Diretor de Publicações e Gráficos da BYU
10 de julho de 2018
Em meio à nossa adversidade, pode ser tentador pensar que Deus não cumpriu Suas promessas. Mas não nos apoiamos em resultados desejados para encontrar repouso. Como diz o hino, confiamos em Cristo para encontrar repouso, e Ele não nos entregará aos nossos inimigos, mesmo que o inferno queira nos destruir.
Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu
Obrigado por estarem aqui. Eu amo vocês. Mais importante ainda, Deus ama vocês. Vocês amam Deus, e é por isso que estão aqui. Vocês não estão aqui por causa de mim, porque a maioria de vocês não me conhece. Eu sou apenas um diretor desconhecido no campus. Mas vocês estão aqui por causa de sua fé em Deus. E vocês acreditam que Ele falará para vocês hoje. Oro para que sua fé seja abençoada através de nossa experiência aqui juntos hoje.
Nuvens escuras cobriam o céu de Provo em 15 de abril de 2003. Era a data prevista para o nascimento de nossa segunda filha, mas ainda não havia sinais iminentes de parto. Minha esposa, Christine, estava preocupada por não sentir o bebê se mexer há mais ou menos um dia. Ela sentiu que precisávamos ir urgentemente ao hospital para fazer um exame. Achei que ela estava sendo cautelosa demais, mas ainda assim fomos.
Lembro-me de nossa animada enfermeira naquela manhã, conversando enquanto conectava Christine aos monitores e rapidamente encontrava os batimentos cardíacos. Tudo estava bem.
Com o monitor ligado, a enfermeira deixou nós três — Christine, Lizzy, de um ano de idade, e eu — conversando tranquilamente na sala.
De repente, algo mudou. O bipe regular e reconfortante do monitor cardíaco parou. Chamamos a enfermeira, que nos garantiu que isso acontece — bebês se movem ou os monitores se deslocam. Levaria apenas um segundo para encontrar os batimentos cardíacos. Lembro-me do rosto da enfermeira enquanto procurava os batimentos cardíacos, seu sorriso desaparecendo, seus olhos ficando sérios. Ela continuou procurando. Chamou outra enfermeira para tentar. Não, ela também não conseguiu encontrar. Ah, lá estava. Peraí — não, era o batimento cardíaco de Christine.
Então, várias enfermeiras entraram às pressas na sala. Médicos foram chamados e recebemos explicações breves. Sentei no canto, segurando Lizzy no colo, observando com um medo crescente e impotente. “Cesárea de emergência!”, disseram, e saíram rapidamente do quarto com minha esposa.
Lizzy e eu nos retiramos para o corredor, onde, em poucos minutos, um carrinho passou rapidamente com um bebê muito branco, muito imóvel e muito silencioso. Era o nosso bebê? Não sabia ao certo. Em uma sala atrás de janelas de vidro, os médicos inseriam cuidadosamente um cateter intravenoso através do minúsculo cordão umbilical. Sim, disseram-me, aquele é o seu bebê — sem respirar, com batimentos cardíacos fracos e com grande perda de sangue. A mãe está bem.
O bebê — Caroline, como a chamaríamos — foi colocado em uma maca e preparado para uma viagem de helicóptero até o Primary Children’s Medical Center.
Meu pai havia chegado. Colocamos nossas mãos sob a cobertura plástica que protegia minha garotinha e as posicionamos sobre sua cabecinha de cabelos escuros e finos. Em nome de Jesus Cristo e por Seu sacerdócio, abençoei-a com um coração e pulmões fortes. Abençoei-a com uma recuperação completa.
Então, Caroline foi levada rapidamente para o helicóptero que a aguardava, Lizzy foi para casa com meus pais, Christine ficou no hospital para se recuperar e eu dirigi até Salt Lake City, seguindo o helicóptero. Senti a repentina fragmentação de nossa família — cada uma de minhas filhas agora sob os cuidados de pessoas diferentes e eu dirigindo sozinho na chuva.
Nas horas e dias seguintes, houve muitos exames e perguntas, muitas respostas indefinidas e conversas cheias de lágrimas. Familiares, amigos e membros da ala uniram sua fé à nossa em sinceros jejuns e orações.
Felizmente, Caroline sobreviveu. De certa forma, a bênção que pronunciei naquele dia se cumpriu diretamente. Ela tem um coração saudável e pulmões fortes. No entanto, ela não se recuperou totalmente, como eu havia afirmado na bênção. Sua perda de sangue — cuja causa ainda é desconhecida — levou à falta de oxigênio no cérebro, que sofreu danos graves.
Quinze anos depois, Caroline ainda está presa em um nível de desenvolvimento equivalente ao de uma criança de três meses. Ela não consegue andar, engatinhar ou rolar. Ela não consegue falar, e não temos certeza do que ela compreende. Seus olhos e ouvidos funcionam, mas não sabemos ao certo o quanto ela consegue processar do que vê ou ouve. Ela tem tremores frequentes semelhantes a convulsões, se alimenta por meio de um tubo no estômago, segue uma dieta especial complementada por uma variedade de medicamentos e consulta regularmente vários médicos. Com frequência, Caroline fica triste. Ela chora sem parar, e nem nós nem os médicos conseguimos determinar o que há de errado. Só nos resta esperar — e orar.
A boa notícia é que Caroline é adorável. Ela tem um sorriso enorme e uma risada contagiante. Ela adora abraços e beijos, vento frio no rosto e faixas sonoras em rodovias. Caroline gosta de ouvir nossas vozes, e nós gostamos de ouvir a dela. Ela faz sons fofos e suaves de “aah” e sons realmente altos de “AAH” — muitas vezes no meio da noite. Ela gosta de nossas reuniões regulares em seu quarto para nosso devocional matinal ou para cantarmos e orarmos antes de dormir. Ela sorri muito quando cantamos “Quando chega em casa o meu pai”,1 o que acontece todos os dias.
Amamos Caroline. Somos muito gratos por ela fazer parte da nossa família e aprecio como ela moldou minha vida, mas gostaria que as coisas fossem diferentes. Gostaria que ela pudesse correr, cantar e discutir com a irmã. Muitas vezes fico triste por ela, porque sua vida é difícil. Preocupo-me que ela possa estar desconfortável, com dor, entediada ou com medo, e não sabemos como ajudar.
Ainda temos dias sombrios, noites longas e perguntas sem resposta. Também temos amor, alegria e esperança.
Mas uma vida como a de Caroline levanta questões de fé. Por que ela não foi curada de acordo com aquela primeira bênção do sacerdócio? Por que as centenas — milhares — de orações fiéis não produziram o milagre que esperávamos? Como Deus permite que uma criança tão preciosa e inocente sofra?
Talvez vocês tenham perguntas semelhantes. Todos nós passamos por circunstâncias que testam nossa fé — momentos em que, apesar de vivermos com fé e implorarmos sinceramente, as coisas não saem de acordo com o plano de felicidade que imaginamos ou com as promessas divinas que esperamos. Talvez vocês estejam lutando contra uma doença mental persistente ou uma dor crônica. Talvez estejam lutando contra um vício persistente. Talvez sua tristeza seja resultado de uma vida de solteiro prolongada ou de uma infertilidade dolorosa. Talvez vocês se sintam oprimidos por desemprego, tentação ou a morte de alguém que amam. Talvez orem incessantemente por alguém que perdeu a fé ou talvez lutem contra suas próprias dúvidas.
Seja qual for a provação específica, todos nós passamos por momentos de angústia que testam os limites da nossa fé — aflições que podem nos levar a questionar se aquilo em que acreditamos ainda pode ser verdade diante de obstáculos tão avassaladores à nossa crença. Podemos nos sentir oprimidos e derrotados, confusos e em ruínas. Podemos sentir que Deus está distante e que estamos pendurados por um fio muito fino de fé sobre um abismo de desespero. Essas são as “águas profundas” de nossa vida, quando sentimos que “os rios de tristeza” ameaçam transbordar sobre nós.2
Em períodos tão extremos, como podemos — como vocês podem — manter a fé?
Alguns dias antes da dramática chegada de Caroline a este mundo, Christine e eu lemos um discurso da conferência geral de outubro de 2002, proferido pelo élder Lance B. Wickman. Era um discurso comovente e instigante, embora na época parecesse não ter muita relevância para nós.
Alguns dias após o nascimento de Caroline, lemos o discurso do élder Wickman novamente e, dessa vez, percebemos sua profunda relevância.
O élder e a irmã Wickman haviam perdido um filho pequeno devido a uma doença infantil, apesar de muitas orações e de uma poderosa bênção do sacerdócio. Mais tarde, descobrimos que eles também têm uma filha com deficiência.
Para aqueles que enfrentam provações de fé semelhantes, o élder Wickman disse:
Com respeito à cura dos enfermos, [o Senhor] disse claramente: “E também acontecerá que aquele que tiver fé em mim para ser curado e não estiver designado para morrer, será curado”. (D&C 42:48; grifo do autor.) Muito freqüentemente, esquecemo-nos da restrição “e não estiver designado para morrer” (“ou”, poderíamos acrescentar, “para determinada doença ou deficiência.”) Não se desesperem se orações fervorosas tiverem sido feitas e as bênçãos do sacerdócio tiverem sido dadas, e mesmo assim seus entes queridos não melhorarem ou até vierem a falecer. Consolem-se na certeza de que fizeram tudo o que podiam….O Senhor, que inspira as bênçãos e ouve a oração sincera, chamou-o de volta para casa, apesar de tudo.3
O élder Wickman compartilhou três versos raramente cantados do hino de abertura de hoje, “Que Firme Alicerce”. Desde então, esse se tornou meu hino favorito. O último verso diz o seguinte:
A alma que em Cristo confiante repousar,
A seus inimigos não há de se entregar.
Embora o inferno a queira destruir,
Deus nunca, oh, nunca, o há de permitir.4
Após o nascimento de Caroline, sentimos profundamente a necessidade de um alicerce firme de fé, pois parecia que todo o inferno estava se esforçando para nos abalar. Estávamos — e ainda estamos — aprendendo a nos apoiar tão intensamente, em Jesus para encontrar repouso.
Dois anos atrás, estávamos nos preparando para o segundo ano de Caroline no acampamento das Moças. Perto do local do acampamento, Christine alugou uma cabana particular, onde ela poderia ter um lugar limpo para alimentar e trocar fraldas e onde Caroline poderia fazer barulho no meio da noite. Alguns dias antes do acampamento, porém, Caroline ficou triste — muito triste. Sabíamos que provavelmente teríamos uma semana difícil.
Nossos mestres familiares e eu demos a Caroline uma bênção do sacerdócio e, em poucas horas, ela começou a se acalmar. Caroline e Christine tiveram uma semana maravilhosa e revigorante no acampamento. Foi um milagre do acampamento das Moças, uma evidência profunda para nós do poder do sacerdócio e do amor e misericórdia de Deus.
Um ano depois, Christine estava novamente preparada para levar Caroline para o acampamento e, mais uma vez, Caroline ficou triste. Um dia antes de partirem, tive uma forte impressão espiritual de que deveria dar uma bênção a Caroline — e que não deveria esperar. Sem nem mesmo contar a Christine, imediatamente dei a Caroline uma breve bênção do sacerdócio. Então esperei pelo milagre.
Caroline ainda estava triste quando ela e Christine foram para o acampamento — e continuou triste. Ela estava infeliz; a situação era exaustiva. Depois de alguns dias, Christine e Caroline voltaram para casa mais cedo, e Caroline permaneceu triste.
Tivemos muitas experiências assim com Caroline — bênçãos que foram obviamente cumpridas em contraste com bênçãos que parecem ter caído no chão sem serem notadas.
Durante anos, debati-me com a questão de como ter fé ao dar bênçãos ou orar por ajuda celestial. Quando tudo depende da vontade de Deus e quando a vontade de Deus parece ser desconhecida ou misteriosa, como posso ter fé que minha petição será atendida? Em que posso confiar quando não tenho confiança em conhecer a vontade de Deus?
Então compreendi que não nos é ordenado ter fé nas bênçãos, mas Naquele que dá as bênçãos. E o primeiro princípio do evangelho é “fé no Senhor Jesus Cristo”, não fé em uma vida encantada e livre de problemas (Regras de Fé 1:4, grifo nosso).5
Deus não espera que eu ore por Caroline com fé que ela será curada; Ele me convida a orar por ela com fé Nele, que é o Pai Eterno dela e meu e que, em Sua infinita sabedoria, fará o que for melhor, embora isso possa causar a ela, a mim e a Ele uma angústia temporária na alma. Deus tem uma visão de longo prazo, e nosso bem maior pode significar dor, confusão ou sofrimento a curto prazo.
Em meio à nossa adversidade, pode ser tentador pensar que Deus não cumpriu Suas promessas. Mas não nos apoiamos em resultados desejados para encontrar repouso. Como diz o hino, confiamos em Cristo para encontrar repouso, e Ele não nos entregará aos nossos inimigos, mesmo que o inferno queira nos destruir.
Sadraque, Mesaque e Abednego exemplificaram essa confiança em Deus quando se recusaram a adorar o ídolo de ouro de Nabucodonosor. Mesmo quando ameaçados pela fúria do rei e pelo fogo, eles declararam desafiadoramente: “O nosso Deus, a quem nós servimos, nos pode livrar da fornalha de fogo ardente…. Mas se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos aos teus deuses” (Daniel 3:17-18, ênfase adicionada).
“Mas se não” — Sadraque, Mesaque e Abednego não colocaram sua fé nas bênçãos, mas Naquele que dá as bênçãos. Sua confiança em Deus não dependia de sua libertação da fornalha de fogo; portanto, eles puderam seguir em frente com confiança, sabendo que, independentemente do que acontecesse, eles ainda estariam seguros em Cristo.
Esses amigos fiéis foram lançados na fornalha ardente antes que houvesse libertação, e havia não três, mas quatro homens nas chamas, “e o aspecto do quarto [era] semelhante ao filho dos deuses” (Daniel 3:25).6
Em meio à sua provação ardente, esses três homens — que se apoiaram em Jesus, não em resultados — entraram em comunhão com o Filho de Deus. Essa companhia sagrada em tempos difíceis também pode ser nossa bênção:
Pois ele, que pode a tormenta acalmar,
Seus santos queridos virá resgatar.7
Quando Caroline tinha cinco anos, ela passou por um período em que acordava entre 2 e 3 da manhã por muitas noites seguidas. Uma noite, após esse despertar indesejado, escrevi o seguinte:
Assim que você vê Caroline — mesmo às 2 da manhã —, fica difícil manter a frustração. Ela abre um grande sorriso quando você a tira do puff onde ela dorme, olhando em volta com curiosidade com aqueles olhos grandes e inocentes. …
Enquanto trocava a fralda dela agora há pouco, eu cantava distraidamente uma das canções [da Primária] que Lizzy decidiu que agora cantaremos todas as noites antes de dormir……
“Família, dom de Deus, para sermos tão bons quanto Ele nos quer.” Olhei para Caroline e, de repente, as palavras vieram à minha mente com mais clareza, uma interseção inesperada entre a poesia e a realidade da minha vida naquele momento. Deus me deu uma família — incluindo essa menina que acordava às 2 da manhã — para me ajudar a me tornar o que Ele quer que eu seja. . . . “E assim mostra o Seu amor”, continua o refrão, “pois família é do Senhor”.8
Naquela noite, senti uma breve e abençoada comunhão com Deus: uma confirmação de que Ele estava, naquele momento, pessoalmente ciente de mim, de Caroline e de nossa família. E Ele, meu Pai, me encorajou, ensinando-me por que enfrentamos tais desafios.
Porque Deus nos ama, Ele nos dá experiências “para sermos tão bons quanto Ele nos quer” e Ele criou este mundo decaído — com todas as suas imperfeições e provações ardentes — para cumprir esse propósito. Como diz o hino:
Se provas de fogo tiverdes que passar,
Tereis sua graça a vos amparar.
A chama não pode o fiel consumir
Mas queima a escória e o ouro faz surgir.9
Quando os primeiros santos dos últimos dias foram expulsos pelas violentas turbas do condado de Jackson, no Missouri — depois que sua gráfica e algumas de suas casas foram destruídas e algumas pessoas foram cobertas de piche e penas ou chicoteadas e espancadas —, o Senhor falou com Joseph Smith e concedeu-lhe uma perspectiva para tais tribulações:
Possuí-los-ei e serão meus no dia em que eu vier para reunir minhas joias.
Portanto, é necessário que sejam corrigidos e provados, assim como Abraão. [D&C 101:3–4]
Deus está nos transformando em joias dignas de Seu reino. Pensem na pressão necessária para formar um diamante. Para nos tornarmos os diamantes divinos que Deus deseja que sejamos, precisamos suportar um refinamento profundo.
Muitas vezes honramos a fé que sustentou os pioneiros em dificuldades intensas. Mas também devemos reconhecer que essas dificuldades intensas forjaram e refinaram a fé deles. Suas provações os ajudaram a se tornar o que Deus queria que fossem.
Quando era adolescente, li um dia no Livro de Mórmon sobre o sonho de Leí e refleti sobre a descrição de Néfi de que a “brancura [da árvore] excedia a brancura da neve” (1 Néfi 11:8).
Pensei: Como Néfi sabia como era a neve?
Eu sabia que Néfi havia crescido em Jerusalém, que tem um clima mediterrâneo, e que ele havia viajado por um deserto e atravessado um oceano até chegar às selvas tropicais da América. Pensei: Néfi nunca viu neve — ele não poderia saber como era a neve!
Esse pensamento me incomodava; parecia ser uma inconsistência no registro, uma possível evidência de que o Livro de Mórmon não era verdadeiro. Com minha fé jovem e ainda em desenvolvimento, esse era um pensamento perturbador.
Essa questão me incomodava, mas nos anos seguintes reli o Livro de Mórmon várias vezes, provavelmente uma dúzia de vezes, e meu testemunho dele cresceu. Mas como eu poderia acreditar tão firmemente no Livro de Mórmon quando tinha uma séria dúvida sobre sua consistência como registro histórico? Eu carecia de integridade intelectual?
Anos mais tarde, já como missionário retornado e estudante da BYU, li um dia uma notícia sobre o conflito no Oriente Médio e fiquei surpreso ao encontrar uma descrição de um cenário com neve em Jerusalém. Como assim? Neva em Jerusalém?! Quem diria?
Por mais inteligente que eu achasse que era quando adolescente, não era tão inteligente assim. Não havia nenhum problema com a descrição da árvore feita por Néfi. Néfi cresceu em Jerusalém; e em Jerusalém neva.10
Esse pode ser um exemplo simples, mas o princípio se aplica a desafios maiores. Às vezes pensamos que somos muito inteligentes e, quando surge algo que não se encaixa em nossa maneira de pensar — como informações sobre a história da Igreja, divórcio em um casamento no templo ou atração pelo mesmo sexo —, ficamos abalados e podemos começar a questionar nossas crenças.
Mas talvez, assim como meu problema com Néfi e a neve, estejamos apenas esquecendo uma perspectiva importante. Talvez precisemos ser pacientes e esperar que o desfecho se revele.11
Fico emocionado com a história do pai que levou ao Salvador seu filho “que tem um espírito mudo (…) [que] despedaça-o, e ele espuma, e range os dentes” (Marcos 9:17–18; ver também os versículos 17–27).
Jesus disse ao pai que tudo é possível com fé (ver Marcos 9:23).
E “o pai do menino, clamando com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade” (Marcos 9:24).
Alguns podem considerar a fé desse pai fraca ou incompleta. Mas, em minha própria situação extrema, sinto profundamente o conflito desse pai com a crença e admiro sua declaração determinada e humilde de uma fé imperfeita.
Se a fé fosse um conhecimento simples e claro, não seria tão inspiradora. A fé desse pai em buscar uma bênção era poderosa precisamente porque não era perfeita. Apesar da incerteza, apesar dos anos de orações paternas desesperadas que pareciam não ser respondidas, apesar da fracassada bênção dos discípulos — apesar de tudo isso, esse pai ainda pediu ao Filho de Deus a bênção pela qual ele ansiou durante toda a vida. Ele escolheu acreditar.
Uma fé imperfeita ainda é fé. Por definição, fé é incompleta,12 então, se vocês sentirem que lhes falta clareza e um conhecimento mais sólido, tudo bem. Isso é fé. Sejam pacientes com a imperfeição de sua fé. É justamente a incompletude que dá poder à fé.
A fé é uma resposta corajosa e otimista à ambiguidade e às adversidades deste mundo. A fé é uma escolha de acreditar com base em um conjunto de dados incompleto e em constante mudança.13 Fé é dizer: “Embora eu esteja sofrendo, embora eu esteja confuso, mesmo que eu não ouça a voz de Deus claramente, ainda assim escolho acreditar. Eu esperarei no Senhor”.14
A paciência é difícil, especialmente quando as águas são profundas e a noite é escura. Mas lembrem-se do que Morôni disse: “não recebeis testemunho senão depois da prova de vossa fé” (Éter 12:6, grifo do autor). O “depois” significa que devemos esperar.
Abraão e Sara tinham experiência com a paciência. Foi-lhes prometida uma grande posteridade — “uma grande nação”, disse Deus (Gênesis 12:2). À medida que décadas sem filhos se seguiram, a promessa foi repetida várias vezes sem se cumprir. Ainda assim, “em esperança, [creram] contra a esperança” (Romanos 4:18).
Finalmente, quando Abraão tinha cem anos e Sara tinha noventa, eles foram abençoados com Isaque, o filho da promessa. Mesmo então, a promessa ainda era apenas uma esperança. Isaque era apenas uma pessoa. Sara morreu sem conhecer seus netos ou mesmo sua nora; Abraão morreu quando os dois filhos de Isaque e Rebeca eram ainda jovens.15
“Todos esses morreram na fé”, escreveu Paulo, “sem terem recebido as promessas, porém, vendo-as de longe,” (Hebreus 11:13).
Vários milhares de anos depois, vemos as promessas feitas a Abraão e Sara ricamente cumpridas. Mas, durante suas vidas, essas promessas devem ter parecido ridiculamente fora de alcance.
Por meio de Isaías, Deus usou Abraão e Sara como exemplo para encorajar os israelitas em sua fé:
Olhai para a rocha de onde fostes cortados. . . .
Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz; porque, sendo ele só, o chamei, e o abençoei e o multipliquei. [Isaías 51:1–2]
Será que Abraão e Sara às vezes se sentiam sozinhos e talvez ignorados ou esquecidos?
A Septuaginta, uma tradução antiga do Velho Testamento, acrescenta uma breve frase à mensagem de Isaías. Entre “o abençoei” e “o multipliquei”, ela insere “e o amei”: “Pois ele estava sozinho quando eu o chamei, e o abençoei, e o amei, e o multipliquei.”16
Quando vocês se sentirem sozinhos, quando acharem que as promessas de Deus talvez nunca se cumpram, quando questionarem aquilo em que acreditam — lembrem-se de Abraão e Sara. Lembrem-se de que, assim como eles, vocês foram abençoados e serão, com o tempo, multiplicados. Deus tem uma visão de longo prazo, e leva uma vida inteira para nos tornarmos o que Deus deseja que sejamos. Portanto, sejam pacientes. E, enquanto esperam e têm esperança, lembrem-se de que, assim como Abraão e Sara, vocês são amados.
Passando-se os anos, vós santos, provareis
O amor soberano do grande Rei dos Reis.17
Muitas vezes, Caroline fica triste e barulhenta na igreja — ou, às vezes, feliz, mas ainda assim barulhenta — e Christine, Lizzy, eu ou algum membro bondoso da ala a levamos para o saguão da capela, onde a empurramos em sua cadeira, acalmando-a com o movimento.
No saguão, várias pessoas se juntam a nós, chegando atrasadas à reunião, correndo atrás de crianças pequenas que entram e saem da capela ou simplesmente aproveitando os assentos mais confortáveis. Sinto um senso de comunidade no saguão — uma afinidade com essas outras pessoas que, como nós, acham que sua situação não está à altura do ideal da capela. Também sinto o Espírito no saguão enquanto caminho em forma de oito com minha filha, e fui tocado por este pensamento simples: o evangelho ainda é verdadeiro até mesmo no saguão.
Todos nós passamos algum tempo no saguão, figurativamente falando. Cada um de nós enfrenta circunstâncias que nos fazem sentir à margem da congregação, olhando para a capela a partir do saguão. E tudo bem, porque o evangelho ainda é verdadeiro no saguão.
Certo domingo, há alguns anos, cheguei à igreja empurrando Caroline, que estava especialmente triste, pensando que talvez fôssemos ficar apenas para o sacramento. Enquanto caminhava pelo saguão e Caroline continuava triste, comecei a me perguntar se conseguiríamos sequer aguentar até o sacramento. Todos os meus esforços para consolá-la pareciam em vão, e o choro de Caroline certamente estava incomodando os outros.
Mas então o hino sacramental começou e Caroline se acalmou um pouco quando comecei a cantar. Ela logo ficou agitada novamente, então aproximei meu rosto do dela e cantei para ela. Ela se acalmou e ouviu. O hino sacramental daquele dia era “Reverently and Meekly Now” [Reverente e Mansamente Agora], escrito na primeira pessoa, como se o Salvador estivesse cantando. Confesso que estava focado em Caroline e não na música — até chegarmos ao quarto verso, quando me vi cantando estas palavras para minha filha:
Eu te amo como teu amigo,
Com um amor que não tem fim.18
Olhei nos grandes olhos azuis de Caroline e senti profundamente a verdade terna e pessoal dessas palavras para minha filha. Jesus Cristo, o Redentor do mundo, ama Caroline “com um amor que não tem fim”. Mesmo no saguão, em seu estado menos que ideal, Caroline é amada. Quando ela está triste ou magoada, quando seus pais não sabem o que fazer e são incapazes de consolá-la, há Alguém que é seu Amigo Eterno, que sabe como ela se sente e como socorrê-la.
O inverso também é verdadeiro. Jesus é meu amigo e é seu amigo. Ele conhece minhas fragilidades — incluindo minhas fragilidades de fé — e conhece as suas. E Ele nos ama não apesar dessas fragilidades, mas com uma compreensão plena e compassiva delas.19 Ele nos ama em nossos momentos de provação espiritual porque Ele sentiu o que sentimos — nossas dúvidas e desânimo, bem como nossos pecados e tristezas.
Eu costumava pensar que Jesus devia ter sofrido por nós em uma grande massa cósmica de sofrimento. Mas, recentemente, passei a sentir que Ele provavelmente sofreu por cada um de nós de maneira individual e íntima, um por um.20 Ele sentiu meus pecados e tristezas específicos, suportou as aflições e angústias particulares de Caroline e experimentou as enfermidades e imperfeições individuais de vocês.21 E, por ter feito isso, Ele sabe como ajudar,22 em todas as nossas circunstâncias.23 Nas palavras do hino: “De todo o perigo vos há de livrar”.24
É por isso que Sua graça é chamada de maravilhosa. Ela inclui todas as pessoas, o que significa vocês também. Ela inclui todos os tempos, o que significa agora também. Ela inclui toda dor, o que significa também a sua. A tenda do evangelho é grande o suficiente para todos nós, com todas as nossas diferentes dificuldades, porque a Expiação de Jesus Cristo é infinita e pessoal.
No saguão, nossas tribulações proporcionam uma oficina para a graça maravilhosa de Jesus Cristo. No saguão, enfrentamos dificuldades e angústias que tornam nosso coração quebrantado e nosso espírito contrito. E, no saguão, o Mestre Curador pega nosso coração quebrantado e dá a cada um de nós um novo coração, Seu coração, que foi também foi quebrantado — e então restaurado — para nós.
Recentemente, nossa família estava tendo uma conversa descontraída sobre um assunto importante: meu cabelo. Afirmei que, na ressurreição, eles não vão nem me reconhecer com meus cachos.
Sem hesitar, Lizzy disse: “Acho que vamos estar muito distraídos com a Caroline falando”.
Todos rimos, mas fui tocado pela profunda verdade em suas palavras: a salvação disponível por meio de nosso Grande Redentor é abrangente, incluindo meu cabelo, o dano cerebral de Caroline e tudo o mais. A graça de Jesus Cristo é incrível; Seu poder de cura não tem limites. Seja qual for sua enfermidade, tristeza ou provação de fé, “Tereis sua graça a vos amparar”.25
Christine, Lizzy e eu compartilhamos uma base sólida de fé nessa verdade, que trouxe reservas infinitas de esperança para nossa vida. Sabemos — e testificamos — que a identidade eterna de Caroline não é definida por sua deficiência mortal. Um futuro belo e glorioso a espera por causa de Jesus Cristo, que também é seu amigo e companheiro em sua aflição atual.
O mesmo se aplica a vocês. Por causa Dele, todos temos esperança de redenção eterna e, por causa Dele, todos temos ajuda em nossa angústia terrena. Portanto, perseverem. Confiem. Tenham esperança. Deus os ama.
Se Deus é convosco, a quem temereis?
Ele é vosso Deus, seu auxílio tereis.
Se o mundo vos tenta, se o mal faz tremer,
Com mão poderosa vos há de suster.26
Em nome de Jesus Cristo. Amém.
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Notas:
Como, então, devemos achegar-nos ao trono da graça ao implorarmos sinceramente por um ente querido e impormos as mãos sobre sua cabeça para dar-lhe uma bênção pela autoridade do sacerdócio? Como podemos exercer devidamente a nossa fé? O Profeta Joseph Smith definiu o primeiro princípio do evangelho como sendo “fé no Senhor Jesus Cristo” (Regras de Fé 1:4, grifo do autor). Às vezes, esquecemo-nos das palavras “no Senhor Jesus Cristo”, que são definidoras. Muito freqüentemente, fazemos nossa oração ou ministramos a bênção e depois esperamos ansiosos para ver se nosso pedido foi atendido, como se a sua aprovação nos oferecesse uma prova necessária da existência Dele. Isso não é fé! A fé é simplesmente a confiança no Senhor. [“Mas, Se Não”, ênfase no original]
Por muitos anos, acreditei que o processo da expiação envolvia uma massa infinita de pecados sendo acumulada sobre o Salvador. À medida que me familiarizei mais com as escrituras, minha visão da Expiação se expandiu. A Expiação envolveu mais do que uma massa infinita de pecados; ela implicou um fluxo infinito de indivíduos com suas necessidades específicas. Alma registra que Jesus tomou sobre si as dores, aflições, tentações e enfermidades de seu povo. Além disso, Ele experimentou suas fraquezas para saber como ajudá-los (ver Alma 7:11–12). Isaías profetizou que o Senhor tomaria “sobre si as nossas enfermidades e [carregaria] nossas dores”; que Ele seria “ferido pelas nossas transgressões” e “moído pelas nossas iniquidades” (Isaías 53:4–5). Paulo explicou aos hebreus que Jesus provou “a morte por todos” os homens e mulheres (Hebreus 2:9). Não é de se admirar que “o seu suor fez-se como grandes gotas de sangue” saindo de “por todos os poros” (Lucas 22:44, D&C 19:18). Isaías e Abinádi afirmaram que “quando sua alma servir de oferta pelo pecado, ele verá a sua semente” (Mosias 15:10; ver Isaías 53:10). E quem é sua descendência? Aqueles que seguem os profetas (ver Mosias 15:11–17).
Irmãos e irmãs, a Expiação não foi apenas infinita em sua amplitude, mas também íntima na vida dos filhos e filhas de Deus. O Redentor do mundo conhece as enfermidades de cada pessoa. Ele conhece seus problemas. Ele compreende suas alegrias, bem como suas tristezas. Ele conhece a natureza das tentações que os assolam e como elas se relacionam com suas fraquezas. Acima de tudo, Ele os conhece e sabe como e quando ajudá-los (“One by One” [Um por um], discurso dado em um devocional da BYU em 9 de setembro de 1997).

Jeffrey S. McClellan, diretor do departamento de Publicações e Gráficos da BYU, proferiu este discurso no devocional do dia 10 de julho de 2018.