Devocional

Uma casa de glória

Professor de Filosofia na Universidade Brigham Young

5 de março de 1972

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Agora temos um templo em Provo. Muitos de vocês foram tocados, ainda que de forma sutil, pela onda da dedicação do Templo. Nós consagramos o óleo, por assim dizer. Agora é hora de administrarmos. E eu gostaria de testificar sobre algumas das gloriosas promessas que foram feitas e de algumas necessidades essenciais da alma que essas promessas visam responder. 

Deixem-me começar com uma história que é familiar para alguns de vocês. Ela remonta à dedicação de outro templo, o Templo de Salt Lake, que vocês sabem que levou quarenta anos para ser construído. O Presidente McKay conta a história de um homem que não tinha dinheiro nem mesmo para comprar sapatos a fim de assistir a uma conferência no Tabernáculo. Durante a conferência, Brigham Young levantou-se e suplicou aos irmãos que trouxessem mais granito da pedreira, situada a cerca de 24 quilômetros ao sul. Eles o transportavam principalmente com carroças puxadas por bois. Um homem saiu da conferência e viu o outro irmão na rua com uma junta de bois. “Por que você não estava lá, irmão?” “Ah… meus pés. Não me senti bem em ir”. “Bem, o irmão Brigham suplicou que mais pessoas fossem buscar granito.” “Tudo bem”, disse o irmão, “eu vou”. Ele tocou os bois e começou sua jornada.

Cada pessoa é um templo

Os olhos do Presidente McKay encheram-se de lágrimas diante daquele simples acontecimento. A razão pela qual seu nome e sua imagem vêm à minha mente sempre que penso em templos é porque foi o Presidente McKay quem realizou minha cerimônia de casamento com minha esposa, Ann – e esse privilégio sagrado só foi possível porque ele havia feito o mesmo para os pais de Ann. Ele chegou muito cedo naquela manhã de junho, em seu terno branco, gravata branca e cabelos brancos – vocês conhecem a majestade de sua personalidade. De alguma forma soubemos (caso algum dia tivéssemos duvidado), que ninguém poderia estar certo ao falar mal do templo, pois ali diante de nós estava o seu fruto.

João, o Revelador, que acredito ter sido também João, o Amado, ao vislumbrar a cidade de Jerusalém em estado glorificado, disse: “E nela não vi templo, porque (…) o Cordeiro [era] o seu templo”. E então ele acrescentou que não só o Cordeiro reinaria para sempre, como cantamos, mas nós, tendo sido glorificados como Ele, também reinaríamos para todo o sempre.

O templo e o poder

O Templo de Salt Lake foi dedicado com um senso de sacrifício e gratidão que talvez ainda não tenhamos compreendido plenamente. Foram quarenta anos! Vinte mil pessoas se reuniram apenas para ver a colocação da pedra angular. E Lorenzo Snow, um dos Doze naquela altura, conduziu-os no brado de hosana que agora é familiar para vocês. E então Wilford Woodruff – que havia sonhado anos antes que, de alguma forma, estaria envolvido na dedicação daquele templo (e esteve, pois era o Presidente da Igreja) – prometeu que uma obediência rigorosa aos requisitos de dignidade não seria imposta, contanto que as pessoas viessem banqueteando-se espiritualmente e arrependendo-se. (Isso não foi um erro de expressão, pois em revelação moderna o Senhor explica que jejum e oração – embora em certos contextos estejam ligados ao luto – significam, na verdade, regozijo e oração. Jejuar é banquetear-se com o Espírito; e, de alguma forma, abster-se de alimento físico por si só não é suficiente. O jejum é uma espécie de concentração, uma forma de reunirmos nossas forças).

Bem, cerca de oitenta mil pessoas, durante um período de vinte e três dias de sessões dedicatórias, com uma média de duas mil pessoas em cada sessão, foram renovadas espiritualmente. A anotação do presidente Woodruff em seu diário, no final daquele ano de 1893 foi: “O maior evento de 1893 foi a dedicação do grande Templo de Salt Lake. Grande poder se manifestou naquela ocasião” (Mathias Cowley, Wilford Woodruff [Salt Lake City: Deseret Book News Press, 1909] pp. 584).

A expressão das escrituras que resume tudo isso – que devemos receber nos templos, por meio dos templos, a partir dos templos – é “poder do alto” (Ver D&C 95:8). Cristo é a fonte desse poder. O templo é Dele; e cada símbolo dentro e fora dessa estrutura sagrada aponta para Ele e, como um copo carrega água, o templo transmite o Espírito de Jesus Cristo.

Agora – para ser específico em termos de necessidades que todos nós sentimos fortemente em nosso tempo – é um fato característico que o Senhor ordenou o sacrifício da construção de templos justamente em épocas quando, aparentemente, nosso povo estava menos apto a construí-los; e o sacrifício foi imenso. Mas o sacrifício “traz bênçãos”.

(Vocês talvez se lembrem que na década de 1830, as autoridades gerais continuaram perguntando. Eles não tinham nossa herança, e eles nem mesmo entendiam o que a palavra templo significava. Eles continuaram perguntando: O que estamos fazendo? Bem, estamos construindo um templo. Para quê? E Joseph Smith lhes disse em uma ocasião: “nem mesmo Gabriel poderia explicar de modo que vocês entendessem agora.” Mas preparem-se, disse ele, pois grandes bênçãos virão (Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith, p. 91).

E, ainda assim, em uma revelação preparatória (D&C 88), os propósitos do templo são delineados. É chamada de casa de oração, casa de jejum, casa de estudo, casa de aprendizado, casa de glória e casa de Deus. Preparai-vos, diz, “Santificai-vos (…) e Ele desvendará Sua face [para vós]” (D&C 88:68).

Vamos falar sobre cada um desses propósitos por um momento.

Uma casa de oração

Uma casa de oração. “Familiarizem-se”, disse o profeta certa vez, “com aqueles homens que, como Daniel, oram três vezes por dia em direção à casa do Senhor” (HC, Vol. 3, p. 391). Há um princípio verdadeiro em literalmente voltar-se para a casa de Deus ao orar e ao louvar ao Senhor. O Profeta, ao conduzir um grupo de santos fiéis pelo Templo de Nauvoo ainda inacabado (ele não viveu para vê-lo concluído), disse-lhes: “Vocês não sabem como orar e ter suas orações respondidas.” Mas, como testemunha a irmã que anotou aquela breve afirmação, ela e seu esposo receberam as bênçãos do templo e, então, compreenderam o significado de suas palavras. Um líder moderno em nosso meio, Melvin J. Ballard, aconselhou certa vez a um grupo de jovens sobre como resolver seus problemas: estudem o assunto em suas próprias mentes, cheguem a uma conclusão e então levem-na ao Senhor; Ele lhes dará uma resposta por meio daquele ardor no peito, e se vocês não receberem a resposta, eu lhes direi para onde ir: vão à Casa do Senhor. Vão com o coração cheio de desejo de cumprir o seu dever. Quando estiverem dentro das paredes sagradas desses edifícios, onde têm direito ao Espírito do Senhor, nos momentos de silêncio, a resposta virá” (Utah Genealogical & Historical Magazine, outubro de 1932, Vol. 23, p. 147).

Para compreender melhor as experiências pessoais por trás dessa declaração, vocês descobrirão que, na infância do Élder Ballard, ele frequentemente olhava para o Templo de Logan e para suas torres, e era inspirado por elas, e queria entrar dignamente, independentemente do custo. Isso significava que ele nunca sequer foi tentado a quebrar a Palavra de Sabedoria, porque sabia que isso poderia impedi-lo de entrar naquele edifício. Sei que suas experiências posteriores, muitas delas relacionadas ao seu ministério, derivaram muitas vezes do que ele sentiu, viveu, e experimentou dentro das paredes daquele santuário.

Se me permitem ser pessoal, em um ano decisivo longe de casa, enquanto estudava em Los Angeles, eu às vezes dirigia até o local onde nos diziam que um dia haveria um templo — ainda não construído — apenas pelo sentimento de que aquele lugar poderia me dar mais força na oração. E foi isso que aconteceu.

Uma casa de aprendizado

“Uma casa de oração, uma casa de jejum, uma casa de estudo, uma casa de aprendizado.” Um dos homens que tocou minha vida foi o falecido Élder John A. Widtsoe, um homem que se formou com honras em Harvard depois de três anos em vez de quatro, e que, naquele último ano, recebeu um prêmio pela grande profundidade de sua especialização na área da química; mas eles também deram, naquele mesmo ano, um prêmio para o aluno que demonstrou a maior amplitude de interesses – prêmio que ele também recebeu. O irmão Widtsoe escreveu de maneira perspicaz sobre o templo e a adoração no templo. Ouvi-o dizer em circunstâncias sagradas que uma promessa lhe foi feita por um patriarca quando ele era apenas um menino na Noruega: “Terás grande fé nas ordenanças da casa do Senhor.” E ele de fato teve. Ouvi-o dizer que o templo é tão carregado de compreensão profunda, tão repleto de compreensão simbólica da vida e de seu significado eterno, que apenas um tolo tentaria, em uma mera reformulação prosaica, transmiti-lo de forma abrangente. Ouvi-o dizer que o templo é um lugar de revelação. E ele não dissociava esse conceito do fato de que os problemas que enfrentamos são frequentemente muito concretos, muito reais, próprios do dia-a-dia. Ele sempre dizia: “Prefiro levar meus problemas práticos para a Casa do Senhor do que para qualquer outro lugar.” E em seu livro In a Sunlit Land [Em uma terra iluminada pelo sol], ele descreve um dia em que, tendo ficado frustrado por meses ao tentar organizar uma massa de dados que ele havia compilado para chegar a uma fórmula, ele levou sua esposa, ao Templo de Logan para esquecer seu fracasso. E em uma das salas daquela estrutura, veio, em luz, a resposta que até então não havia encontrado. Dois livros sobre química agrária surgiram a partir dessa única percepção – uma revelação no templo de Deus. O templo não é apenas uma conexão entre o céu e a Terra. Ele é a chave para o nosso domínio sobre a terra. É o curso de pós-graduação do Senhor em como subjugar a terra que, como somente nós entendemos, será, em última instância, o próprio céu – uma terra glorificada.

Uma casa de aprendizado? Sim, e aprendemos mais do que apenas sobre a terra. Aprendemos sobre nós mesmos. Passamos a compreender mais profundamente, em um ambiente que nos envolve como um manto, nossa própria identidade, algo das raízes que não conseguimos acessar plenamente pela memória, mas que, mesmo assim, estão acumuladas em nosso eu mais profundo – uma memória infinita de condições que antecedem a memória. O templo é o catalisador pelo qual o eu é revelado a si mesmo. Houve um período em que, como secretário da Estaca Ensign, eu era obrigado a ir todas as sextas-feiras ao templo. Não era um fardo, como eu pensava que seria. Pelo contrário, tornou-se a minha alegria. Lentamente, por causa dessa regularidade, me confiaram certas designações no templo. Isso significava que eu podia entrar no anexo do templo e todos diziam: “Bom dia, irmão Madsen”; sem que eu sequer precisasse mostrar minha recomendação. Não só isso, também tive o privilégio de me sentar durante horas na capela do anexo ou em outros locais, em contemplação, lendo ocasionalmente, mas tentando absorver, tentando respirar o ar que ali é mais denso do que o ar comum. Lá, eu meditava sobre meus problemas críticos – que envolviam decisões sobre a carreira que eu deveria seguir, sobre a moça com quem eu deveria me casar e sobre outras lutas de como lidar com a vida. Houve, testifico, momentos em que aprendi algo sobre mim mesmo; houve momentos em que a paz veio em uma decisão, e eu soube que essa paz era de Deus.

“Minha glória lá estará e minha presença lá estará”

O templo é uma casa de aprendizado. E o propósito é que nele não só aprendamos de ou sobre Cristo, mas que venhamos a conhecê-lo. Sempre me impressionou o fato de que, na Versão Inspirada [Tradução de Joseph Smith], a passagem clássica sobre a próxima vida – onde muitos dirão: “Senhor, Senhor, não fizemos isto e aquilo?” é apresentada de forma mais adequada do que na Versão do Rei Jaime. A versão do Rei Jaime diz que Cristo responderá: “Nunca vos conheci.” Já a versão inspirada traduz: “Você nunca me conheceu”. Este é o evangelho de Jesus Cristo. Esta é a Igreja restaurada de Jesus Cristo. Esta é a Igreja que nos ensina que podemos ter um relacionamento vivo, direto e imediato com o Cristo Vivo. E notem que na fachada de cada templo encontramos esta inscrição: “Santidade ao Senhor: A Casa do Senhor”. Ele nos disse – e não colocou nenhuma restrição quanto à preparação – que “todos os puros de coração que nela entrarem verão a Deus”. Orson Pratt ressalta que essa promessa se relaciona especificamente com um templo ainda não construído – um templo a ser erguido na cidade central, a Nova Jerusalém, onde um dia Cristo realmente habitará; e onde qualquer um que entrar O encontrará. Mas, novamente, o irmão John A. Widtsoe, o irmão George F. Richards, o presidente Joseph Fielding Smith e outros prestaram testemunho de que a promessa é mais extensa do que isso; e que ela se aplica agora. É uma promessa de que podemos ter uma comunhão maravilhosamente rica com Ele. Comunhão! Isso significa que não estamos apenas aprendendo proposições sobre Ele, mas que estamos em uma consciência participativa com Ele.

Às vezes, em nossas tentativas amadoras de pesquisa sobre a história da Igreja, lutamos para entender que tipo de retrato, em termos de mera aparência física, poderíamos compor de Cristo se simplesmente utilizássemos o que as testemunhas modernas disseram sobre seus vislumbres Dele. É um retrato impressionante. Mas talvez algo que por vezes negligenciamos, em meio a essa curiosidade, seja a busca de uma consciência de sua personalidade, daquelas realidades mais sutis que já reconhecemos em outras pessoas, em todas as suas variações, mas que foram aperfeiçoadas Nele. Como seria estar em Sua presença, não simplesmente em termos do que você veria, mas do que sentiria? “Ouçam”, diz Ele, para nos dar um vislumbre – e essas passagens foram incluídas por nosso profeta na recente oração dedicatória do Templo de Provo – “aquele que está pleiteando vossa causa perante [o Pai], dizendo: Pai, contempla os sofrimentos e a morte daquele que não cometeu pecado [isto é, que não cometeu pecado nenhum, mas que os conhece, pois experimentou a tentação de todos eles], em quem te rejubilaste; contempla o sangue de teu Filho, que foi derramado, (…) Portanto, Pai, poupa estes meus irmãos” (D&C 45:3–4). Esse é um vislumbre da compaixão que se sente na comunhão — o sentir com, o sentir por — que Ele possui. Ele é a única Pessoa — se não houver outras (e ouso dizer que, para muitos de nós, chegará o momento em que sentiremos que não existe nenhuma outra) — sobre quem jamais se poderá afirmar, de forma verdadeira: “Você não me conhece. Você não me entende. Você não se importa comigo.” Por causa do que Ele passou, todas as três declarações seriam eternamente falsas. E ele requereu de nós o sacrifício para construir casas sagradas onde a ligação de seu coração, suas “entranhas de compaixão”, pode se fundir à nossa.

O templo é um lugar onde aprendemos a conhecê-Lo.

Uma casa de glória

E agora a frase “uma casa de glória, uma casa de Deus”. Um dos momentos mais ternos da minha vida espiritual foi o dia em que uma mulher, Rose Wallace Bennett, autora de The Sheaf Gleaner, me disse que, ainda pequena, estava presente na dedicação do Templo de Salt Lake. Ela também descreveu o dia do aniversário de Wilford Woodruff — seu nonagésimo aniversário — quando ela, uma pequena menina, teve o privilégio de levar-lhe, no Tabernáculo, noventa rosas em meio a cerca de oito mil crianças entre oito e doze anos, todas vestidas de branco. Elas haviam se reunido para homenageá-lo; e então, quando ele entrou no prédio (sob o pretexto de que havia necessidade de um reparo de órgão), elas se levantaram e cantaram: “Graças Damos, ó Deus, por um Profeta”. Sempre que ela falava sobre esses momentos — ver as lágrimas do profeta ou estar no templo — ela própria começava a chorar. Mas o que ela me disse foi: “Ainda jovem, meu pai me levou até a beira do cânion City Creek, onde podíamos olhar para o templo. Testifico a vocês que havia uma luz ao redor do templo, e não era devido à eletricidade.”

Podemos encontrar os seguintes termos em toda a literatura autêntica que tem a ver com dedicações de templos: “luz”, “glória”, “poder”. Mesmo os que não eram membros da Igreja em Kirtland correram até o local, perguntando-se o que havia acontecido. Eles pensavam que o prédio estava pegando fogo. E estava; mas com o que o Profeta chamou de “ardores celestiais”, o fluxo do poder do Deus vivo, tal como a chama circundante do dia de Pentecostes. O Profeta e seu pai haviam pedido isso em oração, e ela foi atendida (D&C 109:36–37).

O que é glória? Bem, nas escrituras ela é muitas coisas. Mas há um aspecto de significado que muitas vezes é negligenciado. Se pudermos confiar em um estudante de hebraico, a palavra hebraica equivalente a glória, Kabod, refere-se, em alguns de seus sentidos, à presença física. Assim como uma pessoa diz em linguagem comum hoje, “Ele estava lá em toda a Sua glória”, assim o Velho Testamento muitas vezes usa essa palavra para Deus. No Salmo que se refere à glória (Salmo 8) há duas mudanças que são cruciais. A Versão do Rei Jaime diz: “Pois pouco fizeste [o homem] menor do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste”. Provavelmente o que aquele versículo disse originalmente foi: “Fizeste [o homem] um pouco menor do que os Deuses, e o coroaste com um corpo físico e com honra.” Esta é a verdade. O corpo está um degrau acima nas escalas de progressão, não um degrau abaixo. Deus é Deus porque Ele é gloriosamente encarnado; e se Ele não fosse encarnado assim, Ele seria menos do que Deus. O privilégio da casa de Deus é, em essência, ter nossos seres físicos em harmonia com nossa personalidade espiritual. E eu li, mas não posso citar perfeitamente, apenas parafrasear, o testemunho do presidente Lorenzo Snow no sentido de que esse é o único caminho – repito, o único caminho – pelo qual o conhecimento contido em nosso espírito pode se tornar parte dessa carne; assim ocorre aquela união inseparável, aquela fusão, que torna possível a ressurreição celestial. É como se — para usar uma metáfora diferente — na casa de Deus, nos fosse dada uma bênção patriarcal para cada órgão, atributo e poder de nosso ser, uma bênção a ser cumprida neste mundo e no próximo, chaves e percepções que nos capacitam a viver uma vida piedosa em um mundo muito mundano, protegidos, sim – até mesmo isolados – dos venenos e distorções que estão por toda parte.

Esse é o templo. E a glória de Deus e Sua perfeição suprema são duplicadas em nós no templo, desde que cheguemos lá com uma atitude receptiva.

Sobre a preparação

Permitam-me fazer algumas observações sobre como estar receptivos. Uma vez, em Los Angeles, ao ouvir o apelo do presidente McKay, cada presidente de estaca, um após o outro, se comprometeu a contribuir para a construção do Templo de Los Angeles. Eles se comprometeram. E então ele se levantou e proferiu um discurso magistral — talvez o maior que já ouvi sobre o assunto dos templos. Em taquigrafia, anotei um parágrafo que vou citar, mas antes de fazê-lo, deixem-me dar esta explicação. Ele falou de uma menina — que, como descobri mais tarde, era sua sobrinha e, por isso, confiava nele para se abrir. No início daquele ano, ela tinha sido iniciada em uma fraternidade, e não muito tempo depois ela tinha “passado pelo templo” (como dizemos). Eu gostaria que a expressão “passar pelo templo” pudesse ser melhorada. Gostaria que pudéssemos, de alguma forma, falar sobre o templo “passando por nós”. Gostaria que meus filhos não tivessem ficado confusos — culpa minha — quando minha esposa e eu costumávamos dizer: “Vamos fazer selamentos.” Eles pensavam que iríamos pegar uma escada e um balde. É uma espécie de ativismo mórmon falar sobre “trabalho do templo”. É claro que faz sentido dizer que é um trabalho; mas raramente falamos de “adoração no templo”, que pode nos levar de volta ao nosso trabalho, transformados.

Um homem de Deus disse certa vez, no templo, em minha presença: “Pergunto-me se os mortos são tão abençoados quanto os vivos pelo templo.” Fico impaciente com pessoas que são impacientes no templo. Fico angustiado quando alguém se senta atrás de mim com um cronômetro e fica dizendo: “Eles estão cinco minutos atrasados. Vamos! Vamos! Vamos!” Será que não pode haver ao menos um lugar onde possamos ir, deixar o relógio de lado, alegrar-nos até com os atrasos e simplesmente receber o que o Senhor preparou para nós?

Bem, naquela ocasião em Los Angeles, o presidente McKay interrompeu a todos dizendo: “Essa moça me procurou. Ela havia tido ambas as experiências, mas disse que tinha ficado muito mais impressionada com sua fraternidade.” Nós suspiramos, assim como vocês. O presidente McKay era mestre na pausa dramática. Ele deixou aquele silêncio durar um minuto e então disse: “Irmãos e irmãs, ela ficou decepcionada com o templo. Irmãos e irmãs, eu fiquei decepcionado com o templo.” Mas então ele completou a frase. “E vocês também.” Então ninguém suspirou. Ele prendeu nossa atenção. “Por quê?” — ele perguntou. E então ele listou algumas coisas. Não estávamos preparados. Como poderíamos estar plenamente? Tínhamos estereótipos em nossas mentes, expectativas equivocadas. Não conseguíamos distinguir o símbolo daquilo que era simbolizado. Não éramos dignos o suficiente. Estávamos muito inclinados a responder de forma negativa e crítica. E ainda não havíamos amadurecido espiritualmente. Essas são minhas palavras, mas transmitem o que ele disse. Agora lhes darei a citação literal.

Ele disse: “Irmãos e irmãs, acredito que são poucos” — e lembro-lhes de que era um homem de oitenta anos de idade, que havia estado no templo todas as semanas durante uns cinquenta anos, o que lhe dava, pensei eu, algum direito de falar — “acredito que são poucos, até mesmo entre os oficiantes do templo, que compreendem plenamente o significado e o poder da investidura do templo. Vista pelo que realmente é, trata-se de uma ascensão gradual, passo a passo.” (Faço uma pausa para lembrá-los das duas dimensões: assentir — isto é, concordar, consentir, fazer convênio; mas também ascender — isto é, elevar-se, subir.) É a ascensão gradual para a Presença Eterna. Se nossos jovens pudessem vislumbrar isso, seria a motivação espiritual mais poderosa de suas vidas.”

Quando ele disse isso, eu senti esse poder. Eu mesmo tinha sido um crítico; tinha decidido que algumas coisas eram triviais, até ofensivas. Mas naquele dia o Senhor me tocou, e decidi que não voltaria a falar contra a Casa do Senhor. Eu não faria piadas. Eu não diria que eu sabia mais do que os profetas. Eu escutaria. E eu me arrependeria. E espero que um dia eu possa testificar, como testificou aquele nobre homem. Com o tempo, muito mais me foi revelado do que eu jamais havia sonhado.

Mas havia três coisas erradas em mim — e ouso supor que talvez também se apliquem a alguns de vocês. Primeiro: eu nem tinha lido cuidadosamente as escrituras sobre o templo. Não me havia ocorrido que, só em Doutrina e Convênios, houvesse mais de trezentos versículos que falam sobre o templo e sobre os “comos”, por assim dizer, da preparação. Eu não tinha lido o que as autoridades gerais disseram para nos ajudar. Eu não sabia que havia materiais como A Casa do Senhor, do élder James E. Talmage (um livro muito difícil, mas concentrem-se nas partes que têm a ver com os dias de hoje e com vocês, e isso pode ajudar); aquela notável compilação do élder Widtsoe, um livro chamado A Rational Theology [Uma Teologia Racional], que inclui seu excelente artigo Temple Worship [Adoração no templo], que alguns presidentes de estaca aqui da BYU ainda distribuem mediante solicitação como preparação; o livro Youth and the Church [Os jovens e a Igreja] do élder Harold B. Lee, que contém três capítulos tratando do assunto; O manual bem explicado Saviors on Mount Zion [Salvadores no Monte Sião], de Archibald F. Bennett, repleto de preciosidades. Pois bem, eu nem havia olhado para nada disso.

Em segundo lugar, receio que eu estivesse afligido por vários tipos de indignidade e não estivesse com pressa para mudar tudo isso. Ah, falamos sobre isso e desejamos isso. Queremos mudança, mas não a queremos o suficiente. Somos (e não dou risada do pobre Santo Agostinho por ter dito isso) como Santo Agostinho, que disse em uma oração: “Ó Deus, torna-me puro… mas ainda não.” Falamos de sacrifício. O que o Senhor pede de vocês agora é o sacrifício de seus pecados – a coisa mais difícil do mundo de se entregar. Ainda há um certo prazer contraditório. Mas a promessa de Deus é clara: “Se vos purificardes e vos santificardes, eu vos abençoarei.” E receio que a conclusão seja: “E se não o fizerem, não posso fazê-lo.”

O terceiro ponto é que eu tinha uma hostilidade contra o ritual e o simbolismo. Fui ensinado – com boas intenções, não tenho dúvidas – por pessoas dentro e fora da Igreja, que não acreditamos em cerimônias pagãs; que não acreditamos em todos esses procedimentos e rotinas; que isso era coisa da antiga igreja apóstata; que já tínhamos superado tudo isso. Bem, na prática estávamos descartando o essencial junto com o que parecia não ter valor. Não somos contra as ordenanças. Deus as revelou novamente. E suspeito que elas sejam tão eternas quanto aquilo que muitas vezes chamamos de leis eternas. Existem certos padrões ou programas – certas correntes de transmissão que são eternas. As ordenanças estão ligadas a elas, isso se não forem idênticas a elas. Deus assim decretou, mas esse decreto é baseado na natureza eterna das coisas. Vocês não podem receber os poderes da divindade, diz o versículo, a não ser por meio das ordenanças (Ver D&C 84:20). Bem, isso nunca tinha penetrado na minha alma. Eu pensava que nossos sacramentos eram um tanto embaraçosos e que algum dia poderíamos até abandoná-los. Um dia, de repente, se tornou claro para mim: este é o padrão do Senhor para o nosso sustento. Precisamos de transformação espiritual. Podemos comer, receber, beber — e o Senhor usa todas essas metáforas — da Fonte Viva por meio das ordenanças.

Bem, oro para que vocês alcancem o que está escrito, busquem o arrependimento e o reconhecimento de que as ordenanças são canais de poder vivo.

Pedir e receber em Espírito

Alguns de vocês estavam bem atentos à oração dedicatória, e talvez tenham sentido o poder que se manifestou nela. Essas orações, desde o início, foram dadas por revelação – e esse fato tem sido intrigante para alguns. Como pode o Senhor revelar uma oração para ser oferecida a Ele próprio, que a revelou? Pois bem, não há nada de contraditório nisso. Ninguém pode saber plenamente o que deve pedir até que receba orientação do Senhor. A revelação moderna declara: “Aquele que pede em Espírito pede de acordo com a vontade de Deus” (D&C 46:30). É preciso ouvir para saber o que dizer. E orações que só pedem e não escutam não são muito eficazes.

O templo é o lugar onde vocês podem vir a entender o que o Senhor quer que vocês peçam. E é o lugar onde vocês podem pedir — em silêncio, em alegria, com sinceridade.

Anos atrás, participei do Comitê de Genealogia da Estaca Ensign. Fizemos uma série de serões. O último dos seis foi proferido pelo presidente Joseph Fielding Smith. (Aliás, um detalhe interessante: seis de nossos Presidentes foram presidentes de templo, sendo ele um deles.) A última palestra foi sobre o casamento no templo. Mas, na semana anterior, pediram-me para falar sobre os propósitos vitais do templo. Foi algo desafiador para mim. Eu estava falando para os jovens. O mais notável veio no final do que eu disse. Eu queria, de alguma forma, que eles soubessem que minha própria certeza sobre o casamento vinha de dentro das paredes do templo; que, de fato, minha esposa e eu tínhamos tido tanto um namoro quanto um casamento no templo. Foi no templo que mais tarde lhe dei um anel.

Mas eu não queria reconhecer publicamente que iria me casar com aquela moça. Isso ainda não havia sido dito em particular, e, portanto, achei que não deveria ser dito em público. Mas naquela noite desceu sobre mim (e tenho uma gravação em fita que conta a história) um testemunho tão forte que anunciei: “O Senhor revelou-me que devo me casar — e com quem.” Ela estava na primeira fila, sentada ao lado do meu pai. Foi uma surpresa para ele também. Houve muitas lágrimas. Vocês já ouviram a frase de Pasternak: “Esteja tão próximo de quem você ama que, quando eles choram, você sente o gosto do sal”? Eu senti. Fiquei atônito com o que havia dito e quis, de algum modo, suavizar, corrigir ou até mesmo retirar minhas palavras. Isso se mostrou em vários segundos de silêncio. Por fim, tudo o que pude fazer foi dizer: “Em nome do Senhor, amém”, e sentar-me.

Agora, o que isso tem a ver com a mensagem de hoje? Isto: eu testifico que o Espírito do Senhor inspirou a cada um de vocês, individualmente — a maioria dos que estão aqui hoje — que aquela cidade sobre o monte, aquele templo, pertence a vocês; que algo nele pode mudar suas vidas; que vocês precisam buscá-lo, honrá-lo, e, se necessário, sacrificar por ele — até mesmo seus pecados. E alguns de vocês têm resistido a isso, assim como eu resisti, porque isso significa mudança — talvez uma mudança dolorosa. Mas testifico a vocês que esse é o Espírito de Deus. Este vale nunca mais será o mesmo agora que aquele edifício está ali, dia e noite, como testemunha. E vocês serão transformados se honrarem esses sussurros e permitirem que o Senhor os receba. Presto testemunho de que Ele vive. E presto testemunho de que Ele está em Seus templos, que Ele ministra pessoalmente e que ali se manifesta aos fiéis. E que entrar na Casa de Deus, aconteça o que acontecer, é equivalente a estar nas comportas do Canal do Panamá: enquanto o navio é parado, depois de sua jornada anterior, a água sobe e o envolve — e então ele parte para um novo oceano. Testifico que o poder de Cristo está em Seu templo e que é o desejo Dele que todos vocês bebam profundamente, recebam poderosamente e depois testifiquem dignamente dessa gloriosa verdade. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Uma casa de glória

Truman G. Madsen era professor de filosofia na Universidade Brigham Young quando proferiu este discurso no devocional do dia 5 de março de 1972.