Reitor da Universidade Brigham Young
Se decidirmos encarar os acontecimentos de nossa vida a partir da perspectiva eterna que provém da compreensão do plano eterno de salvação de Deus, nossa vida será mais feliz e produtiva, e teremos mais força para enfrentar os desafios que inevitavelmente surgirão em nosso caminho.
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Uma das características mais marcantes deste vale onde a BYU se encontra é o “Y” de concreto na superfície da montanha ao leste. A extensão do Y é tão grande e sua presença tão imponente que a própria montanha recebeu o nome de Montanha Y. A ligação entre a letra na montanha e a história, o propósito e a missão desta universidade é tão profunda e consolidada que muitos se referem à própria universidade simplesmente como “a Y” — uma referência que continua a confundir os ex-alunos da Universidade de Yale.
Espero que, para os formandos de hoje, o Y na montanha sirva como um lembrete do conhecimento que adquiriram, das coisas que realizaram e das pessoas nas quais se tornaram durante seu tempo na BYU. Espero também que sirva como um convite contínuo para que aumentem o impacto do que alguns chamam de “o espírito do Y” — um espírito de serviço e caráter que emana não apenas da destreza intelectual, mas também da força espiritual que adquiriram aqui.
É muita coisa para se esperar de uma simples letra do alfabeto, especialmente de uma letra que enfrentou certas dificuldades para entrar e permanecer no alfabeto inglês moderno. A letra y foi incorporada ao alfabeto romano — do qual o nosso deriva — por volta do ano 100 d.C.,1 muito tempo depois de a maioria das outras letras já terem chegado lá.2 A letra y desempenhava praticamente o mesmo papel que a letra romana i, que havia sido introduzida no alfabeto romano 800 anos antes.3 A função original do y era permitir a adaptação de palavras gregas à escrita romana.4 Por isso, era chamada de Y, I ou E grega — ou i griega, para quem fala espanhol — como um lembrete de que não era nativa do alfabeto romano.
Como desempenhava em grande parte um papel já ocupado por outra letra do alfabeto, a letra y sempre teve uma posição um tanto frágil. Pelo menos um linguista moderno ainda condena a letra y como um “luxo… ou melhor, um grande incômodo”, cuja presença não faria falta e cuja ausência simplificaria as regras ortográficas.5 Por que não, perguntam alguns, escrever cycle [ciclo], syllabus [plano de ensino] e dynasty [dinastia] com um i em vez de um y?
Mas, apesar das críticas recebidas, a letra y persistiu — às vezes por meios que parecem até providenciais. No passado, o alfabeto romano continha a letra thorn (þ). Ela era pronunciada como o “th” das palavras inglesas this [este(a), esse(a)], then [então] ou the [o, a].6 Embora desempenhasse uma função bem diferente da letra y, o thorn minúsculo parecia-se com o y minúsculo. “Com o tempo, à medida que a escrita gótica foi introduzida no inglês antigo, o ‘Y’ e o ‘thorn’ tornaram-se semelhantes demais e um deles teve que desaparecer.”7 Infelizmente para a letra thorn, os tipógrafos franceses não possuíam esse caractere em suas prensas, “e tornou-se comum substituir o ‘thorn’ por um ‘y’.”8 Assim, placas na Inglaterra passaram a dizer “Ye Old Fish and Chips Shop” [A antiga loja de peixe frito com batatas fritas] e não “The Old Fish and Chips Shop” [mesmo], e a letra thorn caiu no esquecimento.
Portanto, não fossem as peculiaridades dos impressores franceses naquele passado distante, o símbolo na montanha ao leste daqui talvez teria o formato da letra thorn — e nossa universidade talvez fosse conhecida não como “a Y”, mas como “a Thorn”.
O Y na montanha tem origens pouco auspiciosas. Suas raízes remontam a uma rivalidade entre duas turmas de alunos, apenas três anos depois de a Academia Brigham Young se tornar uma universidade plenamente estabelecida. Naquela época, tanto a Universidade Brigham Young quanto a Escola Secundária Brigham Young [BY High] compartilhavam o mesmo espaço.
Naqueles dias, não era incomum que uma turma marcasse sua formatura deixando símbolos na paisagem. Na primavera de 1906, a turma do penúltimo ano do ensino médio decidiu se antecipar no processo e, ao mesmo tempo, demonstrar sua superioridade em relação à turma do último ano, gravando um grande “07” na encosta da montanha, em referência ao ano em que se formariam.
Como era de se esperar, ao despertar e ver aquela cena, a turma do último ano se opôs. Um relato da época descreveu a reação com um toque dramático:
O corpo estudantil. . . levantou-se de um salto, em espanto e raiva; o branco de seus olhos brilhava como relâmpagos. Seus líderes. . . correram para os quatro cantos com bandeiras em chamas, clamando: “Reúnam-se, ó exércitos, preparados para lutar!” 9
Seguiu-se então “uma briga na encosta que durou o dia inteiro”,10 com troca de socos de ambos os lados.
O presidente da BYU, George H. Brimhall, e o diretor da BY High, Edwin S. Hinckley, reuniram um grupo e foi tomada a decisão de que todas as turmas se unissem para colocar as letras B, Y e U na encosta da montanha.11 O projeto começou com a letra Y para garantir que todas as letras ficassem devidamente centralizadas na montanha.12
Medidas e cálculos foram feitos tanto na montanha quanto no antigo prédio da Academia (que hoje é a Biblioteca Municipal de Provo) para garantir que a letra ficasse centralizada e fosse proporcional do ponto de vista das pessoas no vale. No dia marcado, iniciou-se o trabalho de construção do Y com cal, pedra e areia. Como descreveu um dos participantes:
Os alunos formaram uma fila em zigue-zague com cerca de dois metros e meio de distância entre si, estendendo-se da base da colina até o local do Y. O primeiro [aluno] pegava o saco de cal, areia ou pedras, carregava-o por dois metros e meio e o entregava ao segundo [aluno]. O segundo carregava-o por mais dois metros e meio e o entregava ao terceiro [aluno], e assim o saco subia a colina.13
O grupo começou de manhã cedo, com a expectativa de que o trabalho fosse concluído às 10h daquela mesma manhã.14 Porém, a tarefa revelou-se muito maior do que haviam imaginado. No meio da tarde, alguns estudantes desmaiaram e tiveram que ser retirados da colina. Somente às 16h o Y ficou, finalmente, coberto por uma camada fina de material.15 O esforço foi tão exaustivo que, nas palavras de um dos participantes, “não houve nenhuma tentativa de cobrir as outras duas letras”,16 e o Y ficou sozinho.
Assim, poderia-se dizer que o Y na montanha é fruto de contenda e cansaço. Não é exatamente o tipo de origem motivacional que se escolheria para inspirar o coração, apesar do encanto da aliteração. E, no entanto, há nessa história, assim como na história um pouco precária da letra y, duas breves lições inter-relacionadas que ofereço como meu conselho à turma de formandos de hoje.
Primeiro, símbolos como a letra y ou o Y na montanha acabam ganhando significado em nossas vidas não tanto por causa de sua forma física ou presença, mas por causa do que escolhemos fazer deles. Da mesma forma, o significado dos eventos em nossas vidas será determinado não tanto pelos eventos em si, mas pela maneira como escolhemos vê-los e responder a eles. E isso, por sua vez, é moldado de forma dramática pela perspectiva a partir da qual escolhemos ver tanto os símbolos quanto os eventos em nossas vidas. Dada sua chegada tardia, seu papel limitado e, às vezes, até mesmo seu lugar precário no alfabeto, alguns optam por ver a letra y como um “incômodo”. Mas eu, por exemplo, me deleito com palavras como yes [sim], yearn [ansiar], young [jovem] e até mesmo yikes [eita] — sem falar em yawn [bocejar, bocejo], que muitos de vocês devem estar fazendo agora.
Da mesma forma, dadas as suas origens, suponho que alguns possam ver o Y na montanha como um símbolo de conflito e exaustão. No entanto, acredito que eu e a maioria de nós optamos por vê-lo como um símbolo de união e energia, e que essa imagem positiva tem sido reforçada por nossas ações ao longo dos anos. Se decidirmos encarar os acontecimentos de nossa vida a partir da perspectiva eterna que provém da compreensão do plano eterno de salvação de Deus, nossa vida será mais feliz e produtiva, e teremos mais força para enfrentar os desafios que inevitavelmente surgirão em nosso caminho. Tudo isso depende da maneira como escolhemos encarar as coisas.
Mesmo com essa perspectiva mais positiva, haverá momentos em que vocês se sentirão sobrecarregados pelos acontecimentos — momentos em que, apesar de seus melhores esforços, não conseguirão atingir seus objetivos e sentirão que fracassaram completamente — assim como os estudantes, exaustos, devem ter se sentido quando desistiram de fazer o B e o U na encosta da montanha. Mas, ao que parece, ter apenas um Y na montanha pode ter sido o resultado ideal, embora provavelmente ninguém tenha pensado assim naquele momento. Afinal, como Peter B. Gardner observou em seu artigo na BYU Magazine há alguns anos: “‘Iluminar o B, o Y e o U’ simplesmente não soa tão bem”17 quanto “iluminar o Y.” E será que realmente preferiríamos um “Bi-uái-iúmount Terrace”?18 [piada em relação a uma moradia estudantil em Provo chamada Wymount Terrace, onde Wy reproduz a pronúncia de Y em inglês.]
A segunda lição, portanto, é que, nos momentos em que vocês sentirem que fracassaram, que nada está dando certo e que não há nada que possa ser feito a respeito, vocês ainda podem — e oro para que o façam — confiar na promessa extraordinária de Deus de que Ele é capaz de fazer com que todas as coisas contribuam para o bem daqueles que O amam. Testifico que essa promessa extraordinária, encontrada em Romanos 8:28 e repetida em várias passagens das escrituras modernas,19 é verdadeira. Talvez vocês não vejam isso imediatamente, mas Deus pode fazer com que todas as coisas contribuam para o seu bem. Ele pode transformar uma briga entre turmas rivais e uma tentativa fracassada de gravar três letras em uma montanha em um símbolo de união e sucesso. Mais importante ainda, Ele pode fazer com que o bem resulte de todos os nossos esforços — não apenas de nossos sucessos, mas também de nossos fracassos e dos fracassos alheios que nos causam dor. Deus é assim, tão bom e tão poderoso. Precisamos apenas confiar Nele.
Portanto, ao olharem para o Y na montanha, espero que vejam esperança, otimismo e fé no futuro. Parabenizo vocês, formandos, por sua conquista e oro para que sejam inspirados pelo espírito positivo do Y em todos os seus empreendimentos. Ofereço essa oração em nome de Jesus Cristo, amém.
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Kevin J Worthen, reitor da Universidade Brigham Young, proferiu este discurso de formatura em 25 de abril de 2019.