Banir todas as sombras Jeffrey R. Holland 10 de julho de 2026 https://speeches.byu.edu/por/talks/jeffrey-r-holland/banir-todas-as-sombras/ --- Pretendemos modificar a tradução se for necessário. Para dar sugestões, envie um e-mail para: speeches.por@byu.edu Algo engraçado aconteceu comigo no caminho para cá. Para garantir que não chegasse atrasado, comecei a viagem para Provo há mais de duas semanas. E, olha, ainda bem que fiz isso. Não sei bem onde é que virei na direção errada, mas, quando percebi, já estava vendo placas na estrada que diziam Jerusalém, Nairóbi, Bangalore e Hong Kong! Puxa vida, tive que me esforçar ao máximo para finalmente chegar aqui. E o mais curioso disso tudo é que foi o presidente Russell M. Nelson quem estava me dando conselhos sobre a rota que eu deveria seguir. Eu me pergunto se é assim que ele sempre conduz as pessoas de Salt Lake a Provo! A irmã Holland e eu voltamos recentemente de uma das experiências mais marcantes de nossa vida. Vocês conseguem imaginar dar a volta ao mundo em uma missão de ministração global com o profeta do Senhor e sua maravilhosa esposa? Foi uma experiência única na vida. Nas palavras frequentemente citadas de Oliver Cowdery, essas duas últimas semanas com o presidente e a irmã Nelson foram verdadeiramente “dias inolvidáveis”.¹ Este não é o momento nem o lugar para entretê-los com relatos de nossa experiência, mas presto testemunho de que o Presidente Russell M. Nelson é um profeta ordenado por Deus desde antes da fundação do mundo e que está exercendo esse chamado de maneira magnífica, tanto em público quanto em particular. Transmito-lhes seu amor como presidente do Conselho de Curadores da BYU, bem como o amor de todos aqueles que servem com ele, incluindo os presidentes Dallin H. Oaks e Henry B. Eyring. Não é pouca coisa, meus amados amigos, que aqueles que supervisionam a sua instituição de ensino sejam profetas, videntes e reveladores. Essa é apenas mais uma bênção muito especial com a qual vocês podem contar neste feliz dia de formatura. Em nome de todos vocês e de nosso conselho administrativo, agradeço ao presidente Kevin J. Worthen, aos seus colaboradores na administração, aos membros deste maravilhoso corpo docente e a toda a eficiente equipe desta universidade. Sou grato pelo esforço que todos dedicaram para tornar este dia o que ele representa para 6.300 formandos e diplomados. Obter uma educação é um trabalho árduo, mas proporcionar essa oportunidade também é um trabalho árduo. Durante nove maravilhosos anos, tive a feliz oportunidade de dizer aos alunos e suas famílias que um dia tão emocionante de triunfo acadêmico valia muito mais do que os dias difíceis que foram necessários para chegar até aqui — por parte de todos. Sei por experiência própria o que a BYU faz para proporcionar uma experiência universitária inigualável, mas conheço igualmente bem, e com ainda mais ternura, a economia apertada, a necessidade de poupar, os sacrifícios e o trabalho árduo que muitos alunos e seus pais enfrentaram para chegar a este momento. Ciente desse sacrifício por uma causa grandiosa — e a educação é uma causa verdadeiramente grandiosa —, quero que este seja um dia incrivelmente feliz para cada um de vocês. Vocês merecem isso. Oro para que todos os seus dias sejam assim. Fui informado de que deveria dizer algo sábio e original a vocês, mas, por ser incapaz disso, deixem-me apenas lembrá-los de uma ou duas coisas que vocês já sabem. Vocês vão pensar que houve algum tipo de acordo entre os oradores de hoje. Não houve, exceto pelo que foi orquestrado no céu. Quero que percebam que as fontes que vou citar são tiradas dos meus dias como estudante na BYU. Ah, já posso ouvir vocês reclamando! Uma aula de história antiga, dirão vocês. Lições tiradas de uma época anterior até mesmo ao início do relógio geológico da Terra. Sim, sou velho, mas me concedam essa liberdade. Faço isso, em parte, apenas para provar ao corpo docente que, às vezes, os alunos realmente se lembram de algumas coisas que lhes foram ensinadas aqui. Thomas Wolsey — Refrear a ambição Minha primeira reflexão é um aviso. Ela vem do homem que, em sua época, ascendeu até se tornar o leigo mais poderoso de todo o reino britânico da época, o magistral Thomas Wolsey, superado apenas pelo próprio lendário Henrique VIII em influência sobre o império. Sua história é um aviso — desnecessário para vocês, espero — contra subir a escada do sucesso de forma tão imprudente a ponto de descobrirem, no final, que a apoiaram na parede errada. Wolsey era filho de um açougueiro sem instrução de Suffolk, mas sua ambição impetuosa e seu imenso talento levaram-no a uma ascensão rápida na Universidade de Oxford e então na Igreja Católica, onde rapidamente se tornou capelão de Henrique VII. Mas a sorte de Wolsey prosperou de forma ainda mais dramática quando Henrique VIII subiu ao trono. Sob seu comando, Wolsey serviu como arcebispo de York e, finalmente, como cardeal, tornando-se provavelmente o membro mais influente de todos os tempos de um Conselho Privado do rei. Em pouco tempo, ele se tornou a figura dominante em todos os assuntos de Estado e em cada movimento político feito por seu monarca. Ele adorava ostentação e riqueza. Vivia em esplendor real e se deleitava em seu poder. Então, Ana Bolena entrou em cena. O jovem rei Henrique estava determinado a mover o céu, a terra, sua própria esposa, Catarina, e a Igreja Católica Romana para tê-la, mas os obstáculos eram quase insuperáveis. Henrique ordenou que Wolsey os superasse. Wolsey não o fez, porque não podia, e o fracasso revelou-se fatal. Apesar de uma ascensão ao poder político tão notável e praticamente sem precedentes, a queda de Wolsey foi repentina e total. Incapaz de obter a aprovação de Roma para o divórcio, Wolsey foi destituído pelo rei Henrique de todos os cargos e de todos os seus bens. Ele foi acusado de traição e recebeu ordem de comparecer em Londres para um julgamento que muito provavelmente resultaria em uma sentença de execução. Em grande angústia, partiu para a capital para enfrentar seu monarca. No caminho, adoeceu e faleceu. Com a ajuda de William Shakespeare, que lhes envia suas felicitações e pediu para ser lembrado hoje, convido-os a refletir sobre o lamento de “despedida” do cardeal Wolsey. Aos formandos da BYU presentes hoje, ele diz: Adeus! Um longo adeus a toda a minha grandeza! Tal é a condição do homem: hoje ele faz brotar As tenras folhas da esperança; amanhã floresce E traz sobre si, em abundância, suas honras viçosas; Ao terceiro dia vem uma geada, uma geada mortal, E … lhe corta a raiz, E então ele cai, como eu caio… … Meu orgulho, tão inflado, Por fim cedeu sob mim e agora me deixou, Cansado e envelhecido pelo serviço… … Eu te advirto: lança fora a ambição: Por esse pecado caíram os anjos; Como poderá o homem, então, A imagem de seu Criador, Esperar alcançar algo por meio dela? Ama a ti mesmo por último: Valoriza os corações que te odeiam; A corrupção não alcança mais do que a honestidade… … Se eu tivesse servido a meu Deus com metade do zelo Com que servi ao meu rei, ele não teria, em minha velhice, Me deixado nu diante de meus inimigos.2 Que fim trágico para um começo tão talentoso! Que despedida patética para uma vida que prometia tanto! E onde foi que deu errado? Deu errado quando a ambição pública de Wolsey se tornou mais importante do que sua integridade pessoal, quando transgredir os princípios morais se tornou mais vantajoso do que manter a retidão moral, quando o poder político e a riqueza indevida criaram uma sede cada vez maior pelo mesmo tipo de coisas, até que a vida honesta e o comportamento responsável deixaram de saciar essa sede e foram descartados pelo caminho, sem jamais serem recuperados. Se pudesse, pergunto-me se o cardeal Wolsey levantaria a voz do túmulo hoje, quase cinco séculos após sua queda abrupta, para citar a vocês uma simples passagem das escrituras que ele provavelmente leu mais de uma vez em suas funções clericais: “Pois que aproveita ao homem [ou à mulher], se ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? ou que dará o homem em troca da sua alma?”3 Vocês saem da BYU para entrar em um mundo político, social e econômico que seus pais nunca conheceram e com o qual seus avós jamais sonharam. Talvez isso seja verdade para cada geração ao longo da história. Mas, em minha idade avançada, eu jamais poderia ter imaginado, como estudante da BYU há mais de meio século, o mundo que vocês agora vão enfrentar. Muito desse mundo é incrivelmente belo e gratificante. Vocês têm ideia de que, quando eu era estudante da BYU, meus colegas tinham que esperar até talvez as 3 da manhã para poder usar, por alguns minutos, o único computador mainframe IBM da universidade para projetos que hoje vocês podem, quase literalmente — bem, não totalmente —, realizar em seus laptops? (Eu ia dizer no seu celular.) Quase nada parece impossível agora no mundo da ciência, da tecnologia e da biomedicina, incluindo coisas como engenharia genética, inteligência artificial e cirurgia fetal. E agora, vocês têm carros que dirigem sozinhos e pequenos dispositivos que tocam suas músicas favoritas, respondem às suas questões de matemática, dizem que horas são no Uzbequistão e passam manteiga na sua torrada — tudo isso antes mesmo de vocês saírem da cama! Mas nem tudo é tão cor-de-rosa pra todo mundo em todos os lugares. Em tantos países do mundo, incluindo partes do nosso próprio, esta pode ser uma época profetizada pelo meu poeta irlandês favorito, que advertiu: O falcão já não consegue ouvir o falcoeiro; …  o centro não consegue se manter; …  por toda parte a cerimônia da inocência é afogada; Os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores estão cheios de uma apaixonada intensidade.4 Não concordo que “os melhores carecem de toda convicção”, porque vocês, aqui sentados diante de mim, vestidos com suas becas e capelos, e tantas outras pessoas de bem ao redor do mundo, provam o contrário. Acredito que vocês são os melhores e conto com vocês para serem consumidos pela convicção. Mas, infelizmente, temo que, em muitos casos, “os piores [de nossos dias] andam cheios de uma apaixonada intensidade”. Nenhuma criança deveria ter que ir à escola com medo de não voltar para casa viva à noite para ver seus pais. Nenhum cidadão deveria ter que viver em um sistema — escolha uma nação, qualquer nação, ou marque um ponto aleatório em um mapa-múndi — onde a corrupção é desenfreada, onde o caos reina e onde o caráter de estadista, o discurso elevado (para não dizer elegante) e o comportamento pessoal digno são conceitos aparentemente estranhos. Nenhum jovem da sua idade — ou de qualquer idade — deveria ter que enfrentar condições, em tantos lugares, onde a pobreza e o abuso (incluindo o abuso sexual), a desnutrição e as doenças, o tráfico de pessoas e o terror ainda são a regra, e não a exceção, para muitas pessoas, incluindo muitas crianças. Bem, não quero me deter em nada negativo hoje, e vocês podem dizer que sempre foi assim ao longo do tempo. Talvez tenha sido mesmo. Mas não precisa ser assim! Então, saiam pelo mundo e espalhem sua luz. Sejam um raio de luz. Sejam a melhor versão de si mesmos e deixem seu caráter brilhar. Valorizem o evangelho de Jesus Cristo e vivam-no. O mundo precisa de vocês, e, certamente, o Pai Celestial precisa de vocês para que Seus abençoados propósitos para Seus filhos prevaleçam. Vocês vieram aqui para aprender. Agora, saiam para servir e fortalecer os outros. Se corrigir todos os males do mundo parece uma tarefa assustadora, que assim seja. Saiam pelo mundo e não se deixem intimidar. Se não pudermos contar com vocês para mudar o mundo, digam-me com quem poderemos contar.  John Donne — A escuridão sempre cede à luz Eis a razão pela qual vocês podem ter sucesso — meu segundo e último lembrete para vocês hoje. Trago-lhes palavras de incentivo de outro inglês, o talentoso filho de um mercador de ferro, um jovem brilhante que estudou Direito, viajou pelo mundo e voltou para casa para encontrar sua verdadeira vocação na poesia e no púlpito. John Donne foi, possivelmente, o maior de todos os poetas metafísicos, mas também alguém que alcançou o auge do sucesso ministerial, tornando-se decano da Catedral de São Paulo, em Londres, e pregando regularmente diante de Charles I e da família real. Os melhores de seus sermões são inigualáveis na história da Igreja Anglicana. Quase totalmente esquecido por mais de 300 anos antes de ser redescoberto, por assim dizer, há cerca de um século, John Donne retorna de seu túmulo para dar aos formandos da BYU uma palavra final de confiança ao embarcarem no caminho que os conduz firmemente ao futuro. Acabei de dizer que o mundo em que agora entram apresenta desafios e dificuldades. Nos dias e anos que se seguirão, vocês poderão passar por desânimo e decepção. Às vezes, poderão sentir verdadeiro desespero, seja por vocês mesmos, por seus filhos ou pelas dificuldades e condições de outras pessoas. Poderão até cometer alguns erros — erros graves, talvez, embora eu espere que não — e poderão temer que qualquer chance de se sentirem felizes e seguros na vida tenha escapado de vocês para sempre. Quando tais momentos chegarem, peço que se lembrem disto: esta é a Igreja dos finais felizes. As dificuldades nunca precisam ser permanentes nem fatais. A escuridão sempre cede à luz. O sol sempre nasce. A fé, a esperança e a caridade sempre triunfarão no final. Além disso, elas triunfarão ao longo de todo o caminho. O nosso pregador anglicano disse o seguinte a respeito disso: Pedimos o pão de cada dia, e Deus nunca diz: “Você deveria ter vindo ontem.” Ele nunca diz: “[Não tenho mais], você deve [voltar] amanhã.” Não, mas hoje, se você ouvir a voz Dele, hoje Ele o ouvirá… Deus… trouxe a luz das trevas, não de uma luz menor. Ele pode fazer surgir o teu verão do inverno, ainda que tu não tivesses [nenhuma esperança de] primavera; ainda que, nos caminhos da fortuna, ou do [mal]entendido, ou da consciência, tu [tenhas] estado nas trevas até agora, no inverno e congelado, nublado e eclipsado, úmido e entorpecido, sufocado e atordoado até agora, . . . Deus [ainda] vem a ti, não como no alvorecer do dia, não como no brotar da primavera, mas como o sol ao meio-dia, para [banir] todas as sombras, como os feixes na colheita, para preencher todas as carências. Todas as ocasiões convidam a Sua misericórdia, e todos os tempos são as Suas estações.5 Com tudo o que aprenderam aqui, que vocês possam deixar esta grande escola — que amo de todo o coração — seguros na promessa do amor infalível de Deus por vocês e nas bênçãos redentoras que fluem para sempre do evangelho de Jesus Cristo. Sem dúvida, vocês terão dias, para citar o Sr. Donne, em que poderão se sentir na escuridão, no frio, “nublados” ou “eclipsados”. Mas, se desejarem a misericórdia de Deus, prometo que a ajuda virá, “não como no alvorecer do dia, não como no brotar da primavera, mas como o sol ao meio-dia, [banindo] todas as sombras”. Todas as ocasiões convidam à misericórdia divina, e no céu é sempre tempo de colheita. Estejam seguros e protegidos, hoje e sempre, na vitória do reino de Deus sobre as tribulações e os males da mortalidade. Tenho mais certeza dessa vitória do que de qualquer outra coisa que já aprendi — na faculdade ou fora dela. Parabéns por esta conquista tão significativa. Como apóstolo do Senhor Jesus Cristo, abençoo-os hoje com promessas abundantes e paz profunda, independentemente dos desafios que possam estar enfrentando agora ou daqueles que ainda possam surgir. Abençoo-os para que cultivem uma vida de serviço e força espiritual, uma vida de caráter, integridade e fidelidade moral, e uma vida que lhes traga confiança quando estiverem na presença de Deus, nosso Pai Eterno — como todos nós certamente estaremos em um outro tipo de formatura que ainda está por vir. Até lá, que o sol brilhe sempre, como ao meio-dia, para vocês, banindo todas as sombras que, de outra forma, poderiam ofuscar sua felicidade. Expresso nosso orgulho por vocês, e que Deus os guarde nessa empolgante jornada que estão prestes a começar. Em nome de Jesus Cristo, amém.  © Intellectual Reserve, Inc. Todos os direitos reservados.