Entregando todo o nosso coração a Cristo
Professora de Direito da Cadeira Woodruff J. Deem
1 de outubro de 2024
Professora de Direito da Cadeira Woodruff J. Deem
1 de outubro de 2024
Seja qual for a vergonha que Satanás esteja colocando em seu coração, lembrem-se de que Jesus a venceu. (…) Então, frequentem o templo — ou, se tiverem o dom do garment sagrado, vistam-no — e mostrem para Satanás que seus corações já têm dono.
Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu
Sinto-me humilde por falar a todos vocês hoje e oro para que o Espírito Santo grave em seu coração a mensagem que vocês precisam sentir.
Tive a honra de voltar à BYU neste ano, depois de dez anos na Universidade de Utah. Frequentemente fico emocionada quando venho a este edifício para assistir a um devocional. Fico maravilhada ao ver cada um de vocês,1 caminhando de outras partes do campus até este edifício para o devocional, sem serem obrigados, sem receber nota nas provas finais e em tão grande número. Sei que o futuro é brilhante para a Igreja do Senhor, porque o vejo refletido em seus rostos.
Vocês parecem ser muito mais sábios e maduros do que eu era na idade de vocês. Quando eu era aluna da BYU, minha colega de quarto descobriu que, tarde da noite de sábado, a padaria local jogava fora os pães que não tinham sido vendidos naquele dia, eles eram colocados em um saco plástico transparente, facilmente acessível ao pular no contêiner atrás da loja. A princípio, minhas colegas e eu ficávamos com todos aqueles pães só para nós. Mas, com o tempo, sentimos que era egoísmo guardar toda aquela fartura só para nós. Então, decidimos colocá-los em bandejas e levá-los para a Sociedade de Socorro na manhã seguinte, para que todas as irmãs da Ala Provo 197 pudessem aproveitar. Ninguém perguntou onde tínhamos conseguido os pães, e achamos melhor não compartilhar essa informação.
Embora nossas ações provavelmente tenham sido equivocadas, posso dizer com certeza que nossos corações estavam no lugar certo.
Isso é o que me leva ao tema de hoje: o coração.
Como imigrante iraniana nos Estados Unidos e filha de um neurocirurgião, fui informada desde muito jovem de que me tornaria médica. No Irã, apenas aqueles que se destacam nos exames nacionais têm a chance de se tornar médicos; já nos EUA, essa oportunidade está ao alcance de qualquer pessoa disposta a trabalhar arduamente por ela. Lembro-me de ter dito, com certa ousadia, que queria ser cirurgiã cardíaca, alegando que o coração era o órgão mais importante do corpo. Minha irmã mais velha, que sempre foi a favorita do meu pai, argumentava fervorosamente que o órgão mais importante era o cérebro. Meu melhor argumento era que o coração era o distribuidor central de sangue em todo o corpo. Normalmente, o trunfo da minha irmã era afirmar que, sem o cérebro, o coração não poderia funcionar. Imaginei que, como nosso profeta é um renomado cirurgião cardíaco, talvez esse fosse um bom momento e lugar para tornar pública essa antiga discussão.
Muitos artistas retrataram nosso Salvador Jesus Cristo segurando um coração humano – em alguns casos chamado de “O Sagrado Coração de Jesus”.2
Na Conferência Geral de Abril de 2024, nosso profeta nos incentivou a estudar a oração dedicatória do Templo de Kirtland — o primeiro templo construído pelos pioneiros por meio de um grande sacrifício.3 A oração começa assim: “Graças sejam dadas a teu nome, ó Senhor Deus de Israel, que cumpres os convênios e mostras misericórdia aos teus servos que andam retamente perante ti de todo o coração”.4
Há uma conexão entre amar a Deus de todo o coração e fazer convênios com Ele.
Jesus também instruiu no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus”.5
Os convênios que fazemos com Deus no templo nos preparam para nos reunirmos com Ele,6 mas o que isso tem a ver com nosso coração?
Quero considerar cada um dos cinco convênios que fazemos com Deus em Sua santa casa e como eles purificam o nosso coração — ajudando-nos a amá-Lo de todo o coração e, finalmente, a nos unirmos a Ele eternamente.
Considerem o papel do coração na sobrevivência do nosso corpo. Por desígnio divino, nossos corações batem o tempo todo, involuntariamente, até mesmo enquanto dormimos. Nosso coração bombeia o sangue que dá vida ao corpo inteiro.7 Da mesma forma, nosso Salvador está constantemente presente, amando-nos — sem perder qualquer batimento.
Mas como podemos amá-Lo de volta? Jesus disse: “Se me amais, guardai os meus mandamentos.”8 A nossa obediência é uma manifestação do nosso amor e do nosso desejo de nos reunirmos a Ele.
O simples ato de tentar ser obedientes é o que Deus nos pede — reconhecer onde falhamos e mostrar disposição de continuar nos voltando a Ele. O élder Clark G. Gilbert ensinou: “A despeito de começarmos em circunstâncias favoráveis ou difíceis, perceberemos nosso pleno potencial somente quando fizermos com que Deus seja nosso companheiro”.9 Deus regozija-se até mesmo com melhorias em nível microscópico enquanto nosso coração está fixo em uma vida celestial com Ele.
A famosa banda dos anos 1970, Van Halen, tinha uma cláusula curiosa em seu contrato: tinha a ver com os chocolates M&M’s. O contrato exigia, no artigo 126, que “não houvesse M&M’s marrons na área dos bastidores, sob pena de cancelamento do show, com compensação integral.”10 Se a banda chegasse ao local e encontrasse M&M’s marrons, o show era cancelado — e o prejuízo ficava por conta do contratante. Muitos promotores achavam que isso era puro capricho, mas o vocalista explicou que a exigência tinha um propósito mais profundo. O contrato da Van Halen era extenso e continha especificações técnicas para garantir que pudessem pular no público, soltar fogos de artifício e até saltar de paraquedas sem lesões para a banda. Todos esses detalhes estavam descritos junto da exigência sobre os M&M’s na área dos bastidores. Quando a banda chegava a um local, eles simplesmente checavam os bastidores; se vissem M&M’s marrons, saberiam que seu contrato não havia sido rigorosamente cumprido, trazendo riscos à segurança da banda.11
Quais são os “M&M’s marrons” que precisamos remover dos bastidores de nossa vida? Quais são as pequenas instruções do Pai Celestial que estamos negligenciando, talvez achando que Ele não tenha notado?
Essa história me lembra a de quando Cristo disse: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito, e quem é injusto no pouco também é injusto no muito”.12
Para mim, qualquer desejo de ignorar um mandamento aparentemente trivial tem origem no orgulho. Quando critico os outros, fico na defensiva depois de cometer um erro, ou interpreto conselhos proféticos de modo a acomodar meus próprios desejos, sei que meu coração não está plenamente direcionado a Deus.13 Quando justifico escutar músicas com palavras que eu mesma repreenderia meus filhos por repetir, ou assisto a programas que exaltam imoralidade ou discórdia, reconheço que estou me desviando do caminho.
Quando nosso coração está sintonizado com Deus, qualquer correção — grande ou pequena — feita por um líder amoroso da Igreja é bem-vinda. Qualquer interrupção de nosso tempo para servir ao próximo é um deleite, e interesses seculares que nos distraem do Santo que conquistou nossos corações simplesmente deixam de ser atrativos.14
Esses “M&M’s marrons” podem parecer insignificantes, mas as escrituras estão repletas de exemplos de pequenas desobediências que acabaram levando a grandes rebeldias. O outrora poderoso rei Davi poderia nunca ter cometido adultério nem passado a vida arrependido se não tivesse decidido ignorar a tradição consagrada de que um rei deveria estar em batalha durante a primavera. Em vez disso, ficou em casa, caminhando pelo terraço — e foi ali que encontrou Bate-Seba.15
Como professora de direito penal, posso atestar que um pouco de orgulho e um pequeno passo em direção ao pecado podem, quase sem esforço, terminar em um crime grave. O relato dos nefitas em Helamã fornece um grande alerta: o povo deixou entrar um pouco de “orgulho de seus corações”, que infelizmente resultou em “assassinar, saquear, mentir, roubar, cometer adultério, levantar-se em grandes contendas”; em última análise, eles perderam quase tudo o que tinham.16
Nunca esquecerei o conselho que meu marido e eu recebemos antes de nosso selamento. O que vocês acham que nosso selador nos aconselhou a fazer para que tivéssemos um ótimo casamento? Ele disse que deveríamos viver fielmente a lei do dízimo. Fiquei surpresa — não esperava esse tipo de conselho matrimonial. O selador explicou que pagar um dízimo integral nos ensina obediência exata a Deus e que a honestidade fortalece nossa fidelidade no casamento.
Nas escrituras, o coração simboliza o centro de nossos desejos, nossas intenções e nossa lealdade. Representa um guia para o nosso caminho. O Salvador ensinou: “Onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração”.17
O grande mandamento instrui que, acima de tudo, “amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças.”18 Ele menciona primeiro o coração – antes de nossa mente – porque, às vezes, nosso coração deve agir como uma bússola quando nosso cérebro não é corajoso o suficiente para escolher o que é certo.
Eu nasci durante um tempo de guerra e revolução política no Irã. Durante esse tempo, minha mãe era uma ativista política que lutava pela liberdade em nosso país. Um dia, militares invadiram nossa casa e prenderam minha mãe. Ela ficou dois anos e meio na prisão por lutar pelo que acreditava. Pouco tempo depois de ser libertada da prisão, minha família milagrosamente deixou o Irã e se mudou para Los Angeles para que meu pai pudesse fazer uma estágio de um ano na UCLA. Milagres adicionais conduziram minha família à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Minha mãe foi batizada sabendo que poderia ser condenada à morte por causa de sua fé. Naquela época, ela não sabia se conseguiríamos permanecer nos Estados Unidos, mas ela estava disposta a sacrificar tudo por Deus. Mais tarde, meus pais pediram asilo político e, pela graça de Deus, fomos autorizados a permanecer nos EUA.
O sacrifício que minha mãe estava disposta a fazer por sua fé demonstrou que tinha entregado seu coração a Deus. A irmã Michelle Craig ensinou: “Trabalhando ao lado de vocês, quero permanecer com Ele para sempre. De todo coração. Sabendo que quando amamos Jesus Cristo de todo o coração, Ele nos dá tudo de volta”.19
Em vez de fazer dez resoluções de Ano Novo e cumprir três, neste ano fiz uma impossível: ter o amor de Jesus habitando em meu coração sempre.20 Quero ter como objetivo estar cheia de Seu amor. Quero me lembrar de ser fiel a Ele como minha Rocha, meu Libertador Eterno e meu Melhor Amigo.
O élder Patrick Kearon ensinou poderosamente que “Deus está em busca incessante” de cada um de nós.21 Mas será que nós também O buscamos com a mesma intensidade? Qualquer pessoa que já tenha se apaixonado entende o que é esse tipo de amor “incessante”. Quando estamos profundamente apaixonados, não há respiração, palavra ou pensamento que não seja tomado por esse amor recém-descoberto. Temos a impressão de ouvir o nome da pessoa amada ou de vê-la em lugares onde sabemos que ela não está. Todo tempo que você passa com ou servindo a seu novo amor parece uma dádiva, não um sacrifício. Embora nosso amor por Deus não seja romântico, devemos buscar cultivar um amor por nosso Salvador que preencha todo o coração e consuma todo o nosso ser.
Em termos simples — que até um advogado pode entender —, nosso coração bombeia sangue constantemente: o sangue impuro entra, é purificado e então distribuído como sangue limpo, levando vida aos nossos órgãos. O coração é o órgão purificador do sangue vital que nossos outros órgãos precisam para sobreviver.
Como o coração simboliza nossos sentimentos, às vezes ele é visto como inconstante. Às vezes, pensamos que o coração é mole ou até fraco, e que precisa estar sob o controle da mente analítica. Mas o coração – trabalhando em conjunto com o cérebro – é uma máquina perfeitamente ajustada. Um equilíbrio complexo de processos elétricos, mecânicos e bioquímicos garante que nosso coração funcione em ritmo perfeito para nossas necessidades em constante mudança. E, assim como uma bússola, o coração não muda de direção de acordo com quem o usa — como sabem aqueles que já passaram por um transplante cardíaco. Apenas em um estado de insuficiência cardíaca é que o coração permite que o sangue impuro se misture ao sangue limpo que deve nutrir os órgãos.
O coração, como órgão que purifica o sangue, simboliza o Salvador, que é nossa fonte suprema de purificação. Nossos batimentos cardíacos constantes nos lembram que Ele está ao nosso lado em todos os momentos. O coração trabalha incansavelmente para limpar o sangue — independentemente do que colocamos em nosso corpo —, simbolizando a Expiação do Salvador, que oferece o dom da purificação a todos, sem distinção, mesmo que nem sempre aceitemos esse presente milagroso. E assim como os médicos ainda não conseguiram criar um coração artificial que funcione como o natural, também não há substituto humano para Jesus Cristo.23 Ele é o único que realiza, de forma constante e perfeita, a filtragem do pecado após o arrependimento, proporcionando limpeza imediata por meio de Sua Expiação. O coração não purifica o sangue apenas uma vez por semana — e nós também não devemos buscar a purificação de nossos pecados com tão pouca frequência.
Durante uma gravidez difícil, perguntaram-me se eu gostaria de ser mentora de uma mãe solteira refugiada. E mesmo que eu seja refugiada e tenha sido, por um tempo, mãe solteira, tenho vergonha de admitir que eu disse que não poderia servir como mentora. Mas aquela decisão não me trouxe paz ao coração. O Espírito me disse em alto e bom som que eu tinha tomado a decisão errada. Demorei dois meses, mas me arrependi — e, pela providência divina, ainda tive a oportunidade de ser mentora daquela mulher.
O nome da minha nova amiga era Speratha. Lembro-me da primeira vez que a conheci. Eu entrei em seu pequeno apartamento, limpo, porém completamente vazio. Ela não tinha colchão, mesa ou mesmo uma cadeira. Quando nos sentamos no chão para conversar, soube que ela tinha perdido quase toda a sua família no genocídio de Ruanda. Nunca esquecerei o que aconteceu em seguida. O Espírito trouxe à minha mente a lembrança do meu próprio apartamento vazio de quando eu era criança. Quando minha família imigrou do Irã para os Estados Unidos, pretendíamos ficar apenas por um ano — mas nossa decisão de nos filiar à Igreja nos fez ficar permanentemente. Deixar uma vida estabelecida no Irã em busca da liberdade nos Estados Unidos trouxe muitos desafios, inclusive um período em que não tínhamos móveis. Então, quando vi o apartamento vazio de Speratha, senti-me ligada a ela e recordei-me de quando andava de carro com meus pais, procurando colchões e móveis que as pessoas haviam descartado nas calçadas, para que pudéssemos levá-los para casa.
Naquele exato momento, enquanto cenas da minha infância vinham à mente, o Espírito sussurrou ao meu coração: “Ela é sua irmã.” Senti um amor instantâneo e profundo por ela que sei que só poderia ter vindo de Deus. Naquele momento, lembrei-me de que também havíamos escapado de um ambiente político conturbado e havíamos sido “trazidos pela mão do Senhor” aos Estados Unidos;24 e que, uma vez aqui, fomos abençoados por discípulos de Cristo que abriram o coração para nos ajudar. Naquele momento, decidi que Speratha era minha irmã – e eu disse isso a ela.25
Speratha sentiu o amor do Salvador por meio das pessoas que a amaram e a ajudaram a encher o lar de móveis e a cozinha de utensílios essenciais. Com o passar dos anos, essa rede de amor elevou seu ânimo e lhe deu uma nova família. Durante a pandemia, temi que ela não conseguisse mais sentir nosso amor e apoio, e senti que seu coração precisava de um amor mais duradouro e mais perfeito. Então, inscrevi-a anonimamente no aplicativo de namoro Mutual. Brincadeira! Na verdade, entrei em contato com os missionários e pedi que a ensinassem sobre Jesus Cristo. Depois de sete meses de estudo e oração, Speratha decidiu ser batizada. Seu coração foi transformado quando ela se tornou uma discípula de Cristo. E tudo isso só foi possível porque eu me arrependi, e o amor de Deus encheu primeiro o meu coração — e depois o dela.26
Às vezes, adiamos o arrependimento como se fosse algo horrível, mas ele é, na verdade, uma das partes mais doces do evangelho. Recentemente, conversei com uma mulher cujo filho estava envolvido em atividades criminosas graves, o que lhe causava profunda tristeza. Ela descreveu ter orado para que Deus ajudasse seu filho; e no dia seguinte, ele foi preso e, posteriormente, levado a julgamento. Antes da sentença, fiquei surpresa quando ela me pediu para não orar a fim de que o juiz lhe desse a pena mais leve, mas sim para que ele recebesse a pena que mais o ajudasse a mudar. Essa mãe descreveu o modo como a prisão abriu o coração do filho ao arrependimento. Ele chegou a descrever a cela em que foi colocado como um solo sagrado, por causa da transformação que viveu ali.
Dave Durocher, ex-dependente químico e ex-presidiário que ajudou a fundar a The Other Side Academy [Academia do Outro Lado] – um programa premiado baseado na fé que ajuda as pessoas a ficarem longe das drogas – expressou sua gratidão por ter sido preso e condenado, dizendo que Jesus Cristo o salvou da autodestruição.27 Quando nos arrependemos e renovamos nossa dedicação a Deus, Ele permite que Sua Expiação nos transforme.
Embora esses sejam exemplos dramáticos, todos nós precisamos da influência corretiva do arrependimento para ajustar nossa trajetória de volta a Deus. O poeta persa Rumi disse: “Tudo o que a tristeza tirar do seu coração será substituído por coisas muito melhores.”28
Penso no ministério de Cristo e no que separou aqueles que atenderam ao chamado “segue-Me”29 das pessoas que nunca saíram de casa. Estamos dispostos a deixar nossos planos e “pecados favoritos”30 para entregar a Ele todo o nosso coração?
Você já se perguntou por que, entre os cinco convênios importantes que fazemos no templo, um deles é o de abster-se sexualmente, exceto com seu cônjuge quando casado sob a lei de Deus? Eu tenho ponderado sobre isso com frequência.
Nosso impulso humano inato de encher nossos corações de amor pode ser a razão pela qual nosso Mestre Professor, que nos conhece tão profundamente, usou a analogia de uma noiva e um noivo se preparando para o casamento para representar nossa fidelidade ao Salvador.31
Eu tive três filhos incríveis antes de ter minha primeira filha. Com toda a nossa empolgação de finalmente ter uma menina na família– nós a chamamos de Joon– que, em persa, significa “meu coração, meu ser e minha alma”. Talvez por saber o significado de seu nome, durante um tempo ela dizia coisas como: “Meu coração está feliz por jogar tênis.” Ou, quando pedíamos que comesse o jantar, ela respondia: “Meu coração quer sorvete.” Em outras ocasiões, seu coração deixava muito claro que não queria ir à escola.
Alinhar nossos corações com o coração Dele envolve conhecer a nós mesmos e a Ele. Cristo disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem.”32 Sabemos que às vezes nossos corações vão desejar e sentir coisas que não estão de acordo com o que Jesus quer que sintamos ou desejemos. Essa é a natureza da mortalidade. Quando estou me sentindo impaciente ou com raiva, orar para sentir o amor de Deus ou ouvir uma música de adoração me ajuda. Se estou me comparando com os outros ou sentindo inveja, sei que preciso abrir as escrituras ou ouvir um discurso da conferência geral. Esses atos simples me ajudam a desenvolver a humildade que preciso para me sentir mais perto Dele.
Será que o seu coração deseja ser um com Jesus Cristo?– E somente com Ele?
A intimidade e a lealdade que prometemos quando nos casamos são semelhantes à fidelidade que nosso Salvador deseja de nós.
Na parábola das dez virgens, Cristo é o noivo, e a metade das virgens não está preparada e não pode encontrá-Lo. Todos nós somos convidados a nos enxergar como essas mulheres. Aqueles de nós que não estão comprometidos e não enchem nossas lâmpadas com azeite não podem se juntar a Ele para a festa de casamento.33 Eu não imagino que seja porque Jesus nos proíba de nos juntar a Ele, mas, assim como em um casamento, quando nos falta fidelidade ao nosso cônjuge e colocamos os outros em primeiro lugar, nos falta a intimidade para prosperarmos no casamento e estar totalmente unidos.
Em um casamento, não há espaço para segredos; deve haver transparência. Da mesma forma, em nosso relacionamento com Cristo, não há nada a esconder. Ele conhece nossos corações, nossos segredos e todos os nossos pecados preferidos e, ainda sim, Ele nos ama. Ele nos ama tanto que nos convida a vir e ser purificados de nossos pecados para que possamos sentir Seu amor sem reservas. O Senhor nos convida: “Vinde agora, e arrazoemos juntos: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve.”34
Antes de eu nascer, minha mãe teve um sonho: viu dois corações dourados entrelaçados. Antes da época das ultrassonografias, ela já sabia que seu terceiro bebê seria outra menina. E ela tinha razão! Penso nessa bela imagem de dois corações entrelaçados e sei que é isso que busco alcançar com meu Salvador. Será que meu coração está ligado ao Seu sagrado coração? Ou será que eu permiti que alguém ou algo interferisse no meu vínculo eterno com Ele?
Um coração voltado para a eternidade não muda seu curso imutável por causa da hora tardia, do encanto da tentação ou das normas culturais em constante mudança. Quando Deus é o nosso maior amor, torna-se muito mais fácil sermos fiéis às Suas leis. E nosso amor por Ele nos motiva a ser castos antes e durante o casamento como um sinal de nossa obediência e devoção.
Jesus disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração.”35 Para entregar todo o nosso coração a Deus, precisamos agir como Ele agiu — e não reter nada daquilo com que o Senhor nos abençoa.36
Quando eu era estudante da BYU, tive a oportunidade de fazer um estágio na África do Sul. Era 1999, e Nelson Mandela era o presidente da África do Sul. Ele era um líder internacional reverenciado por seu papel em pôr fim ao apartheid após vinte e sete anos de prisão, e admirado no mundo todo por ter nomeado para seu gabinete membros do antigo governo do apartheid, os mesmos que o haviam perseguido.
Eu sonhava em um dia conhecer o presidente Mandela. Então, enquanto morava lá, eu casualmente mencionei isso para minha “mama” sul-africana, que me informou que naquele fim de semana ele estaria visitando a casa dele, que ficava a apenas algumas horas de onde morávamos. Então, eu e meus amigos da BYU pegamos um micro-ônibus e fomos até a casa do presidente da África do Sul. Por mais improvável que pareça, a história fica ainda mais inacreditável quando digo que estávamos vestidos com calças cargo e sapatos de trilha, e que eu estava tentando deixar o cabelo em dreadlocks; para fazer isso, eu tingi meu cabelo com um tom de loiro melhor descrito como “juba de leão”.
Lá estávamos nós — vestidos de maneira informal e chegando sem convite à casa de Nelson Mandela, o atual presidente da África do Sul e um dos maiores estadistas de todos os tempos. O presidente Mandela estava visitando sua terra natal para enterrar novamente um de seus filhos, que havia falecido enquanto ele ainda estava preso.
Notamos que uma tenda enorme tinha sido montada para acomodar os muitos convidados ilustres. Dissemos aos seguranças do lado de fora o motivo da nossa vinda; esperávamos ser recusados, mas os seguranças desapareceram por alguns minutos. Pouco depois, o próprio presidente Mandela caminhou até a entrada da garagem, vestindo uma camisa preta com um cravo vermelho na lapela, acompanhado de sua esposa.
Nunca esquecerei a maneira como ele nos tratou. Ele nos cumprimentou com um sorriso genuíno, olhou para cada um de nossos rostos ansiosos, apertou nossas mãos, perguntou nossos nomes e o que cada um de nós estava estudando, e fez questão de nos apresentar à sua esposa. Depois que todos nós tivemos a oportunidade de conhecê-lo – e apesar das nossas roupas totalmente inadequadas – ele nos convidou para sentar à sua mesa para jantar. Reconhecendo a importância da ocasião, não nos sentimos confortáveis em aceitar o convite. Mas o sacrifício que observei do presidente Mandela mudou minha vida.
Testemunhei um presidente poderoso e estimado que não se via acima de um grupo de jovens intrusos. Ele não nos disse para voltar quando estivesse livre. Ele não julgou nossas roupas. Pelo contrário, ofereceu generosamente o seu tempo e se dispôs a sentar-se conosco à sua mesa de honra. O ato de um presidente tirar um tempo de sua própria tristeza e de seus convidados honrados para demonstrar amor a um bando de estranhos é uma expressão abundante de consagração cristã.
A mensagem de C. S. Lewis no livro Cristianismo Puro e Simples desafia meu pensamento sobre a consagração:
Temo que a única regra segura seja de dar mais do que sobra. Em outras palavras, se as nossas despesas com conforto são equivalentes ao padrão comum entre os que ganham o mesmo tanto que nós, provavelmente estamos dando muito pouco. . . . Então deve haver coisas que gostamos de fazer, mas não podemos por causa das nossas despesas com caridade.37
Nosso Salvador entregou todo o Seu coração por cada um de nós, e Deus nos abençoou com todo o conforto que desfrutamos. Quando consagramos nosso coração a Ele, torna-se um privilégio dedicar nosso tempo, talentos e recursos à edificação de Seu reino.
Neste ponto, se alguns de vocês forem como eu era na época de estudante, talvez estejam aí com uma caneta na mão, esperando eu chegar na parte prática. Eu vim com dois truques – ou ouso dizer “colinhas” – para ajudá-los a entregar todo o seu coração a Ele quando estiverem irritados e sem forças para amar, quando se sentirem menos divinos ou quando estiverem estressados e a paz parecer fora de alcance.
Quando me casei com meu marido, Ryan, brigávamos muito durante os primeiros seis meses de casamento. Por razões que eu ainda não entendo, ele foi incapaz de reconhecer que eu estava certa em todas as minhas opiniões. Depois de uma discussão intensa, Ryan teve um pensamento inspirado. E se fôssemos ao templo uma vez por semana juntos?
Hesitei. Nenhum de nós havia frequentado o templo com tanta frequência antes. Tínhamos carreiras desafiadoras e uma família jovem. Mas no meu coração eu sabia que isso nos ajudaria, então concordei.
É difícil descrever o impacto duradouro que a decisão de frequentar o templo regularmente teve em nosso casamento e em nossa vida.38 Durante aquele primeiro ano, houve muitas vezes em que entramos no templo sem nos falar. Mas, ao sairmos, estávamos de mãos dadas, pedindo desculpas um para o outro. O templo abrandou nosso coração e abençoou nossos filhos. Os convênios que fizemos no templo diminuíram nossa ansiedade. O templo nos ajudou a “pensar celestial”39 e a perceber que nossas divergências eram insignificantes no esquema eterno.
O Espírito sussurrou muitas coisas ao meu coração. Senti o amor de meu Pai Celestial. Cada vez que fui lavada e ungida na Casa do Senhor, senti que era uma filha real de Deus, imensamente amada, e que havia sido perdoada por minhas imperfeições. Senti-me empoderada como mulher na Igreja de Deus toda vez que testemunhei minhas irmãs realizando ordenanças sagradas do sacerdócio na Casa do Senhor.40 Vivenciei profundamente o que o profeta ensinou amorosamente: minha identidade mais importante é ser uma filha de Deus, uma filha do convênio e uma discípula de Jesus Cristo.41
O élder Dale G. Renlund ensinou que “todos os dias devemos suplicar a Deus ‘com toda a energia do coração, para que [sejamos] cheios desse amor’.”42
Agora, oito anos desde que meu marido e eu começamos a frequentar o templo semanalmente, enquanto penso nas mudanças dramáticas em minha vida, incluindo entrar no Instituto Wheatley na BYU, entrar nas redes sociais para falar sobre Jesus e até mesmo receber o milagre de um bebê aos quarenta anos, sei que todas essas bênçãos vieram por causa do tempo que passei em Sua Casa. De fato, o presidente Russell M. Nelson ensinou que “fazer um convênio com Deus muda nosso relacionamento com Ele para sempre”.43
Deus sabia que não poderíamos dar todo o nosso coração a Ele neste mundo decaído sem ajuda, então Ele nos deu templos – lugares na terra onde podemos acessar livremente o Seu amor. Quando passo uma semana inteira sem ir ao templo, sinto-me esgotada. Mal posso esperar para encher-me do amor do Senhor.44 A presidente Emily Belle Freeman testemunhou: “Cada vez que entro em Sua casa, vivencio um relacionamento por convênio mais profundo com Ele”.45
Ao longo das escrituras, Jesus Cristo nos instrui a não temer – e, muitas vezes, logo depois Ele acrescenta: “Porque Eu estou contigo”.46 Quando abraçamos o amor de Deus regularmente em Sua casa, nossos corações são ligados ao Dele e somos abençoados com Sua paz constante.
E, para minha segunda dica, outro dom de Deus: como americanos, para mostrar gratidão e amor ao país, colocamos a mão em nosso coração quando ouvimos nosso hino nacional. Sentir aquele batimento cardíaco constante com a mão é reconfortante. Uma maneira que encontrei de acalmar rapidamente uma criança pequena quando não posso abraçá-la, é colocar minha mão sobre o seu coração.47
Deus nos deu uma forma de sentir um abraço duradouro do céu quando saímos de Sua Casa: vestir o garment do santo sacerdócio. Nossos corações são física e metaforicamente cobertos por nosso Salvador, Jesus Cristo. Portanto, quando não podemos estar no templo, usar o garment sagrado nos lembra de Seu amor por nós, de Sua Expiação que cobre nossos pecados e da firmeza de Seu poder que nos protege do adversário.
Recentemente, uma amiga contou que estava orando para compreender melhor seus convênios e ficou em dúvida se deveria ou não usar o garment enquanto fazia uma caminhada com uma amiga. Ela poderia facilmente ter justificado não usá-lo, já que estava se exercitando, mas decidiu vesti-lo mesmo assim.48 Durante a caminhada, encontraram um vizinho que a tratou de forma extremamente rude — talvez como ninguém jamais a havia tratado antes. Ela relatou que, de modo incomum, foi capacitada naquele momento para responder com amor em vez de se defender, algo que ela reconheceu como um dom divino vindo de sua decisão de usar as vestimentas naquele dia.
Nossos garments cobrem nosso peito – nossos corações pulsantes – com os símbolos sagrados e compromissos solenes que fazemos ao tomar sobre nós o nome de Jesus Cristo. Como a irmã J. Anette Dennis ensinou, ao “usar o garment do santo sacerdócio, minha vida pode se tornar um símbolo pessoal de meu amor e minha gratidão profundos por meu Salvador, Jesus Cristo, e de meu desejo de tê-Lo sempre ao meu lado.”49
Alguns de vocês podem estar se sentindo indignos ou ocupados demais para ir ao templo. Talvez simplesmente ainda não tenham desenvolvido um amor pelo templo. Nosso profeta sabiamente instruiu: “Se vocês ainda não amam ir ao templo, frequentem-no mais, não menos.”50 Se vocês acham que não são dignos, basta enviarem uma mensagem para seu bispo agora e marcar uma entrevista.51 Deus quer que todos nós estejamos em Sua casa.52 O élder Neil L. Andersen prometeu que “ao se achegarem ao Salvador com um coração quebrantado e um espírito contrito, Ele não apenas os purificará do pecado, mas fortalecerá sua capacidade de resistir a ele e o tornará totalmente repugnante aos seus olhos”.53
Qualquer culpa que vocês sentirem por um pecado que precisam abandonar vem do Espírito, mas qualquer vergonha que sentirem depois de terem se arrependido, por favor, saibam que ela vem de Satanás. Seja qual for a vergonha que Satanás esteja colocando em seu coração, lembrem-se de que Jesus a venceu. Satanás se deleita em um coração atribulado e fará tudo o que puder para nos impedir de acessar o poder da Expiação de Cristo. Então, frequentem o templo — ou, se tiverem o dom do garment sagrado, vistam-no — e mostrem para Satanás que seus corações já têm dono.
Quando penso no amor de nosso Salvador por nós, penso em uma bela tradição persa. Há uma expressão, ghabel nadare, que significa: “não é equivalente a você.” Ela é usada em contextos muito improváveis. Por exemplo: sua amiga compra uma bolsa nova, e você diz que a achou linda; ela responde: “Ghabel nadare” — oferecendo-a a você, porque o valor do presente é muito mais baixo do que o valor da amizade. Ou até quando você termina uma corrida de táxi e pergunta o preço, o motorista pode dizer: “Ghabel nadare — não há nada equivalente a você.” E você fica confuso, porque precisa pagar, e ele insiste: “Não há nada equivalente a você.” No final, você pode apenas agradecê-lo e pagar o valor aproximado da viagem para que possa sair do carro.
Essa prática cultural se baseia em uma verdade profundamente bela. Ao descrever Seu cuidado por todos os aspectos de nossas vidas, Cristo explicou que Deus cuida até mesmo de um passarinho que cai no chão e disse “mais valeis vós do que muitos passarinhos”.54 Não há nada equivalente a você. Nenhum objeto nesta terra ou nenhuma posse humana se compara ao seu valor. Seu Salvador o ama. Ele caminha ao seu lado e sustenta o seu coração nos momentos difíceis. Ele conhece suas dores, suas fraquezas, e até mesmo seus pecados favoritos, e ainda assim traz você para mais perto, porque não existe ninguém nem nada que se compare a você.
Você é uma filha ou filho único de Pais Celestiais, com um coração que bate em seu peito de sessenta a cem vezes por minuto, purificando o sangue impuro — um lembrete constante do poder purificador do Salvador, disponível com a mesma frequência para purificá-lo do pecado.
Que nos lembremos de que Ele nos cobre quando usamos conscientemente nossos garments. Que possamos unir nosso coração ao Dele com ardente devoção, e com a mesma exatidão com que Ele mantém nosso coração batendo fielmente. E que nos lembremos de buscar Seu amor em Sua santa casa, para que possamos dar a Ele todo o nosso coração. Oro em Seu sagrado, constante e eterno nome, Jesus Cristo. Amém.
© Brigham Young University. Todos os direitos reservados.
54. Mateus 10:31.

Shima Baughman, professora da Faculdade de Direito da BYU e membro de destaque do Wheatley Institute, proferiu este discurso no devocional do dia 1 de outubro de 2024.