Lições sobre perseverança J. Ty Hopkins 7 de agosto de 2026 https://speeches.byu.edu/por/talks/j-ty-hopkins/licoes-sobre-perseveranca/ --- Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu Há décadas venho ao Marriott Center para devocionais e palestras. E, a cada vez, saio sentindo-me inspirado. Sou tão grato por este tempo que temos juntos a cada semana! Este é um lugar incrível. Alguns meses atrás, quando anunciei à minha família que fui convidado a dar um discurso no devocional, a resposta unânime foi: “Sério? No devocional de terça-feira? Tem certeza?” Nem preciso dizer que é com muita humildade que falo aqui hoje, e oro para que todos saiamos daqui inspirados.  Como muitos de vocês, sou fascinado por histórias e relatos de sobrevivência e perseverança. Alguns de meus exemplos favoritos incluem: Sir Ernest Shackleton: Depois que seu navio, o Endurance, ficou preso e acabou esmagado pelo gelo na Antártica, toda a tripulação sobreviveu por mais de um ano e meio em condições extremas e, depois, navegou por uma travessia impossível em águas abertas em um bote salva-vidas de madeira. Que história incrível de sobrevivência!  Juliane Koepcke: Após seu pequeno avião se partir em pleno ar, Koepcke, ainda presa ao banco de passageiro, caiu cerca de 3.000 metros de altitude. Sobrevivendo à queda com ferimentos graves, ela caminhou e nadou pela floresta peruana por cerca de 10 dias.  Louis Zamperini:1 Seu avião foi abatido sobre o Oceano Pacífico e, depois de sobreviver ao acidente e a quarenta e sete dias à deriva, ele acabou em um dos campos de prisioneiros de guerra mais brutais da Segunda Guerra Mundial. Contra todas as probabilidades, ele sobreviveu por vários anos no campo de prisioneiros.  Há tantos relatos extraordinários de sobrevivência e perseverança! Com cada um deles, me pergunto: “Como fizeram isso? De onde essas pessoas tiraram força, resistência, resiliência e perseverança?” Ao estudar o corpo humano nas últimas décadas, comecei a apreciar algumas das possíveis respostas a essas perguntas. Nosso incrível corpo humano belamente se adapta a estresses, cargas e ambientes. Há milhares de processos complexos envolvidos na resistência física: mecanismos que promovem  adaptação em músculos e ossos, no sistema cardiorrespiratório, no sistema nervoso e em quase todos os outros sistemas do corpo. Fico maravilhado com a resiliência da mente humana e sua capacidade de se adaptar de maneiras complexas. E, por último, mas certamente não menos importante, fico impressionado com o poder do espírito humano. A combinação dos dons do corpo, da mente e do espírito nos dá a capacidade de fazer coisas inacreditáveis!  Quando mais jovem, eu era fascinado pela ideia de perseverança. Eu adorava qualquer tipo de corrida, e a imagem da fita sendo rompida na linha de chegada, na emoção da vitória, se repetia frequentemente em minha mente. Tenho uma lembrança nítida: Eu era um jovem estudante do Ensino Médio e, logo cedo pela manhã, estava sentado em minha aula de seminário em Kerrville, Texas. Naquele ano, estávamos estudando o Livro de Mórmon e, naquela manhã em particular, estávamos estudando 2 Néfi 31. Embora eu não lembre de ter aprendido qualquer coisa sobre o restante do capítulo (mesmo sendo um ótimo capítulo!), lembro de um versículo em particular. Esse versículo me tocou muito e é um dos meus favoritos até hoje:  Deveis, pois, prosseguir com firmeza em Cristo, tendo um perfeito esplendor de esperança e amor a Deus e a todos os homens. Portanto, se assim prosseguirdes, banqueteando-vos com a palavra de Cristo, e perseverardes até o fim, eis que assim diz o Pai: Tereis vida eterna.2  Sentado naquela classe do seminário, minha mente foi imediatamente para a imagem da fita sendo rompida na linha de chegada — um momento de exaustão e triunfo. Naquele momento, interpretei o versículo de Néfi desta maneira: se trabalharmos arduamente (seguirmos em frente e aguentarmos firme), perseverarmos e atravessarmos a linha de chegada, então receberemos um grande prêmio (a vida eterna). Meu foco estava 100% na linha de chegada.  Hoje, quero falar para vocês como minhas experiências me levaram a pensar sobre perseverança de uma maneira diferente e mais significativa. Quero falar sobre as lições que aprendi sobre a perseverança — um pouco sobre o que aprendi como cientista do exercício, mas, especialmente, o que aprendi em minha jornada para encontrar alegria ao tentar seguir Jesus Cristo.  Perseverar exige trabalho  Em 2010, eu estava sentado em uma recepção aguardando uma consulta. Peguei uma revista chamada Outside e comecei a folhear as páginas até que uma matéria me chamou a atenção. O título era “A corrida de bicicleta mais difícil do mundo não acontece na França”.3  Sou ciclista e entendi muito bem que o autor se referia ao evento de ciclismo mais celebrado do mundo, o Tour de France. Quando comecei a ler, porém, fiquei intrigado por qual realmente é a corrida de bicicleta mais difícil do mundo, o Tour Divide. O Tour Divide é uma corrida  de mountain bike menos conhecida, em estilo autônomo, que segue a Divisão Continental desde de Banff, no Canadá, até a fronteira dos EUA com o México. Além de ter mais de 4.000 quilômetros de estradas de terra em áreas remotas e esquecidas, com mais de 60.000 metros de subida acumulada, a corrida é completamente autônoma. Cada ciclista tem que carregar seu próprio equipamento e estar preparado para qualquer condição: chuva, neve, calor escaldante, ventos brutais, passagens intransitáveis e até ursos gigantes. Não há postos de ajuda, entregas pré-planejadas de mantimentos, nem pessoas para consertar a bicicleta ou salvar o ciclista das intempéries – apenas algumas pequenas cidades montanhosas e suas lanchonetes e postos de gasolina.  Adorei a ideia de estar completamente por minha conta e perseverar contra a distância, as intempéries, falhas mecânicas e quaisquer desafios que pudessem surgir. Li cada palavra daquele artigo e imediatamente comecei a me perguntar se conseguiria fazer isso algum dia. Que feito incrível de perseverança!   Apenas algumas semanas depois, por um feliz acaso, eu estava conversando com outro ciclista de mountain bike que também sonhava desafiar o Tour Divide. Não somos muitos. Adam e eu nos tornamos amigos na hora, assim como parceiros de treino, e ele é um dos meus melhores amigos até hoje. Nossos caminhos um dia nos levariam ao Tour Divide. Voltarei a essa história daqui a pouco.  Em minha simples interpretação de 2 Néfi 31:20 como jovem aluno do Ensino Médio, eu estava certo —  absolutamente certo — sobre uma coisa. Lição número um sobre a perseverança: perseverar exige trabalho — trabalho árduo. Não há substituto para isso. Perseverança não é o processo de simplesmente esperar passivamente que algo passe. O élder Dieter F. Uchtdorf ensinou desta maneira:  Quando nosso carroção fica atolado na lama, é mais provável que Deus ajude o homem que desce e o empurra do que o homem que apenas ergue a voz em oração, por mais eloquente que seja.4  Fui criado por pais que valorizavam o trabalho, e eles me ensinaram seu valor desde cedo. Com o exemplo deles, aprendi que o trabalho pode ser uma ferramenta fantástica para compensar muitas desvantagens e deficiências. Aprendi que uma ótima maneira de me tornar mais rápido, mais forte, mais inteligente e mais habilidoso era simplesmente arregaçar as mangas e começar a trabalhar. No corpo, o esforço e o trabalho são estímulos que desencadeiam uma série de eventos que levam a adaptações positivas de força, perseverança e potência. Esse mesmo esforço pode resultar em melhor cognição, humor e memória. O trabalho dá resultado a curto prazo ao nos ajudar a realizar a tarefa diante de nós. Mas, compensa ainda mais a longo prazo, melhorando nossos resultados físicos, mentais, emocionais e espirituais, e fortalecendo a confiança para trabalhos futuros. Quando o presidente Gordon B. Hinckley enfrentou dificuldades como missionário, ele atribuiu a melhora de sua experiência missionária a seu pai, que simplesmente lhe disse: “Vá trabalhar”.5 O trabalho é uma ferramenta de aprimoramento. Ele nos refina e constitui um ingrediente absolutamente indispensável da perseverança. De fato, Néfi nos ensinou isso quando começou 2 Néfi 31:20 com “prosseguir” e, então, voltou a enfatizar a palavra no meio do versículo. Para mim, ele estava dizendo: “Mãos à obra!” Na minha busca para conquistar a Tour Divide e com minha compreensão relativamente simples de perseverança, mantive meu foco no trabalho. Foi o princípio no qual pendurei meu capacete de ciclismo. Comecei a ir de bicicleta para todos os lugares, inclusive de nossa casa, em American Fork, Utah, para o trabalho, a cerca de 30 km de distância, e então de volta. Quando isso ficou fácil demais, passei a acordar mais cedo para pedalar pelas montanhas no caminho para o trabalho e de volta para casa. Participei de todas as competições de ciclismo que pude, incluindo eventos de 12 e 24 horas. Andei de bicicleta no inverno, na neve, e, muitas vezes, à noite nas montanhas. Adam e eu carregávamos nossas bicicletas com equipamentos e suprimentos, e pedalávamos por vários dias pelos desertos e montanhas do Oeste. Notei que meu condicionamento físico e minha capacidade de tolerar o desconforto melhoraram drasticamente. O trabalho estava valendo a pena. Depois de alguns anos desse trabalho árduo, eu estava pronto para me colocar à prova. Em 2013, Adam e eu decidimos correr nosso primeiro evento de ultra-resistência: a Colorado Trail Race, que se estende de Durango a Denver, no Colorado. São mais de 900 quilômetros de trilhas acidentadas, remotas e implacáveis, percorrendo quilômetros e quilômetros de cumes e prados nas montanhas. Estudei o percurso para ver onde poderia reabastecer comida e água, e criei metas para cada dia, com a meta final de cruzar a linha de chegada em cinco dias. Eu estava particularmente preocupado em chegar à pequena cidade montanhosa de Silverton no primeiro dia, onde eu poderia reabastecer antes que a loja fechasse às 19h. Não haveria outro ponto de reabastecimento por pelo menos dois dias após Silverton — era uma parada essencial. Se eu chegasse à loja depois que ela fechasse, seria obrigado a passar a noite lá, o que me forçaria a percorrer trilhas expostas quando as tempestades chegassem na tarde seguinte. Então, em minha mente, a corrida dependia da minha capacidade de chegar à loja em Silverton e reabastecer no primeiro dia para que eu não fosse morto por um raio no dia seguinte. No momento, isso me pareceu bem racional. A corrida começou às 4h. Eu tinha certeza de que não teria dificuldades para chegar a Silverton antes das 19h. Não haveria problema algum. Como vocês podem imaginar, eu estava completamente enganado. A trilha foi muito mais difícil do que eu esperava, subindo milhares de metros nos primeiros cinquenta quilômetros. A altitude me prejudicou, assim como minha má administração de comida e da água. Minha bicicleta, sobrecarregada, pesava mais do que eu estava acostumado, e tive que empurrá-la por horas seguidas em condições nas quais pedalar era impossível. Isso resultou em bolhas enormes, além de minhas pernas cansadas, dores nas costas e cabeça latejando. Para piorar, eu estava desenvolvendo uma atitude muito ruim. Eu estava em má forma física e mental, e, talvez o mais importante, comecei a duvidar que conseguiria chegar a Silverton antes das 19h. De fato, passou das 19 horas, das 21 horas, e uma escuridão pairou, passando também das 23 horas. Por volta desse horário, com a bateria da minha lanterna de cabeça cada vez mais fraca, minha roda dianteira ficou presa entre duas pedras em um córrego e eu caí, batendo minha cabeça em algumas pedras no processo. Meus óculos estavam quebrados, meu rosto sangrava e me vi sentado no chão molhado, derrotado. Machucado e exausto, abri meu saco de dormir e minha capa protetora impermeável no chão frio e irregular e me enfiei dentro deles. Eu estava acabado. Decidi desistir. Com lágrimas nos olhos, acabei adormecendo. Algumas horas depois, sentei-me em meu saco de dormir e vi o sol nascente começar a iluminar o horizonte ao leste, criando uma imagem incrível dos picos em contraste à luz do sol. A claridade também revelou a aparência do lugar onde eu havia dormido. Como eu tinha chegado no local depois de escurecer, só então é que percebi estar à beira de um vasto prado montanhoso cheio de flores e coberto de orvalho matinal. Sentei-me em silêncio e absorvi a cena. Eu ainda estava determinado a desistir, mas também estava maravilhado com a beleza que me cercava e fiquei pasmo por não ter notado nada assim no dia anterior. Eu sabia que aquela não era a primeira vista deslumbrante pela qual eu tinha passado em quase vinte horas de ciclismo em uma das cadeias de montanhas mais espetaculares dos Estados Unidos. Será que tinha deixado tudo passar despercebido? Independentemente disso, eu estava determinado a encontrar o caminho de volta pra casa. Mas, para poder desistir, tive que percorrer os 16 quilômetros até Silverton. Aqueles 16 quilômetros foram simplesmente incríveis. Comecei a reconhecer as paisagens deslumbrantes. A trilha foi divertida e rápida, e, ao contrário da minha atitude anteriormente ruim, eu agora estava sorrindo e ignorando o quão desconfortável estava. Até ri alto enquanto percorria aquelas trilhas espetaculares. Em Silverton, sentei-me em uma calçada de madeira que acompanhava a rua principal de chão batido, comendo um burrito de um quilo. Eu não conseguia parar de pensar no prado cheio de flores. Fiquei impressionado com sua beleza e como esta me fez sentir, e fiquei pensando em como devia ter perdido paisagens e sentimentos semelhantes no dia anterior. Decidi, então, talvez em um momento de fraqueza, que continuaria. Não estava pronto para desistir. Eu ainda estava preocupado com os raios, e minhas pernas estavam cansadas e pesadas, mas prometi prestar atenção e apreciar toda a experiência. Eu não deixaria mais nenhum prado coberto de flores passar despercebido. Os cinco dias seguintes acabaram sendo algumas das experiências de ciclismo mais bonitas da minha vida — uma experiência fantástica. E, não fui atingido por um raio. Perseverar é aprender Estou ciente de que só estou falando sobre andar de bicicleta, mas aquela experiência me transformou e mudou minha percepção daquele versículo favorito em 2 Néfi. Eu não mais achava que a perseverança se tratava somente de trabalho. Não me apeguei mais à ideia de que perseverança era apenas aguentar firme e sobreviver até a linha de chegada. Perseverança não era um mal necessário que precisava ser suportado para se conseguir um prêmio. Em vez de me concentrar em atravessar a linha de chegada com os braços erguidos, meu foco passou a ser a jornada: o processo. Havia tantas paisagens, sons e sentimentos que eu tinha deixado passar durante aquele primeiro dia da Colorado Trail Race. Percebi que essas sensações e sentimentos poderiam ter me afetado profundamente, assim como a experiência de acordar naquele belo prado montanhoso me afetou. É isso que a perseverança realmente é: o processo de aprender e crescer durante um esforço contínuo e de se ver o que há de bom em circunstâncias difíceis. É um processo que leva ao refinamento e ao crescimento.  Perseverança era algo que eu queria e precisava em minha vida. Sempre apreciei os benefícios do trabalho e do esforço, mas agora também aprendi que a perseverança era uma grande oportunidade de enxergar o bem e aprender com os desafios, o que abriu as portas para bastante crescimento. Foi o processo — e não apenas o resultado final — incluindo todas as experiências, tanto positivas quanto negativas, que me moldou. E, no fim, foi esse processo que me levou à linha de chegada com muito mais alegria. Embora a trilha acidentada exija nossa atenção, precisamos, também, dedicar tempo às flores. Tem que ser intencional, ou não acontecerá. Cada pessoa aqui hoje está enfrentando desafios: emocionais, físicos, espirituais, acadêmicos, nos relacionamentos, no trabalho, nos chamados e na família. Haverá terrenos acidentados, bolhas e quedas, mas também haverá prados floridos. Será que os veremos? Devemos prestar atenção às flores, apreciá-las e precisamos aprender com os caminhos difíceis. O processo, não o resultado final, nos permitirá encontrar alegria em nosso percurso até a linha de chegada. A perseverança pode conectá-los a Deus Ao tentar aplicar essas lições em minha vida e no ciclismo, me encontrei em Banff, na província de Alberta, no Canadá, na linha de partida para o Tour Divide de 2018. Após anos de preparação e uma tentativa fracassada em 2017, a hora finalmente havia chegado. Eu estava nervoso. A previsão era de chuva e frio para os primeiros cinco dias da corrida. As montanhas eram imprevisíveis no início de junho, e eu passaria de bicicleta por uma área repleta de ursos pardos. Eu estava nervoso por causa das muitas coisas que não seria capaz de controlar, mas estava determinado a prestar atenção ao percurso e mergulhar de cabeça na experiência. Mais uma vez, o percurso e a experiência foram muito, muito mais difíceis do que eu imaginava. A distância a ser pedalada a cada dia era imensa. Em média, eu passava cerca de dezoito horas por dia pedalando e dormia apenas quatro horas por noite. Quando chegava a hora de encerrar meus esforços do dia, eu dormia onde podia, inclusive em um banheiro externo do serviço florestal, para me proteger de um urso pardo ameaçador. O clima era extremo às vezes, com vários momentos em que eu estava à beira de hipotermia. Depois de apenas alguns dias, meu corpo estava destruído: eu estava constantemente desconfortável, problemas no joelho e nas costas foram gradualmente ficando mais intensos, problemas gastrointestinais tornaram extremamente difícil manter as doze mil calorias diárias e as feridas causadas pelos pontos de contato com a bicicleta tornaram quase impossível sentar no selim. Eu também estava sofrendo mentalmente. Minha confiança estava diminuindo, e eu frequentemente me repreendia por erros simples e sem importância. Meu entusiasmo e pessimismo pareciam oscilar de acordo com minha capacidade de ingerir calorias. Tinha muita saudade da minha família — muita mesmo. Todos os dias eu pensava em desistir. Alguns de vocês talvez consigam se identificar com esses sentimentos. Foi nessas condições que aprendi minhas próximas lições valiosas sobre a perseverança. As condições difíceis criaram um ambiente de aprendizado incrível. Logo no início da corrida, percebi que certamente precisaria de ajuda, mas não havia nenhum outro participante da corrida ou espectador autorizado a me ajudar — a essência da corrida é a autossuficiência. Compreendi que teria que buscar ajuda de uma fonte superior. No meio da corrida, eu estava destruído e abatido; meu orgulho estava no nível mais baixo possível, e comecei a procurar soluções inspiradas para os muitos desafios que estava enfrentando. A inspiração veio e isso fez toda a diferença. Cada manhã era brutal. Após poucas horas de sono, eu me arrastava até a minha bicicleta por volta das 4h da manhã. Eu estava extremamente rígido e dolorido e incapaz de realmente sentar no selim da bicicleta. Além disso, geralmente estava muito frio e molhado lá fora, e a escuridão adicionava um elemento de solidão. As manhãs pareciam sem esperança. Todos os dias eu dizia a mim mesmo: “Não tem como eu fazer isso de novo hoje.” Finalmente, decidi que aquele era um bom momento para orar, em voz alta, enquanto pedalava. Eu estava sozinho durante esses momentos e tive horas e horas de conversa diária com meu Pai Celestial. Quase sem nenhum orgulho sobrando, minhas orações eram sinceras. Elas eram brutalmente honestas e muitas vezes carregadas de emoção. Na tentativa de parar de focar nas coisas negativas, tentei pensar em tudo pelo qual me sentia grato, às vezes até falando sobre coisas meio inusitadas. Por exemplo, durante uma dessas sessões de oração matinal, me encontrei agradecendo ao Pai Celestial pelo isolamento térmico sintético de minha roupa, o que permitia que me mantivesse aquecido mesmo quando molhado. E, então, entrei em um debate sobre isolamento térmico natural versus sintético. Foi um tanto bobo. Tive algumas experiências maravilhosas e passei horas incríveis orando por minha família, fazendo listas mentais das coisas que amo sobre minha maravilhosa esposa, Holly, e como eu queria compartilhar com ela todas as coisas que estava sentindo. Senti-me muito grato pelo apoio que ela me dava. Senti-me — e sou — extremamente afortunado por tê-la em minha vida. Pensei nos desafios que cada uma de minhas quatro filhas enfrentaria nos próximos anos e em como poderia ensinar as coisas certas para ajudá-las em suas decisões futuras. Orei por familiares e amigos, fazendo listas de pessoas com quem eu queria me reconectar e descobrir como elas estavam. Orei por meus alunos e pensei em maneiras pelas quais eu poderia ajudá-los a ter sucesso em suas vidas. Eu ria e chorava em voz alta durante esses momentos, e sentia como se meu Pai Celestial estivesse rindo e chorando ao meu lado. Ele estava bem ali. Eu sentia isso. Essas manhãs foram incrivelmente especiais. E, a cada manhã, imerso em minhas conversas com Deus e quase sem perceber, eu acabava me acomodando no selim da bicicleta e subindo a próxima montanha. Recebemos um dom com verdadeiro poder: uma linha aberta de comunicação com nosso Pai. Se conseguirmos nos humilhar o suficiente — sem reter nada, abrindo completamente nossa alma Àquele que já nos conhece — prometo que poderemos sentir Sua presença e Seu amor de uma maneira muito real. Se pudermos ser gratos e desviar nossos pensamentos de nós mesmos, seremos abençoados com uma força adicional que nos sustentará, beneficiando a nós mesmos e a outras pessoas. Esses dons de oração e gratidão me possibilitaram continuar a cada dia. Esses são dons que precisamos escolher aceitar e usar. Por favor, façam essa escolha. Todos os dias, em algum momento, sentia que estava chegando ao meu limite. Era terrível sentir que eu simplesmente não podia mais continuar. Que não conseguiria girar o pedal mais uma única vez. Quando senti que estava chegando perto de meu limite máximo, me senti inspirado a pegar meu telefone enquanto pedalava e começar a gravar por voz os acontecimentos – bons, ruins e feios – das últimas 24 horas. Tentei registrar como me sentia e o que pensava. Eu queria me lembrar de tudo isso. Esse processo me ajudou de três maneiras: A ver e a me concentrar no que havia de bom no dia, e isso sempre me deu esperança para o percurso à minha frente. Era fácil me concentrar nas circunstâncias negativas, mas esse processo me ajudou a buscar intencionalmente as coisas boas. A entender o que eu poderia aprender com as dificuldades. Sempre havia uma lição a ser extraída. Sem aprender algo com as coisas difíceis, elas eram apenas isso: coisas difíceis, penosas e negativas, em vez de coisas positivas. Esse processo me permitiu aprender com aquelas dificuldades, e assim criar experiências positivas. A adquirir confiança de que eu poderia superar os desafios que certamente viriam no dia seguinte — ou até mesmo na hora seguinte. Tornei-me mais confiante de que eu seria capaz de enfrentar o próximo desafio. Tive que registrar esses acontecimentos para reconhecê-los, entendê-los e, por fim, aprender  com eles. Foi uma ferramenta poderosa para mim e me permitiu lidar com as circunstâncias à minha frente, assim como crescer por meio delas a longo prazo. Devo confessar que não tenho sido muito bom em manter um diário ao longo de minha vida, mas reconheço o poder de registrar meus pensamentos e sentimentos. Por favor, considerem o que registrar seus pensamentos pode fazer por vocês, especialmente durante os momentos difíceis. Houve momentos no Tour Divide que deixaram uma impressão incrivelmente profunda e significativa em mim. Acho que eu não teria sido afetado assim, de modo tão profundo, sem as circunstâncias extremas e o esforço que me levaram a buscar ajuda e inspiração além de mim mesmo. Aposto que cada um aqui hoje já ouviu, em algum momento da vida, que “você pode fazer coisas difíceis”. Isso é absolutamente verdade! Não tenho dúvida nenhuma de que cada pessoa aqui pode fazer coisas extremamente difíceis. Nossos corpos, mentes e espíritos foram criados para fazer coisas difíceis. E, a essa ideia, gostaria de acrescentar que precisamos de coisas difíceis, ou talvez até que devamos querer coisas difíceis. Esforços intensos e circunstâncias difíceis levam a um aprendizado e crescimento extraordinários. O élder Neal A. Maxwell ensinou esses princípios de uma maneira muito bonita: Sem paciência e mansa perseverança aprenderemos menos, veremos menos, sentiremos menos e ouviremos menos. Nós que somos egocêntricos e impacientes, abafamos grande parte de nossa capacidade perceptiva.  (…) Assim, a perseverança é um dos atributos principais; e simplesmente não pode ser desenvolvida sem a etapa laboratorial deste segundo estado. Mesmo as melhores preleções sobre a teoria da perseverança não bastam. Todas as outras virtudes básicas — amor, paciência, humildade, misericórdia, pureza, mansidão, justiça — todas requerem perseverança para seu pleno desenvolvimento.”6 Depois de dezesseis dias, alcancei a linha de chegada do Tour Divide. Foi um final solitário na desolada passagem da fronteira de Antelope Wells, no Novo México. Não havia fita de chegada, mas senti que tinha realizado algo grandioso. Vocês podem achar isso difícil de acreditar, mas amei cada minuto! Não percebi isso naquele momento, mas as lições que aprendi naqueles dias de corrida e anos de preparação mudaram a minha vida. Conclusão As lições que aprendi sobre perseverança incluem: O trabalho e o esforço são necessários e têm vários benefícios. A perseverança não acontece sem o trabalho. Perseverar é aprender. O processo pode nos ajudar a encontrar alegria ao trabalharmos em direção à linha de chegada. O processo, não o produto final, deve ser o nosso foco. Precisamos das coisas difíceis. Perseverar nas dificuldades nos torna mais humildes e nos aproxima mais de Deus. A oração e a gratidão são remédios extremamente poderosos. Por favor, usem-nas! Anotar nossas experiências nos ajuda a nos concentrarmos no que é bom e a aprendermos com os desafios. Toda realização, todo relacionamento, toda experiência exige perseverança. Neste momento, a maioria de vocês está perseverando durante este semestre e provavelmente vão ter que perseverar durante mais alguns anos de estudo. Muitos de vocês estão se preparando para perseverar em uma missão de tempo integral ou já perseveraram ao longo de uma. Perseveramos em viver o evangelho e em guardar convênios, bem como em chamados na Igreja, empregos, carreiras e em relacionamentos com colegas de quarto, cônjuges, amigos e filhos. Perseveraremos em desafios que virão de diversas formas. Cada um de nós está perseverando através de vários acontecimentos em nossas vidas neste exato momento. Esses acontecimentos podem ser difíceis, mas também são oportunidades positivas, extraordinárias e fantásticas! Vamos abaixar a cabeça e nos concentrar no “fim” ou vamos nos concentrar nas muitas experiências e oportunidades de aprendizado que acontecerão ao longo do caminho? Vamos considerar a perseverança como o simples ato de aguentar até o fim ou prestaremos atenção às flores, vendo a perseverança como um processo maravilhoso que conduz ao crescimento? A perseverança é uma dádiva! Recebemos um corpo, uma mente e um espírito incríveis que, juntos, têm a capacidade de perseverar através de muitas coisas. O élder Maxwell nos ensinou que o processo de perseverar é o mecanismo pelo qual desenvolvemos mais “amor, paciência, humildade, misericórdia, pureza, mansidão [e] justiça”, cujo fruto é a alegria duradoura. Néfi havia entendido isso muito bem. Ele certamente nos ensinou a prosseguir e perseverar, mas também nos ofereceu uma percepção incrível sobre o processo: ser firmes em Cristo (confiar Nele e arrepender-nos), ter um perfeito esplendor de esperança (ver o que há de bom), amar a Deus e ao próximo (ver além de nós mesmos e ser bondosos) e banquetear-nos com a palavra de Cristo (buscar ativamente coisas boas). Esse versículo nos diz o que é perseverança e como perseverar bem. Para encerrar, ao ponderarmos os ensinamentos de Néfi, consideremos a ideia de que o prêmio da vida eterna no reino celestial é uma simples continuação do processo que aprendemos na Terra: a perseverança. A perseverança nunca teve a intenção de ser um processo doloroso, esmagador e exaustivo, no qual há uma grande recompensa no final que faz tudo valer a pena. Por favor, nunca pensem que a alegria vem apenas no final. O objetivo da perseverança é nos ajudar a compreender e a perceber a alegria de se aprender e crescer agora, na Terra. Nosso Pai Celestial quer que encontremos alegria durante processo. Ele nos deu Seu Filho para que possamos fazer isso. Ele quer que sejamos felizes agora. Sigam em frente! Perseverem! Tenham alegria! Essa é minha oração por cada um de nós. Em nome de Jesus Cristo, amém.  © Brigham Young University. Todos os direitos reservados.